É um espectáculo curioso. Ninguém viu, mas toda a gente fala. Ninguém dá importância, mas é o tema daquele dia. Há coisas tão mais importantes a acontecer – mas, aparentemente, temos tanto mais a dizer sobre esta.
Os momentos de “passadeira vermelha”, ou red carpet, como frequentemente já nem se dá ao trabalho de se traduzir, começaram por ser “uma coisa” lá fora; depois, tornaram-se “uma coisa” por cá também. Nasceram como antecâmara necessária ao espectáculo em si, prelúdio, introdução, preparação, setup, primeiro acto; ei-los, agora, transformados em espectáculo dentro do espectáculo, com direito a peça autónoma nos jornais; painel de análise e comentário nas televisões no dia seguinte.
Antes, as pessoas viam as obras que iam a distinguir nos prémios; depois, já só viam os prémios; agora, por vezes, já só lhes interessa o que se vestiu para lá ir.
O que significa isto? Sinal dos tempos. Desacreditámos na arte e na academia; ficou-nos o gosto, o que quer que isso seja. A opinião pessoal, o palpite, a convicção, a perspectiva que dispensa conhecimentos mais profundos para opinar.
Temos, portanto, muito lá ao fundo, a forma de arte – música, cinema, televisão, teatro, o que seja –; depois, sobreposta uma camada institucional, pensamento crítico, pares e especialistas que procuram consagrar a que mais importa; e agora, sobre tudo isso, uma crosta onde se divinizam as aparências, o guarda-roupa, a pose e, acima de tudo, o culto das celebridades. Se representam, cantam, tocam, escrevem, compõem, pintam, dançam, esculpem, filmam bem ou mal ou não fazem sequer coisa alguma, não importa tanto; importa como se apresentam (e isso inclui com quem).
Dispensemos discursos moralistas pseudo-edificantes óbvios – os tempos são o que são e, em princípio, nenhum de nós os vai mudar. O que aqui se oferece como assunto é o porquê dessa importância, não do nosso mal-estar mal resolvido com ela.
Viste aquela? Horrível! E a outra? Péssima. O que era aquilo? E a irmã? Ainda pior que a ex-namorada do marido. Eu nem vejo aquilo! Nem eu, cruzes credo. Mas estava a dar! Pois. A televisão, hoje em dia… Só porcaria! E o algoritmo. É o que as massas querem… Pois. As pessoas que votam no… Depois, admiram-se! E a outra do decote? Que horror. Não estás a ver quem é? Entra na novela. Ah! Já sei! Não que eu veja novelas. Nem eu, Deus me livre. Mas, por acaso, estava no outro dia no dentista, na cabeleireira, na fila de supermercado e vi na capa de uma revista – não que eu leia dessas revistas. Mas está muito gorda. Eu também tive gémeas e não fiquei assim. São filhas do outro, não são? Achas que eu acompanho essas coisas? Mas sim, são. Pelo menos, a gémea mais velha. Para mim, a única que estava bem era aquela de roxo. Mas ela não foi de amarelo? Isso era o primeiro vestido;ela levou dois. Disseram-me. E aquela maquilhagem? Carregadíssima. E o cabelo? Uma lástima. E aqueles sapatos? Uma tortura – quem é que anda com aquilo?
E com tanta coisa grave a passar-se no mundo e esta gente entretida a brincar às passadeiras vermelhas… Com a guerra, com a fome, com as alterações climáticas, com os sem-abrigo, com a crise na habitação, com a inteligência artificial, com o desemprego, com a saúde mental, com as drogas. É uma tristeza. Nem dizem nada sobre isso! E a outra que falou da Palestina? Que ridícula. E da bandeira da Ucrânia? Quem é ela? Quem é que a ouve? Que importância é que ela acha que tem? Antes tivesse ficado calada. Antes falasse. Antes fosse. Antes não fosse. E aqueles brincos onde é que ela os arranjou? Num Kinder Surpresa? Devem ter custado um dinheirão! Não que elas não pagam, é tudo oferecido pelas marcas. Elas não têm a culpa. Obrigam-nas! Lambisgoias. Só a mim é que ninguém dá nada.
Imaginem que tudo isto tinha importância. Que conseguíamos olhar para o fenómeno pelo que é: um momento de escape, um testemunho acerca da importância da evasão. Mesmo quando se passam coisas tão graves no mundo. Particularmente quando se passam coisas tão graves no mundo. Talvez nos sentíssemos menos obrigados a parecer à força interessantes. A fingir que só vemos a 2 e lemos Proust. E até conseguíssemos achar uma ou duas pessoas bonitas e elegantes. Quatro ou cinco, quem sabe? Ou notar como, num mundo ainda tão de homens, há qualquer coisa de belo na forma como, nestas coisas, se vestem entediantemente de igual para desaparecer e deixar o palco às mulheres?
Às vezes, precisamos de nos vestir bem e brincar às estrelas; outras de ficar no sofá, no pijama que foi do tio, a dizer mal de tudo. Ambos desportos perfeitamente legítimos e saudáveis, modos de sobreviver ao absurdo contra o qual nada podemos. A banalidade refresca. A superficialidade só é perigosa quando confundida de um domingo à noite com um modo de vida. Toda a arte é inútil, dizia Oscar Wilde. E haviam de ver se não se arranjava para uma passadeira vermelha.