Sempre que me engano, é minha política assumir, total e inequivocamente, a responsabilidade. Depois de esgotadas todas as hipóteses de culpar terceiros, claro. E quartos. E até quintos. Então, sim, se uma fuga com recurso ao clássico “Olha ali! Drones!” também não estiver em cima da mesa, e a mesa for daquelas de vidro, tipo centro de sala, debaixo das quais não é possível uma pessoa esconder-se melhor do que os 75 mil euros na residência oficial do ex-primeiro-ministro, então, sim, é tempo de ser humilde, admitir que se esgotou o tempo para procrastinações intermináveis, e assumir o erro.
E o meu erro foi ter feito pouco daqueles que, histericamente em 2016, e um pouco menos histericamente em 2024, insistiam que a presidência de Donald Trump traria a 3.ª Guerra Mundial. A verdade é que, neste segundo mandato, Trump não deu início à 3.ª Guerra Mundial, mas deu início à 1.ª Guerra Mundial contra o desperdício dos impostos dos estadunidenses.
Azar dos azares, tudo o que é organização internacional – e até mesmo alguns países – só subsiste esmifrando dinheiro aos contribuintes norte-americanos. Se guardam memórias reconfortantes daquelas construções com dominós em que as peças caem sequencialmente, peço desculpa por arruinar-vos o dia, mas a sequência de eventos poderá ser bem simples: os EUA impõem tarifas à Europa; a Alemanha sai da União Europeia; a União Europeia desagrega-se; Portugal fica a chuchar no dedo. O mesmo dedo que já só tem uma pele muito fininha e toda engelhada à conta de tanta sucção.
Claro que nada disto acontecerá do dia para a noite. Calma. Talvez seja só para a semana. Em qualquer caso, Portugal será apanhado pelas tarifas de Trump na pior situação possível, que é estando na cauda da Europa. “Mas seremos os mais afectados em termos de PIB, de poder de compra e tal?”, perguntam vós. Também, sem dúvida, mas não só. Apelando à vossa imaginação, ponham-se na situação da cauda da Europa quando a Europa, toda borradinha de medo, meter a cauda entre as pernas…
Um dia tinha de dar este tipo de fezes, viver num país que sobrevive à conta dos contribuintes dos outros. Quando os contribuintes dos outros deixam de achar piada a contribuir para quem nunca contribui, vem à memória que “ganhar muito dinheiro para não lhe sentir a influência” era uma boa dica d’O Banqueiro Anarquista, de Fernando Pessoa. Mas suponho que por a cultura portuguesa ser, nas palavras da deputada municipal pelo Bloco de Esquerda, Maria Escaja, e tal como a nossa situação geo-politico-económica, “uma grande merda”, ninguém liga nenhuma ao poeta. Ficamos antes ligados ao socialismo e, por inerência, à máquina de suporte vital.
Pior só mesmo os péssimos sítios para onde inúmeros emigrantes que estavam ilegais nos Estados Unidos da América já voltaram. Avaliando pela dieta à base de McDonalds, uma pessoa imaginaria que o Trump não desse grande concorrente do Masterchef. Mas a verdade é que o homem quer pôr o tradicional melting pot americano a funcionar de novo, após décadas e décadas com a receita a sair mal. Parece ter havido problemas ao nível do melting, diria eu. Correndo o risco de evidenciar que os meus dotes de culinária ficam a montante do ovo estrelado, digamos que a receita estava a talhar.
É a receita do melting pot nos EUA e a receita da Iniciativa Liberal para ganhar eleitorado em Portugal. Na convenção da IL, o entusiasmo pela adopção de políticas liberais semelhantes às que Javier Milei está a implementar na Argentina com grande sucesso, foi amplamente expresso pela presença de uma motosserra de cartão. Ou seja, o empenho em exibir um compromisso firme com o liberalismo e a livre iniciativa não deu, sequer, para ter a iniciativa de passar no Leroy Merlin e alugar uma motosserra de verdade. Em alternativa, a IL preferiu deitar mão a um projecto de trabalhos manuais do ensino básico, recorrendo, para um trabalho que se pedia do mais alto nível, a mão-de-obra muito pouco qualificada. Onde é que eu já vi isto?
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