Tal como em Portugal, os portugueses na diáspora deixaram o resultado das presidenciais para a segunda volta.
Com uma diferença relevante: contando apenas os votos das comunidades portuguesas no estrangeiro, André Ventura não só partiria como favorito, como o faria com uma margem de manobra bastante superior àquela com que António José Seguro arranca na sequência das eleições de ontem.
Ventura conseguiu quase o dobro dos votos de Seguro na diáspora. O suficiente para nos chamar a nós, emigrantes, fascistas. Parece que sair do país — a acreditar nos paladinos do progressismo — causa animosidade à democracia.
Talvez possamos refutar essa tese com a análise dos resultados em alguns países.
Comecemos pela Venezuela, esse paraíso dos direitos humanos, onde António Filipe logrou um único voto. A malta em Caracas sabe bem do que a casa gasta. Além de colocar o candidato comunista em último, não só atrás de Manuel João, como ocorreu em muitas outras nações, mas também de Humberto Correia (sim, Humberto Correia constava no boletim de voto), Ventura venceu na Venezuela com maioria absoluta. Até podia substituir Maduro — não sem antes obter o aval de Trump.
Ventura quase repetiu a façanha dos 50% no Brasil; ficou por um triz. O mesmo se aplica a praticamente toda a América, incluindo o Canadá, uma nação pouco conhecida por traços reacionários.
Em África, Ventura também falhou a maioria por uma unha negra. Não foi por culpa dos portugueses na África do Sul, que lhe deram mais de 80% dos votos. O continente não parece particularmente incomodado com os comentários alegadamente racistas do líder do Chega.
Antes de regressarmos à Europa, registe-se a junção da Ásia com a Oceania, cuja soma colocou Marques Mendes no topo da pirâmide. A China inclinou-se para o candidato-membro do PSD mais do que qualquer outra nação asiática. Já os países mais desenvolvidos da região — com exceção de Israel, onde Ventura fez valer o seu apoio aberto a um país de quem se tornou tabu dizer algo positivo, apesar de todos beneficiarmos da tecnologia de Tel Aviv — preferiram Cotrim. Refiro-me aos Emirados, Singapura e Catar, onde o setor privado qualificado define a emigração lusa. Ventura venceu ainda na Índia, com redondos 50%.
Apesar de mais equilibrada, a Europa foi também terreno de vitória para Ventura, com cerca de nove mil votos a mais do que Seguro. Conseguirá vencer uma segunda volta no continente? Afigura-se tarefa mais fácil do que ganhar a corrida final — empresa que, ainda assim, não lhe está fora do alcance.
Até fevereiro, nós, emigrantes, seremos todos fascistas. Vivemos lá fora, ganhamos bons salários, roubamos. Em suma, somos opressores. Como não temos a pele tisnada pelos 300 dias anuais de sol em Portugal, tornámo-nos “brancos”. Na segunda volta, poderemos redimir-nos — ou não.