‘Jesus Cristo,’ ouve-se dizer com frequência na televisão, ‘era uma pessoa bastante boa.’ Estes pronunciamentos fazem pensar, não evidentemente pela opinião que é transmitida, com a qual poucos deixarão de concordar, mas pelo uso do advérbio ‘bastante’. Como não oferece dúvidas que para quem exprime esta opinião Jesus Cristo era uma pessoa pelo menos boa, o que poderá ganhar-se com a palavra ‘bastante’?

Podemos eliminar várias possibilidades. Não usamos a expressão ‘bastante boa’ por graça; e uma pessoa a quem chamamos bastante boa não é também uma pessoa má a quem não temos coragem de chamar má. Ninguém, para o fazer, diria que o Presidente Mao era uma pessoa bastante boa; tal correria o risco de confundir quem o ouvisse. Para exprimir uma opinião moral negativa sobre o Presidente Mao a palavra ‘mau’ é satisfatória. Se no entanto, por alguma outra razão, estivessemos inclinados a chamar-lhe bom, a expressão ‘bastante bom’ seria prolixa; parece suficiente usar o adjectivo ‘bom.’

O uso do advérbio ‘bastante’ não é assim frugal. Suspeita-se que quem o usa esteja a acrescentar qualquer coisa ao adjectivo junto do qual o usa, embora aquilo que acrescenta seja misterioso. Uma pessoa bastante boa não será talvez exactamente igual a uma pessoa boa. Mas como explicar a diferença?

Uma explicação plausível é a de que ‘bastante bom’ exprimirá uma gradação de ‘bom’. ‘Bastante bom’ estaria para ‘bom’ como na escola ‘bom com distinção’ estava para ‘bom’; e ambos para ‘muito bom’. Assim, na nossa teoria moral, e por ordem crescente, haveria pessoas más, medíocres, suficientes, boas, bastante boas, e muito boas (nalgumas escolas haveria mesmo pessoas excelentes).

Admitamos porém a benefício da discussão que quem diz que Jesus Cristo era uma pessoa bastante boa não consegue imaginar ninguém melhor que Jesus Cristo. A admissão não é parece descabida: poucas pessoas conseguem imaginar alguém melhor. Se tal for o caso, porém, a nossa explicação anterior é inexacta: uma pessoa bastante boa não é neste sentido uma pessoa menos boa que uma pessoa excelente. O que se passa é que muita gente costuma chamar bastante boas às pessoas excelentes.

Ocorre por isso uma última explicação: que quem diz que uma pessoa é bastante boa está a usar o adjectivo ‘boa’ de modo envergonhado. O advérbio ‘bastante’ serve para diminuir não o conteúdo do adjectivo mas o facto de o estarmos a usar. A conclusão a que chega quem ouve usar a palavra ‘bastante’ é a de que há adjectivos que se tornou muito frequente ouvir apenas acompanhados de um tom de vergonha. É o caso dos adjectivos que exprimem admiração ou repulsa. O Presidente Mao, ouvir-se-á dizer, era bastante horrível; os gelados bastante deliciosos; e a violência bastante nociva. A palavra ‘bastante’ exprime a vergonha que temos de ser apanhados em flagrante moral; é uma palavra bastante vergonhosa.