“Durante um ano, o super viajado Eric Weiner não fez outra coisa senão perseguir um objetivo fugidio: encontrar a felicidade.” Assim começa “The Geography of Bliss”, um livro que nos leva por dez países, cada um com a sua maneira de procurar o bem-estar. Entre eles, o Butão, onde não há semáforos, mas se mede a Felicidade Interna Bruta, contrastando com realidades como a Moldávia ou o Qatar. O que Weiner descobre é simples mas revolucionário: a felicidade é menos uma questão de riqueza e mais uma questão de escolhas coletivas. E se Portugal ousasse entrar nesse mapa?

Vivemos tempos em que a saúde mental deixou de ser apenas uma especialidade clínica para se tornar um desafio civilizacional. Segundo a OMS, um quarto da população mundial será afetado por perturbações mentais ao longo da vida. Em Portugal, os números são ainda mais graves: 22% da população vive ou viverá com doença mental. Pior ainda: 60% destas pessoas não têm acesso aos cuidados de que necessitam. A depressão, distúrbios da ansiedade, transtornos da personalidade, ou patologias de maior impacto como doença bipolar ou esquizofrenia, continuam a ser das principais causas de incapacidade e exclusão social.

O custo é insustentável. Não apenas humano, mas também económico: a Comissão Lancet, em 2018, estimou que a crise global da saúde mental possa custar ao mundo 16 triliões de dólares até 2030. A produtividade perdida e o impacto nos sistemas sociais já ultrapassam 1 trilião de dólares anuais. Apesar disto, o investimento público é reduzido: a nível mundial, apenas 3% dos orçamentos da saúde são destinados à saúde mental. Portugal ronda os 5,8%, ficando aquém de outros países da Europa, como o Reino Unido ou a Alemanha, que chegam aos 10%.

Nas últimas décadas, o pensamento sobre saúde mental evoluiu. Superou-se o modelo biomédico e ganhou força uma visão integrada: emocional, social, económica e cultural. George Engel, Martin Seligman, Stefan Priebe, Vikram Patel ou Shekhar Saxena demonstraram que o tratamento da saúde mental vai muito para além da terapêutica medicamentosa. Também se promove com sentido de pertença, com comunidades saudáveis, com presença, tempo e dignidade.

Neste contexto, importa olhar para Portugal. Durante a pandemia, com recurso a fundos europeus, foram aprovadas várias reformas. O Decreto-Lei nº113/2021, aprovado pelo PS, criou um novo modelo organizacional. Mas a experiência demonstra: o PS é exímio em produzir programas e documentos, mas raramente os transforma em medidas concretas. Faltou execução e um compromisso político sério com a mudança inadiável que os dados impunham.

Com a Aliança Democrática iniciou-se, em 2024, um novo ciclo político orientado para a concretização. Este ciclo foi renovado com a formação do XXV Governo Constitucional, consolidando um mandato com visão e energia. O Programa do XXIV Governo assumiu a saúde mental como prioridade intergeracional e transversal com foco na prevenção e na promoção do bem-estar.  Preconizou a integração dos serviços em hospitais gerais, o combate à solidão, o reforço dos cuidados continuados e a criação de programas para demências e dependências.

Mas o tempo é curto, e a herança de atrasos é pesada. Cumprir as metas do PRR exige correr contra o tempo, sobretudo na rede de infraestruturas e nas equipas comunitárias. Ao XXV Governo cabe agora a responsabilidade urgente de garantir que Portugal não desperdiça esta oportunidade histórica. Porque o que está em causa não é apenas a execução de fundos: é a concretização dos compromissos com os portugueses. É a passagem dos planos e programas à prática, do papel à vida concreta das pessoas.

Em Viseu, esta visão está a ganhar forma. O novo Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital representa um marco decisivo: um investimento de quase 10 milhões de euros, financiado na sua maioria pelo PRR, mas também a capacidade deste governo concretizar. Uma unidade moderna, integrada, com internamento, hospital-dia e consulta externa. Mais do que uma melhoria técnica, é um sinal político: a saúde mental deixa de estar na periferia e passa para o centro das prioridades.

Esta transformação só será estruturante se sustentada por conhecimento. Profissionais da área sempre protagonizaram esta transformação. Layard, Patel, Saxena ou Caldas de Almeida defendem que investir em saúde mental é investir em coesão, desenvolvimento e democracia. Cada euro aplicado pode render quatro. E o poder político, estava preparado para a liderar? Acredito profundamente que a política, a ciência, a evidência e a reflexão profunda caminham lado a lado e que a proximidade política é uma exigência do nosso tempo. A saúde mental deve ser critério em todas as áreas da vida pública: da educação ao urbanismo, da habitação à cultura.

O compromisso da AD está a marcar a diferença porque tem energia e capacidade de execução. Defende que governar é resolver problemas reais. É esta clareza que nos inspira diariamente: o que acreditamos, fazemos. O que defendemos, concretizamos.

Na minha viagem pessoal, sei que não há desenvolvimento possível sem equilíbrio emocional. E aprendi que cuidar é, também, participar na liderança de projetos políticos. Tal como Eric Weiner nos ensina, às vezes é preciso atravessar o mundo ou, no nosso caso, décadas de inação, para perceber que o essencial está no caminho. E que o caminho, como dizia Marco Aurélio, se constrói com os obstáculos que nos desafiam.

Sim, Portugal pode, e deve, entrar na geografia da felicidade. E a saúde mental é o mapa para lá chegar.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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