Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Desde que fundei a Women2Women Portugal, tenho estado cada vez mais atenta e mais envolvida na compreensão das desigualdades estruturais assentes na nossa sociedade, principalmente as desigualdades de género. Com o trabalho que temos vindo a desenvolver, fica cada vez mais clara a perceção de como a desigualdade tem um impacto direto na vida de muitas mulheres e de forma muito concreta. Neste artigo, vou dedicar especial atenção à área do empreendedorismo social.

Apesar de existirem já vários estudos sobre o desenvolvimento do empreendedorismo social na Europa, é visível que a perspetiva de género ainda não foi devidamente introduzida, sendo que são escassos os dados relativos a mulheres no Impacto. Isto é preocupante, porque fica a questão: como vamos apresentar soluções eficientes, se pouco conhecemos o problema?

É certo que no campo tradicional do empreendedorismo, há uma grande disparidade na presença de homens e mulheres, sendo que entre 2019 e 2020, na Europa, de todas as startups criadas, apenas 8% foram fundadas por mulheres. Acontece o mesmo no empreendedorismo social? Alguns estudos apontam que há uma maior participação de mulheres, em relação a homens, nas organizações sem fins lucrativos. Isto poderá ser justificado pelo facto de as mulheres, com a bagagem de papéis de género que lhes é atribuída à nascença, se sintam mais próximas de problemas sociais. Tal não quererá dizer que deixem de existir inúmeros obstáculos.

Em primeiro lugar, as mulheres são mais participativas do que os homens no empreendedorismo social, mas continuam uma minoria enquanto founders e líderes. Além disso, como apontado pelo Fórum Económico Mundial (FEM), enquanto um homem empreendedor social é perspetivado como heróico e consciente, uma mulher já é vista como trabalhadora de caridade”. Isto permite-nos identificar a existência de um critério duplo na avaliação de homens e mulheres. Infelizmente, não é o único. O FEM aponta que mulheres no Impacto ainda são discriminadas com base no seu aspeto, são-lhes conferidas menos oportunidades de poder e participação ativa no processo de tomada de decisão e sentem mais entraves ao fundraising e ao networking, considerando que ambos são mais acessíveis aos seus colegas homens. Nesta altura do campeonato, é imperativo referir que pessoas racializadas, pessoas portadoras de deficiência e pessoas indígenas, comparativamente a pessoas brancas, são, desproporcionalmente, ainda mais discriminadas.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Adicionalmente, e apesar de estudos apontarem que startups fundadas por mulheres têm um melhor desempenho e uma maior probabilidade de sucesso, estas são quem tem menos acesso a financiamento disponível. Isto também está, mesmo que de forma indireta, relacionado com a disparidade salarial no empreendedorismo social: mulheres empreendedoras recebem menos 23% do que os seus colegas homens no mesmo cargo (dados de 2014).

O que é que motiva, então, uma mulher a entrar na área do Impacto? Considerando um estudo WEstart”, levantado pelo European Womens Lobby, existe uma esmagadora vontade em dar resposta a necessidades pouco ou nada solucionadas ao nível da comunidade e é este facto que gera a maior motivação para uma mulher iniciar um negócio social, com um grande espírito de criar um impacto social específico. Além disto, vem a existência de uma conexão pessoal a um problema ou grupo de pessoas em concreto. A vontade de gerar inovação social e ter uma maior liberdade na carreira profissional também são pontos importantes de motivação. Facto interessante, é que este estudo revela que parte significativa das mulheres empreendedoras não estão sempre conscientes que estão a desenvolver um negócio social: começam um negócio baseado no lucro e só depois se apercebem que o seu negócio gera impacto social, preenchendo, assim, o critério do empreendedorismo social.

É importante que se consiga concluir que a falta de visibilidade das mulheres no empreendedorismo social, especialmente mulheres em cargos de liderança, contribui para que jovens mulheres das próximas gerações não se sintam devidamente encorajadas a desenvolver competências e mentalidade empreendedora, a compreender o empreendedorismo social e a perseguir uma carreira na área, o que leva a um efeito dominó” no aumento das disparidades já existentes.

Por isso, é de grande importância que se continue a criar um ecossistema mais inclusivo, que leve a uma maior diversidade e igualdade. Não se trata apenas de beneficiar a condição da mulher no Impacto, mas também se trata de beneficiar as economias e as comunidades!

Ana Lomba Correia (@women2womenpt) é estudante de Direito e fundadora da associação Women2Women Portugal, que criou o primeiro programa de liderança feminina para jovens dos 16 aos 21 anos residentes no país. É, ainda, participante de vários projetos internacionais relacionados com participação jovem, desenvolvimento sustentável e igualdade de género, tendo já estado nesse âmbito no Parlamento Europeu, no Conselho da Europa e na Organização das Nações Unidas. Ao mesmo tempo, tem uma grande paixão pelo empreendedorismo social, tendo feito parte do programa PLUG.IN_PACT” do IES – Social Business School, um programa cujo objetivo é ser uma porta de entrada para o Ecossistema do Impacto. É nestes tópicos que Ana explora o seu ativismo. Adora ler, comunicar e viajar e está sempre pronta a aprender e a partilhar a sua experiência e o seu conhecimento.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõem o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.