Imbuídos de uma “questão palestina”, posto que requerentes israelitas havia a mais, políticos socialistas, comunistas e outros de pendor soviético orquestraram o fim de uma legislação que não desejavam. O Estado é soberano e decide do valor ou desvalor dos seus instrumentos legais, mas a tabuleta Abramovich, que foi erguida bem alto, não teria feito sentido se imperasse a decência, desde logo pelo facto de os novos judeus portugueses pertencerem, em esmagadora maioria, e a larga distância, a famílias sefarditas tradicionais do Norte de África e do antigo Império Otomano, o que a crise dos reféns de Gaza bem demonstrou, com raras excepções de latitudes outras, mas sempre nutridas do cumprimento dos critérios legais.
A tabuleta da destruição, a ser personalizada, mereceria outro nome, quiçá Ariel Cunio, que aguarda há quase dois anos pela sua sentença nos túneis da morte. Este pacato jovem não dava jeito como tabuleta, por não ser rico, nem conhecido, nem associado ao mundo do espectáculo, e porque pertence a uma família israelita de origem turca que deixou registos documentais nas instituições portuguesas de Esmirna denominadas “Kahal Kadosh Portugal” e “Dotar as Órfãs”. Mais inconveniente ainda é o facto de Cunio estar nas mãos de terroristas patrocinados pelas mesmas forças que sustentam carinhosamente muitas das organizações ligadas à esquerda política europeia. Ora, se a legislação tinha de ser chamada, à força, de “bandalheira”, nada poderia ser mais útil do que uma tabuleta com o nome de um “oligarca russo”, transformado em perigo público, quando à luz do mundo judaico aquele cavalheiro não é oligarca, nem russo. Vejamos porquê.
Em Setembro de 1941, as forças nazistas fizeram sua a floresta de Mažintai, na Lituânia, para fuzilarem toda a comunidade judaica de Eržvilkas. A família Abramovich escapou ao martírio, porque havia sido sequestrada, meses antes, e enviada para o território da Rússia, por ordem de Estaline, o paizinho dos povos, que se mostrava insatisfeito com aquela gente. Nachman Leibovich Abramovich, o grande filantropo da comunidade judaica lituana, experimentou o vagão do gado para conhecer de perto a Sibéria, onde haveria de falecer no ano seguinte, no campo n.º 7 de Nizhniaya Poyoma. Praticara o crime de ter trabalhado muito no comércio de fertilizantes, no cultivo de linho, na compra e venda de fibra e no arrendamento de imóveis. Possuía um hotel, armazéns de cerveja, restaurantes e vastas propriedades em Tauragė. Foi caçado como um animal na sua residência, num terreno privado de 26 hectares que se estendia até ao rio Šaltuona, e introduzido à força num comboio que partiu para as profundidades siberianas, uma viagem de milhares de quilómetros, juntamente com uma multidão faminta de correligionários que se amontoavam em vagões hermeticamente fechados, nos quais uma vasta porção de almas sucumbiu pelo frio.
Para o regime soviético, uma das máquinas mais perversas que os judeus conheceram em três milénios – e a história familiar do autor destas linhas, de avó Abramovich, é prova plena de tal facto –, considerava que Nachman era um capitalista desprezível, um usurpador e um inimigo do povo. Da sua família nuclear, igualmente arrancada à terra-natal, faziam parte a mulher, Tauba Leja Berkover, e os três filhos do casal: Leiva, de 12 anos, Abraham, de 8, e Ahron, de apenas cinco, todos condenados a não mais verem o pai de família. De família judia de muitos bens, Tauba possuía, antes da descrita fatalidade, um navio de grande porte que se dedicava ao transporte de mercadorias e passageiros entre Kaunas a Klaipėda.
