“O impedimento à ação avança a ação. O que está no caminho torna-se o caminho.”
Marco Aurélio (Meditações)
Numa Europa onde o cansaço das democracias liberais tem sido aproveitado pelo populismo, o tempo que vivemos em Portugal exige uma coragem serena, mas determinada. Tal como Marco Aurélio, que escreveu sobre a virtude em tempos de colapso, também hoje importa reafirmar a responsabilidade de quem governa: não como uma conquista, mas como uma missão.
O Programa do Governo apresentado por Luís Montenegro é um ponto de inflexão. Está longe de ser um simples documento técnico: é uma declaração de intenções para devolver ao país a confiança que se perdeu entre promessas e estagnação. Reflete uma visão, aponta um rumo, assume a transformação como necessária, mesmo quando desconfortável. E essa é, e embora bem percetível na expectativa dos portugueses, talvez a sua maior coragem: querer mudar com responsabilidade, e não apenas gerir com cautela.
O contexto não é fácil. Portugal atravessa uma década de perda silenciosa: jovens que emigraram, famílias que deixaram de sonhar, profissionais desmotivados, serviços públicos desajustados à nova realidade demográfica, regiões negligenciadas. A urgência não é apenas política, é existencial. Este programa reconhece isso. Não procura a solução milagrosa, mas sim o trabalho sólido e estruturado: reformar a Justiça para que seja rápida e eficaz; recuperar a Saúde com gestão transparente e efetiva e com proximidade às necessidades do cidadão; investir na Educação como base de um futuro livre. E fazer tudo isto com um compromisso de responsabilidade social claro: nenhum português pode ser deixado para trás.
Foi precisamente esse sentido de propósito que o Primeiro Ministro destacou ao apresentar as linhas orientadoras do programa do Governo, Um plano com foco na execução, na eficiência e no impulso à economia, que devolve centralidade às feridas que, de forma insidiosa, se agravaram e se tornaram crónicas – feridas reais e profundas, como a habitação, a demografia, a fiscalidade, a descentralização, a injustiça social, a eficiência dos serviços públicos e a confiança nas instituições.
O Governo compromete-se com três princípios estruturantes: responsabilidade, crescimento e solidariedade. E atua em frentes que refletem com clareza a exigência destes tempos – tempos marcados por desafios internos persistentes, mas também por instabilidade global, incerteza económica e transformações aceleradas, que exigem respostas firmes, ancoradas nos nossos valores e na confiança no futuro.
Sabemos que há quem olhe para outras alternativas com desespero. Quem veja no Chega um último grito contra um Estado que falhou. Compreendo esse grito, mas não defendo que o caminho seja esse. A resposta não está na raiva, mas na reforma. O que o país precisa é de uma liderança que inspire confiança, que dê sentido à ação coletiva e que convoque cada português a ser parte ativa da mudança. Uma liderança que valoriza o rendimento das famílias e a competitividade das empresas, reforça a autoridade do Estado e a qualidade dos serviços públicos, protege os mais vulneráveis, garante habitação acessível e constrói, intersetorialmente, um país mais sustentável e resiliente, preservando a liberdade, ambições e expectativas individuais.
Luís Montenegro é um homem que não precisa de gritar para se fazer ouvir. Tem mostrado consistência, serenidade e preparação. Portugal precisa dessa maturidade: de um Governo que sabe ao que vem, que não quer agradar a todos, mas servir com verdade. O seu discurso reflete essa clareza de intenção: transformar Portugal não com ideologia, mas com decisão e execução. Declarou “guerra à burocracia” e afirmou com convicção que é criando riqueza que se combate a pobreza. Este é um dos princípios estruturantes do seu programa de governo. É um pensamento ancorado nos valores social-democratas, mas também na realidade, e guiado por uma ambição clara: melhorar a vida das pessoas.
Na minha visão, enquanto cidadã, viseense, enfermeira e mulher politizada num país de contrastes, este é um programa que fala aos territórios. Que devolve esperança às regiões, às famílias e à dignidade do esforço. Cresci numa família onde tudo se alcançou com trabalho e a esperança na geração seguinte foi depositada na educação. Onde a resiliência foi padrão silencioso, mas presente. Sei o que é lutar por cada oportunidade. E sei reconhecer quando uma oportunidade é coletiva, como esta.
Esta é a legislatura da oportunidade assertiva, mas tranquila. De mostrar que se pode governar com ambição sem perder o equilíbrio. Que se pode reformar o Estado sem desproteger os mais vulneráveis. Que é possível conciliar crescimento com solidariedade, autoridade com liberdade, identidade com abertura.
Num tempo de cansaço e desconfiança, é compreensível que muitos ainda não acreditem que Luís Montenegro é, já, o líder de um governo reformista, mas é precisamente nesse tempo que importa reconhecer os sinais que apontam para a mudança. Uma mudança feita não de promessas cómodas, mas com a clareza, a coragem e a consistência de quem sabe que reformar é servir e transformar é cuidar do futuro com os pés bem assentes no presente.
Portugal precisa de quem atue com serenidade para transformar. Sem gritar, sem desistir, com a força firme de quem sabe que o caminho é difícil, mas para ser feito. Tal como escreveu Marco Aurélio, não é por haver obstáculos que desistimos do caminho. É por existirem que o caminho se torna necessário.
E esta é a hora de o fazer.