Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Muitos veem na Covid-19 uma oportunidade para o crescimento económico chinês, uma forma de se consolidar como potência mundial, mas talvez possa ser justamente o oposto. Talvez possa ser a solução de que precisamos face a um problema com quatro décadas.

Se me dissessem em 2019 que iríamos confinar uma boa parte da população mundial e desacelerar a poluição ambiental, não teria acreditado. Se me dissessem que em 2022 os modelos de trocas comerciais seriam repensados para excluir países que incumprem com as práticas comerciais e ambientais mundialmente aceites e infringem repetidamente os direitos humanos, também não teria acreditado.

O que há de semelhante entre os dois exemplos? A meu ver ambos são possíveis, é apenas uma questão de vontade. No primeiro, a vontade foi imposta pela necessidade de sobrevivência; no segundo, terá de ser imposta pela necessidade de civilização.

A China é alvo do olhar atento da comunidade internacional há vários anos e não só por políticas de escravidão moderna (que, de certo modo, também existem no Ocidente), ou por práticas de mercado desleais. Também noutras áreas dos campos humanitário, político e económico o Partido Comunista Chinês se tem esforçado em deixar a sua marca na História mundial, não sendo de todo a melhor.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Nos últimos anos tem-se falado muito dos campos de reeducação para muçulmanos. Permita-me o leitor um aparte para focar nesta expressão moderna de campos de concentração: campos de reeducação. Nestes campos, o governo chinês mantém dezenas de milhares da minoria muçulmana uigur para que possam aprender o “Pensamento de Xi Jinping” – sim, este é o nome que se dá à mais recente disciplina escolar das crianças chinesas. O que acontece a quem não o aprende não se sabe, mas o próprio conceito de campos de concentração no século XXI, deveria trazer à memória ocidental recordações intoleráveis.

Num exemplo ainda mais recente, temos a questão de Macau e Hong Kong. Quando Portugal acordou a devolução de Macau em 1999 fê-lo sob o propósito de que a República Popular da China (RPC) iria respeitar o princípio “Um País, Dois Sistemas” e que o modelo económico-financeiro macaense seria preservado por 50 anos. No mesmo princípio “Um País, Dois Sistemas” assentou a devolução de Hong Kong por parte do Reino Unido em 1997. O que vemos hoje é o total incumprimento deste acordo por parte de um regime prepotente que sabe que nem Portugal, nem mesmo o Reino Unido sozinhos têm força para o contrariar.

Poderíamos achar que o cancelamento da liberdade de imprensa nestes locais, a aprovação unilateral de leis que diminuem a soberania destes territórios ou a repreensão agressiva da liberdade de manifestação seriam apenas questões que dizem respeito aos visados no acordo, o que talvez seja verdade. O que não é assim tão linear é a questão de Taiwan. Este tópico remonta ao período da Guerra Civil Chinesa, que opôs as forças nacionalistas às forças comunistas. Como se sabe, as forças comunistas venceram a guerra, mas não evitaram a fuga do governo nacionalista para a ilha de Taiwan. Resultado: desde 1949 que a RPC (comunista) se considera o governo legítimo da China, o mesmo se passando com Taiwan (de nome oficial República da China).

Ora não me cabe a mim, ou a governantes de outros países, determinar o justo vencedor do conflito, mas o que é facto é que os dois “países” evoluíram em caminhos opostos (Totalitarismo versus Democracia), sempre evitando a questão da soberania. Até que este mês tivemos Xi Jinping, como que iluminado por Mao Tsé-Tung aquando da Reunificação Chinesa, a afirmar (note-se, afirmar) que a anexação vai acontecer; ao mesmo tempo que aeronaves de combate chinesas sobrevoavam o espaço de defesa aéreo taiwanês.

Facto curioso, apenas quinze países (a maior parte deles pequenos arquipélagos do Pacífico) possuem relações diplomáticas plenas com Taiwan. Quinze. Os restantes preferem relações plenas com a RPC. Destes, apenas quarenta e sete possuem relações diplomáticas parciais (Portugal não é um deles) com Taiwan.

Quando é que o Ocidente decidiu dar primazia a um regime autoritário face a um regime democrático? A resposta a esta pergunta é simples: em 1971, quando Taiwan perdeu o seu lugar na ONU e foi substituída pela RPC, através da resolução 2758 da ONU que tirou Taiwan de todas as organizações intergovernamentais das Nações Unidas.

A pergunta difícil é: porquê? Porque estamos dependentes económica e financeiramente da China, cada vez mais. Dos produtos eletrónicos ao TikTok. O governo chinês sabe disso e continua a fortalecer a sua posição ao mesmo tempo que vai testando os limites de um Ocidente mais e mais impotente.

Acredito que não devemos interferir nas políticas internas de um país soberano, mas uma situação é interferir, outra bem diferente é ser conivente, ou até mesmo facilitador. É preciso que se diga: nós somos o combustível da opressora maquinaria do Partido Comunista Chinês, que todos os dias ameaça as mais básicas convenções a nível ambiental, comercial e de direitos humanos.

A China transformou-se na fábrica do mundo e são precisamente as grandes empresas do Ocidente que mais beneficiam disso (a China continua a ser o maior produtor, por larga margem, de smartphones). Estas empresas têm muitas vezes a capacidade financeira para produzir de forma diferente, de acordo com melhores padrões laborais, comerciais e ambientais. Urge assim a necessidade de os governos “desenvolvidos” forçarem as grandes empresas que comercializam no Ocidente a terem os seus produtos desenvolvidos de acordo com as melhores práticas e em países que as respeitam de forma generalizada. É uma obrigação que não é só moral mas também necessária à nossa própria sobrevivência enquanto países soberanos.

Poderá pensar-se que esta retórica é impossível. Afinal de contas, olhando à nossa volta, tudo é feito na China, da lâmpada do candeeiro à madeira do móvel, passando pelos medicamentos. A verdade porém é que em 2019 seria também impossível confinar 3,9 biliões de pessoas em noventa países. A Humanidade conseguiu porque viu na Covid-19 uma ameaça à sua sobrevivência. Uma China que domina a economia global também será uma ameaça à soberania de muitos países. É isso que está a acontecer, com um desfecho cada vez mais inevitável a cada dia que passa.

Os países de “Ocidente” têm de iniciar um esforço concertado, movidos pela mesma ambição que os moveu no período pandémico, para restaurar o equilíbrio de forças, de economias e de Direitos Humanos no Globo. Passar a mensagem de que quem não joga de acordo com as regras do jogo também não o pode vencer. O novo tabuleiro deste jogo é Taiwan e a oportunidade não deve nem pode ser desperdiçada. É a chave de todo um novo processo que tem de existir face a esta nova China, assim exista ambição, vontade e coragem.

Xi Jinping afirmou que os taiwaneses deveriam ficar do lado certo da História. Não sei quanto aos demais, mas eu também quero que o meu País esteja e que esse lado não seja o de Xi Jinping.