A religião sempre acompanhou o homem nas mais diversas manifestações. Para quem estuda as Relações Internacionais a religião é uma dimensão de análise fundamental para compreendermos o mundo em que vivemos. Sem a religião não seria possível compreender a resistência do povo timorense à ocupação indonésia ou a importância que foi ter um Papa polaco enquanto a Guerra Fria se ia desmoronando. A religião é também muitas vezes instrumentalizada como uma força para a violência e para a violação de direitos humanos.

Nenhuma religião esteve ou está imune a esta faceta sobretudo quando é um instrumento ao serviço da política. Para os cristãos o caminho não foi linear ao longo da história. Há, desde logo, a entrega incondicional de Jesus e o seu exemplo de tolerância, de não-violência, de atenção às mulheres e, em particular, às viúvas e o seu perdão redentor. Dois mil anos depois muito aconteceu. A comunidade cristã dividiu-se e foi aprendendo os custos terríveis de acumular o poder temporal e espiritual: as Cruzadas, a Reforma, a Contra-Reforma e a Inquisição, ou a Guerra dos 30 anos. Em paralelo, fomos incorporando a importância da secularização do estado e o papel crucial da liberdade religiosa.

Esta aprendizagem ao longo de séculos não foi fácil e hoje acarreta desafios diferentes em várias partes do mundo. Para muitos cristãos na Europa o desafio é fazer com que a secularização do estado não se imponha no espaço público numa versão jacobina ao estilo francês. A crença religiosa não é algo apenas “dentro de portas”, mas sim algo que nos acompanha em todas as dimensões da nossa vida. Mais ainda, sermos crentes e seguir Jesus não nos dá um estatuto superior ou moralista, mas torna a nossa vida muito exigente. Tal como o próprio exemplo de Jesus.

Igualmente importante é o respeito pelas outras religiões e por aqueles que não são crentes. A liberdade religiosa e a tolerância são um dos pilares mais importantes das nossas sociedades democráticas liberais. Para mim, que me converti ao Catolicismo com 28 anos, a exigência de Jesus foi um dos aspectos mais desafiantes da minha “vida nova”. E, ao mesmo tempo, assustador. Como fazer o Bem e estar atento aos outros sendo eu um ser humano e, logo, falível e incompleto? E há dias, vividos a mil à hora e dos quais a tecnologia não se compadece, que temos noção de que poderíamos ter feito mais e melhor.

Fora do Ocidente, os desafios sentidos e vividos por muitos cristãos são bem diferentes. Nesta época de Páscoa, de perdão, de morte e ressurreição, de calvário e bem-aventurança e de amor ao próximo, gostava que nos centrássemos naqueles que apenas por serem crentes são vítimas de ostracismo, de perseguição, de tortura e muitos, infelizmente, dão a vida pela sua Fé. Tenho acompanhado a história de Asia Bibi, uma cristã paquistanesa que foi acusada de blasfémia. Esta é aliás a “acusação do costume” em casos claros de perseguição religiosa. A sua história já foi aqui contada neste jornal: as condenações, as represálias, as mortes e o verdadeiro calvário. A sua absolvição final e a saída para o Canadá é algo pelo qual devemos dar Graças. Mas como nos alerta a diretora do secretariado português da Fundação de Ajuda à Igreja que Sofre “é preciso não esquecer que há muitas ‘asia bibis’ no mundo.” E também convém recordar que foram muito poucos os países que se prontificaram a acolhê-la.

Os cristãos estão em franco crescimento em muitas partes do mundo e, nesse sentido, os católicos não são excepção. A eleição de um Papa não-Europeu foi simbólica e crucial. O Papa Francisco consegue olhar para o Catolicismo de uma forma própria tendo em conta a sua experiência pessoal. A crescente diversidade de origens dos cardeais que formam o colégio de eleitores também é um sinal desse alcance universal e de uma religião que sob a orientação “argentina” se vai transformando do ponto de vista institucional. Esta é uma das muitas lições que podemos aprender com o Papa Francisco.

Por último, gostava de vos chamar a atenção para um indonésio de seu nome Basuki Tjahaja Purnama, ou numa versão mais popular do seu nome Ahok ou BTP, que acabou de cumprir uma pena de dois anos pelo “crime” de… blasfémia e que saiu da prisão em Janeiro deste ano. Ahok era o governador de Jakarta, um político muito popular, de etnia chinesa e cristão. A sua acusação foi obviamente motivada por razões políticas e também porque foi mais fácil “colar” a acusação de blasfémia a alguém da comunidade etnicamente chinesa. Esta comunidade é muito próspera e ao longo dos tempos foi sendo um bode expiatório e uma vítima de vários massacres e pilhagens. O ser cristão e não ter renegado a sua fé foi obviamente o “extra” que os radicais precisavam para o afastar e prender. Este é um de muitos exemplos por esse mundo fora de cristãos que enfrentam adversidades. Muitos sofrem mesmo o martírio. Por vezes ao ler alguns desses casos nos vários relatórios que acompanham a situação da liberdade religiosa no mundo (ou falta dela), sinto-me transportada no tempo até ao século II e III e às perseguições feitas por vários Imperadores Romanos (embora não todos).

Hoje, ao celebrarmos a Páscoa e a sua compaixão deveríamos reflectir sobre os sacrifícios destes cristãos que vivem tão longe de nós, mas que estão nos nossos corações. E fazer a pergunta difícil e dolorosa. Seria eu capaz de manter a Fé e de seguir o seu exemplo?

Investigadora IPRI-NOVA e candidata do CDS ao Parlamento Europeu