Portugal já foi avisado vezes suficientes para que o fator “surpresa” tenha deixado de ser uma justificação aceitável. Da passagem da tempestade Leslie aos sismos sentidos nos últimos anos, do recente apagão elétrico à violência das depressões Kristin e Ingrid, o padrão é inequívoco: a normalidade tornou-se instável. A sucessão de sistemas atlânticos cada vez mais agressivos confirma que o risco deixou de ser uma hipótese remota para se tornar uma constante em ascensão.

As alterações climáticas intensificaram a frequência e a gravidade dos fenómenos extremos. Em paralelo, uma monitorização sísmica e meteorológica mais eficaz permite hoje sentir o que antes passava despercebido. Nunca tivemos tanto conhecimento científico ao nosso dispor. O problema é outro: a persistente incapacidade de transformar esse conhecimento em ação preventiva. A história do país está escrita com os escombros de 1755 e a lama de 1967, mas continuamos a agir como se vivêssemos num território imune ao tempo e à geologia.

A lista do essencial é de conhecimento público: água, alimentos não perecíveis, lanterna, rádio, medicamentos. A Proteção Civil repete-a ciclicamente, sobretudo depois de cada alerta ou tragédia. Ainda assim, o fosso entre a informação disponível e a preparação real é profundo. Não é falta de dados – é desvalorização consciente do risco. Sabemos o que fazer, mas adiamos, presos à confortável ilusão de que a crise é sempre um problema dos outros.

A verdade é incómoda: a resposta do Estado não é, nem pode ser, imediata. As primeiras horas após um evento crítico são, quase sempre, marcadas por falhas de comunicação, acessos bloqueados e meios de socorro sobrecarregados. É nesse intervalo que a preparação individual se torna decisiva. Um kit de emergência não é um acessório de campismo; é a garantia mínima de autonomia nas primeiras 72 horas – o período em que o sistema estará sob maior pressão e focado apenas no resgate.

Mais do que uma questão de segurança, a prevenção é um imperativo económico. Cada euro investido em resiliência e adaptação poupa múltiplos em reconstrução e indemnizações. No entanto, Portugal continua a preferir o custo astronómico do “remediar” à disciplina orçamental do “precaver”. Falta-nos uma cultura de risco que responsabilize não só o Estado, mas cada cidadão, empresa e autarquia na construção de uma rede de segurança que não colapse ao primeiro embate.

Neste contexto, é indispensável que a Proteção Civil, as câmaras municipais e as juntas de freguesia abandonem uma lógica de comunicação episódica e reativa. A prevenção não pode ser um folheto distribuído depois da tragédia. Tem de ser contínua, pedagógica e próxima das pessoas, feita nas escolas, nos bairros e nas associações, com linguagem simples e exemplos concretos.

Num país geologicamente vulnerável e climaticamente exposto, precaver não é alarmismo – é responsabilidade. A estabilidade de outrora é hoje uma miragem. Continuar a ignorar esta evidência não é apenas ingenuidade: é uma escolha coletiva que nos deixa a todos perigosamente expostos quando a próxima crise, previsível e anunciada, deixar de ser uma abstração.