Poucos livros explicam de forma tão clara a essência do conservadorismo em tão poucas páginas como Conservadorismo, de João Pereira Coutinho (D. Quixote, 2014). Nele, o autor recorre aos exemplos de Edmund Burke – que se assumiu como o primeiro conservador moderno perante o terror da Revolução Francesa – e de Roger Scruton – que percorreu um caminho semelhante perante a experiência anarquista do Maio de 68 – para mostrar como o conservadorismo assume particular importância enquanto escudo protetor das estruturas e dos valores fundamentais da sociedade em momentos de rutura.

Ao relê-lo, há duas reflexões que me assaltam.

“À esquerda”

A primeira é que é difícil não assumir uma atitude conservadora perante os tempos de profunda transformação social e cultural que vivemos. Os códigos morais evoluíram rapidamente à boleia do individualismo moderno, levando a que questões éticas outrora consideradas de fronteira passassem a ser entendidas como uma prerrogativa moral do indivíduo, ignorando as consequências das suas escolhas para a família ou para a comunidade em que este se insere. Através da sua hegemonia cultural, a esquerda gramsciana encarregou-se de moldar o ensino, as ciências sociais, o jornalismo, a literatura e as artes em torno de uma visão socialmente ultraprogressista e hostil à civilização ocidental. Complementarmente, correntes de pensamento como o marxismo identitário, o feminismo moderno, o wokismo “1.0” e as teorias do racismo sistémico levaram a que noções contemporâneas de diversidade, equidade, inclusão, discriminação positiva e multicultualismo fossem levadas ao extremo. Por fim, mas não menos importante, a massificação das redes sociais levou à banalização de comportamentos de vigilância moral dignos de sociedades distópicas ou de regimes tirânicos, como o policiamento da linguagem, a sinalização de virtudes ou a cultura do cancelamento.

Perante estes desafios, o papel do conservadorismo é defender a experiência social acumulada e o senso comum, ameaçados por projetos utópicos e revolucionários. Seja rejeitando uma sociedade organizada segundo categorias raciais ou sexuais, seja resistindo à construção coletiva de dicionários morais destinados a definir o que é socialmente aceitável e aquilo que deve ser moralmente reprovado, seja impedindo a alteração do significado das palavras e o condicionamento das sensibilidades por imposição ideológica. Para tal, o conservadorismo deve recuperar influência nas escolas e universidades – onde se formam e transmitem os valores de uma sociedade – e nas associações, comunidades locais, meios de comunicação, administração pública e empresas – onde esses valores são praticados e confrontados diariamente – de modo a enfrentar propostas radicais no campo da identidade, da moral e da linguagem com um debate aprofundado e salvaguardas rigorosas.

“À direita”

Em segundo lugar, ser conservador deve ser afirmar, sem a menor ambiguidade, que a política não deve ser reduzida à economia. À medida que se multiplicam ideias tecnocráticas e mercadocêntricas, desatentas às dimensões culturais e identitárias da vida coletiva, o conservadorismo serve para nos recordar que antes de procurar maximizar o bem-estar material imediato, importa reforçar as condições imateriais que permitem a uma nação sobreviver. Afinal de contas, a economia é um meio, enquanto a preservação das tradições, da memória e dos símbolos que unem uma comunidade e definem a sua identidade constitui um fim político existencial. Se a deterioração dos indicadores macroeconómicos pode ser resolvida com uma reforma legislativa ou alterando a política fiscal, a perda de uma identidade nacional partilhada pode ser irreversível…

Por exemplo, um súbito acréscimo de mão de obra barata pode gerar benefícios económicos imediatos, mas a correspondente vaga de imigração pode ter efeitos brutais sobre a coesão social e a composição demográfica e cultural de um pais, dimensões que tendem a ser ignoradas por uma análise puramente económica de custo-benefício. A política não pode limitar-se a avaliar apenas aquilo que é quantificável em euros. Uma política conservadora de imigração económica deve garantir que o ritmo de entradas é compatível com a capacidade de integração da sociedade e que nada compromete a nossa capacidade de responder à pergunta fundamental: “quem somos nós?”. Isso implica preservar um sentido de pertença sólido, assente em instituições nacionais fortes, costumes enraízados e regras claras, às quais pessoas de diferentes origens possam aderir com confiança e em plena igualdade.

Por definição, o conservador desconfia de aspirações a construir uma sociedade perfeita a partir de uma subversão da ordem estabelecida. Por isso, a valorização das tradições do conservadorismo não resulta de uma atitude reaccionária. O conservador atribui-lhes importância porque passaram pelo crivo do tempo, atravessando gerações e crises graças à sua capacidade de resistência e de adaptação.

Numa atualidade que, pela sua imprevisibilidade e celeridade, devemos encarar com desconfiança, evoluir, para um conservador, significa alcançar melhorias incrementais sem comprometer nem o respeito pelos limites revelados pela experiência social acumulada, nem o tecido social comum que sustenta a coexistência pacífica e a continuidade intergeracional de uma comunidade nacional.