A propósito da Cimeira da Indústria, que o Observador organizou, em parceria com a AEMinho, desafiámos alguns especialistas a escrever sobre os desafios da economia e indústria do futuro.
Vivemos tempos de instabilidade geopolítica, de pressão sobre os preços da energia e de disrupções nas cadeias de abastecimento. Perante este cenário, a pergunta impõe-se: estamos diante de um obstáculo ou de uma oportunidade sem precedentes para mudar? A diferença está na forma como cada empresa escolhe responder. E é aqui que importa ser claro: adiar decisões estruturais sob o pretexto da incerteza não é prudência — é a maior armadilha em que se pode cair.
A digitalização da indústria e da economia é essencial para responder a desafios globais como a produtividade, a crescente escassez de mão de obra ou as alterações climáticas. A oportunidade não espera pela estabilidade. Nunca esperou. Mas hoje, ao contrário de outras fases da história, temos ao nosso dispor ferramentas tecnológicas extraordinariamente poderosas para transformar a forma como vivemos, produzimos e operamos.
Um dos grandes desafios é, contudo, executar esta tão necessária e positiva transformação num ambiente em constante mudança. Vivemos num contexto de evolução tecnológica, económica e social sem precedentes, a uma velocidade estonteante, em que as empresas são pressionadas a adaptar processos, modelos de negócio e estratégias em tempo real. A esta exigência soma-se a necessidade de responder a choques externos imprevisíveis, que testam continuamente a capacidade de reação e revelam a nossa capacidade de superação.
Em paralelo, a transformação exige um novo olhar sobre as pessoas. Nenhuma mudança será eficaz se não for inclusiva. É fundamental garantir que ninguém fica para trás, promovendo uma cultura aberta à aprendizagem contínua e reconhecendo que diferentes pessoas evoluem a ritmos distintos. Mais do que adoção tecnológica, está em causa a construção de resiliência em contextos de incerteza. O investimento em capacitação é, por isso, um fator crítico para desbloquear todo o potencial das equipas — e essa capacitação deve, ela própria, refletir a transformação em curso: formações mais imersivas, digitais e em contexto real de trabalho, que aproximem a aprendizagem da tecnologia que se pretende dominar.
Outro eixo essencial é o da agilidade organizacional. Num ambiente volátil, a capacidade de adaptação torna-se um verdadeiro fator competitivo. Isto implica reavaliar portefólios, ajustar abordagens ao mercado e promover estruturas mais flexíveis, capazes de acelerar a tomada de decisão. Não se trata apenas de eficiência operacional, mas de uma capacidade contínua de reconfiguração estratégica.
Por fim, importa reconhecer o impacto profundo das empresas na sociedade. Num período de maior tensão global, o papel das empresas vai além da criação de valor económico. As suas decisões, tecnologias e pessoas contribuem diretamente para o desenvolvimento social e para a resposta a desafios coletivos – desde a sustentabilidade ambiental à criação de emprego qualificado e à modernização do tecido produtivo.
A história mostra-nos que as empresas sempre operaram em ambientes de instabilidade. A diferença hoje está na sua intensidade e velocidade. É precisamente neste contexto que a tecnologia assume um papel decisivo. A IA, sobretudo quando aplicada à indústria e ao mundo físico, representa uma oportunidade única e transformadora para um país como Portugal, ao permitir a criação de soluções de forma mais ágil, a reconfiguração rápida de fábricas perante novas dinâmicas do mercado, a antecipação de avarias antes de estas ocorrerem e uma gestão verdadeiramente eficiente de recursos. É por tudo isto que esperar não é uma estratégia. A estabilidade pode tardar. A oportunidade, não.
A Cimeira da Indústria é um evento organizado pelo Observador, em parceria com a AEMinho, e conta com o apoio institucional da Câmara Municipal de Braga. Pretende debater os desafios da indústria para o crescimento da economia em Portugal.
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