A Europa encontra-se num ponto de inflexão. Num contexto global cada vez mais competitivo e volátil, o setor farmacêutico assume-se como um ativo estratégico único: capaz de gerar melhor saúde para os cidadãos e, simultaneamente, crescimento económico sustentável, ancorado na inovação e no conhecimento.
Hoje, a indústria farmacêutica inovadora sustenta milhões de empregos, investe dezenas de milhares de milhões de euros em investigação e desenvolvimento e contribui de forma decisiva para a economia europeia. Mais do que números, falamos de um setor que transforma ciência em soluções, inovação em valor e conhecimento em qualidade de vida.
Os números são claros. A indústria farmacêutica inovadora sustenta cerca de 2,3 milhões de empregos na Europa, investe anualmente mais de 55 mil milhões de euros em investigação e desenvolvimento e contribui com mais de 200 mil milhões de euros para a economia europeia. Nenhum outro setor combina, de forma tão evidente, impacto social e valor económico. Em Portugal, esta realidade também se confirma: o setor emprega já mais de 10.500 pessoas e tem vindo a crescer a um ritmo significativamente superior ao do emprego global, registando um aumento de 74% entre 2010 e 2024.
Apesar desta base sólida, a competitividade europeia está ameaçada. Em menos de 25 anos, uma parte significativa do investimento em I&D deslocou-se para outras geografias, como os Estados Unidos e a Ásia. Na última década, o peso da Europa nos ensaios clínicos globais reduziu para metade, deixando milhares de doentes em desvantagem no acesso a terapias inovadoras. Hoje, apenas cerca de metade dos medicamentos disponíveis nos EUA chegam aos doentes europeus.
Este cenário tende a agravar-se. A evolução das políticas internacionais de preços, nomeadamente a adoção de modelos que alinham preços pelos níveis mais baixos — frequentemente com reduções automáticas anuais — está a alterar profundamente o equilíbrio global de financiamento da inovação farmacêutica. Existe uma relação direta entre o nível e a previsibilidade dos preços e a decisão de investir em investigação, desenvolvimento e produção num determinado país. Sem uma resposta europeia coordenada e ambiciosa, o risco é acelerar a perda de atratividade do continente.
As consequências seriam profundas: menos inovação, menos acesso a medicamentos e menor capacidade de resposta em contextos de crise. Num mundo cada vez mais fragmentado, apostar em capacidade própria para investigar, desenvolver e produzir medicamentos é uma questão de segurança estratégica.
E, no entanto, a Europa tem todas as condições para inverter esta trajetória. Continua a concentrar alguns dos melhores talentos científicos, instituições académicas de referência e um ecossistema de inovação dinâmico, assente num modelo de acesso universal à saúde. O desafio é decidir.
Para isso, são necessárias escolhas claras. Em primeiro lugar, garantir previsibilidade e competitividade regulamentar, com processos mais ágeis, harmonizados e adaptados à inovação. A proteção da propriedade intelectual deve permanecer robusta e alinhada globalmente, enquanto pilar essencial do investimento.
Em segundo lugar, importa ultrapassar uma visão redutora que encara o medicamento como um custo. A evidência demonstra que cada euro investido em saúde gera retorno económico e social significativo, melhora resultados clínicos, reduz custos futuros e aumenta a produtividade da sociedade.
Valorizar verdadeiramente a inovação nos processos de avaliação, financiamento e acesso será determinante para atrair investimento e assegurar que os doentes europeus beneficiam, atempadamente, dos avanços científicos.
A escolha é clara. Ou a Europa reforça as condições para liderar na inovação em saúde, ou arrisca-se a perder relevância num setor crítico para o seu futuro. Esta é uma responsabilidade partilhada — da indústria, dos decisores políticos, dos profissionais de saúde, mas também dos doentes e das suas famílias.
Está nas nossas mãos decidir e agir.