Sempre que vejo ruas, praças ou avenidas, ocupadas por cidadãos em sobressalto, e o cenário descamba em confronto e cargas policiais, a primeira reflexão que se impõe não é o cálculo partidário da noite. É a constatação crua da perda de humanismo. Imagino a tragédia surda de ver um filho, um pai ou uma mãe, ali, no meio daquela turbulência — de um lado ou do outro do cassetete. Aflige-me a violência que, por definição, será sempre descontrolada, e o colapso do civismo, haja ou não razão em quem carrega ou em quem apanha. Porque quando a rua se transforma em arena de confronto físico, o tecido social e a empatia humana já se rasgaram há muito.
O direito à manifestação é, naturalmente, um pilar sagrado da democracia. Mas tem uma função e um propósito claros: ganha nobreza, e eficácia, quando nasce da indignação legítima de um setor coeso — dos professores aos polícias, dos enfermeiros aos bombeiros — que, esgotadas as vias normais de negociação, não tem outro recurso para fazer valer os seus direitos. Porque, mesmo que sendo uma maioria esmagadora no sector, poderão ser uma minoria eleitoral.
Mas não é isso que se vê. O que vai ocupando o asfalto é uma manta de retalhos, um ajuntamento heterogéneo a vociferar um slogan genérico por “mais casas e mais baratas”. Ora, a habitação não é uma particular, de um grupo de cidadãos; é um problema geral de toda a sociedade portuguesa. E em democracia, as causas gerais não se resolvem ao pontapé na rua por imposição de minorias barulhentas. Pertencem ao Governo, legitimado nas urnas, e deviam ser discutidas no âmbito do seu Programa — exatamente o tema que o executivo, empossado a 2 de abril de 2024, colocou no centro da sua proposta política sufragada pelos portugueses.
O problema é que este grupo — tal como a maioria dos eleitores — não se dá ao trabalho de ler ou perceber aquilo em que vota. Vivemos numa sociedade que prefere o protesto ruidoso – de poucos – ao dever cívico de ler os programas eleitorais. Mais, nas últimas legislativas, a abstenção fixou-se nos 30%, provando que três em cada dez cidadãos (praticamente um em cada três) simplesmente se autoexcluíram do sistema. E entre os que vão às urnas, a tragédia não é menor: grassa o automatismo do “voto de cruz”, movido por clubismo partidário, hábito familiar ou pura preguiça intelectual, sem exigência de escrutínio sobre o conteúdo das propostas.
A ausência de escrutínio informado tem consequências devastadoras e mensuráveis para o país. Olhemos para o retrato do nosso declínio nas últimas duas décadas: há vinte anos, Portugal ocupava o 16.º lugar no PIB per capita da União Europeia, em Paridades de Poder de Compra. Hoje, fomos ultrapassados pela Polónia, Chéquia, Eslovénia, Lituânia ou Estónia, definhando num melancólico 22.º lugar, da UE-27. O nosso poder de compra encalhou nos 78% da média comunitária — exatamente o mesmo nível de há vinte anos —, enquanto a Polónia saltou dos 52% para os 80%, e a Lituânia dos 53% para quase 90%. Nos serviços públicos, o colapso é evidente: na saúde, se há vinte anos cerca de 1,5 milhões de portugueses recorriam ao setor privado, hoje são mais de 3,8 milhões a pagar do próprio bolso seguros de saúde para suprir a falência do SNS; na educação, a degradação da resposta pública empurrou as famílias para o ensino privado, onde a frequência de alunos já supera os 20% do total, mas quase 50% no pré-escolar. Tudo absolutamente trágico, quando consideramos que estamos a falar de famílias que já pagam tudo isto através dos seus impostos, e depois voltam a pagar no privado.
A crise da habitação é apenas outro reflexo desta inércia, assentando numa simples proporção matemática que ninguém quis gerir. Há vinte anos, concluíam-se em Portugal cerca de 60 mil novos fogos habitacionais por ano — tendo chegado ao pico de cerca de 125 mil no início do século. Hoje, a construção rasteja nos 20 mil fogos anuais. Em contrapartida, a demografia mudou e o número de agregados familiares cresceu em mais de 400 mil famílias, com a redução da dimensão média dos lares. Menos oferta e muito mais procura geraram o sufoco atual: a taxa de esforço familiar, que há duas décadas consumia 20% a 25% do salário médio para pagar casa, engole hoje mais de 45% do rendimento líquido das famílias.
A responsabilidade deste estado de coisas não é apenas de uma classe política confortável na gestão da decadência; é também nossa. Falhamos porque não escrutinamos, não responsabilizamos quem decide e nos acomodamos à inércia. Preferimos o desabafo estéril nas redes sociais ou a algazarra da rua a pensar seriamente nos temas, a propor caminhos e a defender soluções estruturadas. E depois, em cada ciclo eleitoral, limitamo-nos a repetir o mesmo gesto, votando nos mesmos partidos, ou remetendo-nos ao silêncio do sofá, esperando ingenuamente que a realidade mude por magia.
Para mudar Portugal, é urgente romper com este círculo vicioso. As manifestações continuam a fazer todo o sentido numa democracia viva — desde que sirvam o seu verdadeiro propósito, com nobreza na forma e consistência no conteúdo. Mas a verdadeira revolução cívica começa antes: na promoção de uma educação política atempada, no cultivo do pensamento crítico e no exercício de uma participação ativa, na justa medida das possibilidades de cada cidadão. Precisamos da honestidade intelectual de ler ao que vêm os partidos, de exercer um escrutínio efetivo, sem medos, sem tabus e sem preconceitos ideológicos. Continuar a fazer a mesma coisa esperando resultados diferentes é, como diz a célebre máxima atribuída a Einstein, a própria definição de insanidade.
Mudar o país exige o esforço de nos informarmos e de pensarmos com cabeça própria, mas também a generosidade de nos unirmos na defesa intransigente do todo.