A história não se repete, mas rima e, no mundo moderno, com as suas tensões económicas e políticas, oferece um cenário que curiosamente ecoa nos antigos conflitos ideológicos entre Esparta e Atenas. De um lado, encontra-se a figura de Donald Trump — e a sua política “AmericaFirst”, que visa a autarkia, a autossuficiência pode ser entendida, por um lado, como a afirmação do autogoverno e da soberania política e, por outro, como a procura incessante da subsistência e da autonomia económica, independentemente dos desafios que desta premissa resultem. De uma forma semelhante ao isolacionismo espartano, centrado na sobrevivência interna e na desconfiança das influências externas. No outro extremo, a União Europeia surge como herdeira do espírito ateniense, apostando no comércio, na diplomacia e na troca de ideias como pilares para o crescimento económico e a estabilidade.

Trump já disse que “Tariff”, tarifa, é a quarta palavra mais bonita do dicionário atrás de “Deus”, “amor” e “religião”. Conhecemos agora a intenção do 47.º presidente do Estados Unidos da América de impor tarifas sobre o aço e o alumínio, e a sua recente ameaça de aplicar taxas alfandegárias à União Europeia e ao Reino Unido ilustra a intenção de proteger os setores industriais norte-americanos e reduzir a dependência externa. Embora esta estratégia apresente benefícios a curto prazo para determinados setores, na sua essência ela constitui um regresso ao protecionismo, ignorando a interdependência económica que caracteriza o mundo em que vivemos, uma aldeia global.
Esparta, ao evitar alianças e ao limitar o comércio externo, conseguiu manter a ordem interna durante algum tempo, mas pagou um preço elevado ao negligenciar a diversificação económica e a inovação cultural. A União Europeia, por sua vez, reconhece que o dinamismo económico depende da integração com outros mercados e da partilha de conhecimento, como refletido no relatório Draghi.

Contudo, a abordagem protecionista de Trump reflete uma tendência mundial, e até na Europa, como é o caso da Alemanha, preocupante: o ressurgimento do nacionalismo económico, impulsionado pelo receio da perda de soberania e pelo declínio das indústrias tradicionais. A imposição de barreiras comerciais pode desencadear tensões diplomáticas e retaliações, prejudicando o comércio global e provocando uma desaceleração económica. Se os países fizerem o que Trump quer, no caso do Canadá e do México, para evitar tarifas, os Estados Unidos não podem levantar a receita de que precisam.

Se os Estados Unidos vão impor tarifas a países estrangeiros de qualquer maneira, os países não têm incentivo para sentar-se à mesa. E se o comércio precisa de ser equilibrado, colocar as tarifas em prática levará a tarifas retaliatórias, iniciando uma guerra comercial que pode prejudicar a indústria e os consumidores americanos que continuarão a ter este estatuto pós mandato de Trump.

Por outro lado, o modelo europeu também não está isento de riscos. Assim como Atenas, que enfrentou fragilidades devido à dependência de importações e de alianças instáveis, a União Europeia precisa de equilibrar os interesses dos seus Estados-membros e lidar com ameaças externas, como as disputas comerciais com os Estados Unidos e a China. Ainda assim, a história demonstra que uma abordagem aberta e dinâmica tende a gerar benefícios duradouros.
A principal lição a retirar desta comparação é que nenhum dos extremos é sustentável. A autossuficiência total é impraticável num mundo como é aquele em que vivemos, mas uma abertura irrestrita pode igualmente expor as economias a riscos significativos. O desafio reside em encontrar um ponto de equilíbrio, onde a proteção dos interesses nacionais coexista com uma participação ativa no comércio global.

Assim como Esparta acabou por sucumbir às suas limitações internas e Atenas enfrentou as consequências da sua expansão descontrolada, tanto os Estados Unidos como a União Europeia precisam de refletir sobre os riscos inerentes às suas políticas.
Em última análise, o equilíbrio entre o pragmatismo espartano e o dinamismo ateniense pode ser o caminho mais adequado para uma política económica que não apenas proteja, mas também fomente o crescimento económico e dos Estados.