Hannah Arendt nunca pertenceu a capelas ideológicas. Pensadora inquieta, refugiada, judia, cidadã do mundo, olhava para a política com um rigor ético que dispensava ortodoxias, desfez ilusões sobre o progresso e a história, e lembrou-nos, com insistência, que a liberdade não é uma predestinação. Compreendeu que a política é o espaço onde homens e mulheres se revelam, agem e decidem juntos, sem garantias.
O erro original de Marx foi a crença de que a revolução era inevitável, que o proletariado seria, por natureza, o sujeito redentor da história. Esse erro reduziu a política a uma mera consequência das leis económicas, e, nessa redução conceptual, retirou importância à liberdade coletiva e à responsabilidade individual.
Arendt, ao contrário, lembrou-nos que “a política é o reino da ação, da imprevisibilidade, da pluralidade humana”. Não há destino. Há escolhas.
A esquerda herdou esse erro de Marx e amplificou-o, ao decalcá-lo noutros temas, transformando a análise em moralismo, a crítica em doutrina e, sem revolução à vista, encontrou uma nova missão: a gestão das identidades. Substituiu o conflito social pelo mosaico cultural, a igualdade material pela representatividade simbólica e neste processo perdeu-se.
Hoje, a esquerda não se interroga, não faz autocrítica, só aponta o dedo aos outros: desde os moderados à extrema-direita, ao neoliberalismo, ao racismo estrutural, à masculinidade tóxica. Todos alvos reais, mas cuja denúncia permanente funciona também como fuga de si própria e distração do deserto político onde se encontra.
A esquerda tem recusado consistentemente o caminho da negociação, da construção institucional, da reforma possível. Tem escolhido, em vez disso, a retórica da denúncia, o maximalismo programático, a pureza ideológica. Incapazes de construir maiorias, incapazes de governar, não por falta de convicção, mas por fidelidade a uma linha de intransigência, confundido indignação com programa, utopia com viabilidade.
A moderação, palavra hoje bastante menosprezada é a única via pela qual a democracia pode funcionar. Um terreno onde se constroem compromissos, se aceita que não há soluções totais e onde se reconhece a dignidade do adversário. Arendt compreendia isso: “A liberdade exige espaço público, e esse espaço só existe quando aceitamos a pluralidade.”
Olho, nos dias de hoje, para a esquerda com inquietação. A esquerda moderada, a que defendia o trabalhador, o ensino público, a habitação digna, a justiça fiscal, teve um papel fundamental na saúde das democracias. Mas essa esquerda parece ter sucumbido às mãos de uma esquerda simbólica, atomizada, autorreferencial, que troca a ação pelo gesto e o povo pelo nicho, desertando do centro.
Arendt não deixou fórmulas, nem certezas, mas deixou avisos: “a liberdade nunca é garantida; é uma conquista constante contra a inércia, a mentira e o medo.” E talvez o maior medo da esquerda contemporânea seja o de se olhar ao espelho e reconhecer que abandonou a sua missão original.
A esquerda traiu-se a si mesma. E até que reencontre a coragem para olhar para si própria e não apenas para acusar em ofensas, feridas e identidades, continuará irrelevante. Não por falta de causas, mas por falta de caminho.
A tragédia da esquerda não foi enfrentar a direita, esse é o pulso vital de qualquer democracia. A tragédia da esquerda foi – tem sido – abdicar de se confrontar a si própria. No processo, perdeu a lucidez de criar o sentido da sua própria missão.