Numa entrevista a bordo do avião presidencial, após uma visita diplomática ao Cairo, Emmanuel Macron surpreendeu ao pré-anunciar que a França irá reconhecer o Estado da Palestina. A formalização desta decisão terá lugar numa conferência, a realizar-se em Junho, co-presidida pelo príncipe-herdeiro saudita, Mohammed bin Salman.

Se, há apenas dez meses, o Ministro dos Negócios Estrangeiros francês afirmava que não era o momento certo para dar este passo, torna-se difícil compreender o que mudou para que o seja agora, especialmente quando ainda há reféns franceses sequestrados nos túneis de Gaza. A decisão intempestiva de Macron, tomada numa fase volátil de guerra aberta e sem resolução à vista para a crise dos reféns, rompe com a tradição diplomática francesa e não fará senão agravar a instabilidade na região.

Em primeiro lugar, basta analisar as características deste hipotético Estado para perceber até que ponto as declarações unilaterais de Macron pecam por prematuras e contraproducentes:

Que territórios o compõem? O enclave de Gaza, na sua maioria devastado, e a Cisjordânia, sem ligação terrestre entre ambos?

Quais são as suas fronteiras? As originais, do plano de partição da ONU de 1947? As do Armistício de 1949? As de 1967, após a Guerra dos Seis Dias? Ou as atuais delimitações territoriais “de facto”, que mudam constantemente com a expansão de colonatos na Cisjordânia?

Qual é a sua capital? Jerusalém Oriental, o local sagrado? Ramallah, o centro político-administrativo?

Quem são os seus governantes? A Autoridade Palestiniana, fragilizada e minada por corrupção? O Hamas (o que equivaleria a aceitar terroristas islâmicos como interlocutores)? Ou ambos, apesar de viverem em clima de guerra civil?

O que prevê a sua Constituição? Consagra os princípios de separação de poderes, eleições livres e universais e os critérios mínimos de maturidade democrática — como aqueles que, por exemplo, vigoravam no Kosovo aquando da sua declaração de independência?

Segundo, trata-se de um erro moral que cria um precedente perigoso. Premiar o massacre de 7 de Outubro e a subsequente estratégia de sacrificar milhares de vidas palestinianas com o direito ao reconhecimento como Estado equivale a conceder ao Hamas uma enorme vitória política, legitimando o terrorismo como meio de autodeterminação. Que mensagem envia isto ao resto do mundo? Como reagirão, perante este sinal de encorajamento, outros grupos terroristas que reclamam a criação de um Estado? Em África, como a Al-Shabaab, o Boko Haram ou a Frente Polisário; no Médio Oriente, como os Houthis ou o PKK?

Uma paz duradoura e sustentável na região só poderá ser alcançada por via de negociações bilaterais entre Israel e a Palestina, com mediação ativa da comunidade internacional, tendo como horizonte uma solução de dois Estados com capital partilhada em Jerusalém. Porém, são condições sine qua non para que este processo negocial possa recomeçar: a libertação incondicional de todos os reféns vivos, o repatriamento dos corpos dos restantes e a total desmilitarização da Faixa de Gaza, incluindo a erradicação da componente militar do Hamas e da Jihad Islâmica. Qualquer ação política que vise atribuir mais direitos à Palestina sem o cumprimento rigoroso destes pré-requisitos não contribui para a paz, antes perpetua o conflito. Pior ainda, ignora que as vítimas do maior genocídio de judeus desde a Shoah, bem como os seus familiares, têm direito a um encerramento digno deste capítulo traumático e esquece que a segurança do Estado de Israel não pode continuar a ser posta em causa.

Na verdade, Macron conhece esta realidade de fio a pavio. O que está em causa não é ignorância, mas cálculo político. O presidente francês parece ter concebido duas políticas externas paralelas, destinadas a agradar a dois segmentos da população que, em solo francês, vivem em tensão permanente — e a quem o Chefe de Estado vai fazendo concessões alternadas. Desta vez, coube ao eleitorado islamo-esquerdista colher os dividendos.