Não era de pouca monta a fortuna do jovem casal numa época em que 80% dos navios lituanos pertenciam a famílias judias. No outono de 1940, as autoridades soviéticas nacionalizaram os bens da comunidade judaica. Assim se rouba a propriedade judaica, por despacho. Por meses, o trabalho físico extenuante foi o único companheiro de Nachman, num local onde as temperaturas gravitavam muito abaixo dos zero graus. Cortava árvores, podava madeira e transportava longos toros para armazéns. Trabalhava por turnos de 12 horas e recebia duas rações por dia a par de meio litro de água gelada. A recordação do Egipto fazia-se agora sem calor. O resultado era o mesmo. Morria-se de exaustão, de falta de vitaminas, de disenteria e em acidentes de trabalho. A escravidão comunista produziu naquele campo, e em muitos outros, toneladas de cadáveres, muitas vezes empilhados em carroças, que acabavam despejados em valas comuns. Este foi o destino da mais relevante personalidade da comunidade judaica lituana da época e fonte de sustento das famílias locais mais carenciadas.
De acordo com sobreviventes do campo, Nachman tinha a esperança de poder regressar à Lituânia com a sua amada Tauba e os seus queridos filhos, cujo destino, embora menos trágico, foi doloroso também. Arrancados da sua terra e do clima a que se habituaram, cedo se viram sem bens, alojamento e comida. Não falavam russo e haviam aterrado num local de todo desconhecido. A sobrevivência dependia agora exclusivamente da mãe. Enfrentaram a mais completa miséria em território hostil. E no entanto, Tauba venceu. Durante o dia, trabalhava num restaurante, à noite e aos fins de semana confeccionava roupa, e conseguiu reunir clientes entre membros do partido comunista e as respectivas esposas, pois só aquela nomenclatura parasita possuía abundantes riquezas por aquelas bandas. Os filhos, vencidas a fome e a amargura lancinante iniciais, cresceram saudáveis. Leiva e Abraham formaram-se em escolas e institutos de tecnologia e Ahron apaixonou-se pela música e cedo começou a frequentar uma escola adequada e aulas de canto. Tocava violino e interpretava as árias de Lenski, o que não poderia ser mais adequado à situação, pela necessidade de lamentar a perda de um grande amor – o pai – e a fragilidade passageira da felicidade humana.
A modéstia absoluta da habitação gerida por Tauba contracenava com um enorme piano de cauda negro, que a mesma conseguira adquirir, à volta do qual a prole rezava por Nachman e, depois da sua trágica morte, por uma alma de abençoada memória. A mãe criou os três filhos sozinha, em sofrimento profundo. Nunca deixou de escrever às instituições soviéticas pedindo permissão para regressar à Lituânia. Os pedidos foram rejeitados. Havia sido uma pessoa muito rica e tinha de expiar a sua culpa até ao fim da vida. A última carta inglória está datada de 1957: “Dolorosamente, não aguento mais o clima do norte. Faz 15 anos que o meu marido faleceu.”
Os restos mortais de Nachman há muito apodreciam numa sepultura colectiva. Mais sorte haviam tido os seus irmãos, Yosef, que partiu para os Estados Unidos em 1902, e Mera, que seguiu para a África do Sul em 1909, na habitual senda de um povo de emigrantes forçados em todas as gerações, o que se prolongou até à fundação do estado judaico, na verdade até depois, dado que ali desaguaram refugiados de 11 países árabes e muçulmanos. Três irmãos, cada qual emigrado para um diferente destino longínquo, em pleno século XX, bem demonstram a falta de senso de quantos pretendem reduzir a fórmulas simples as origens das famílias judias, posto que às emigrações permanentes somaram-se os casamentos no seio de comunidades judaicas autóctones, também compostas por populações misturadas nas mesmas circunstâncias, o que foi amplificado pelo jogo dos séculos e das gerações que se sucederam sem cessar.
O bisavô de Nachman, Wolf Abramovich (1745), gozava do apelido que atravessou a Europa de Leste de ponta a ponta, e que há muito foi registado em listas de judeus sefarditas ibéricos, desde logo entre os membros da pujante comunidade judaica de Zamosc, em 1580, entre os quais vultos de grande mérito, como Samson Portugalensis, conforme consta da “História dos sefarditas na Polónia”, Dr. Gelber N. M. (“Otzar Yehudi Sepharad”, Tomo VI, publicado em Jerusalém no ano de 1963). Já o avô, Ber Abramovich (1780), casado com Malca, e tio de Rocha Volfovich (1843), deu ao seu filho o nome de Leiva (1825), que casou com Hanna Rosa (1846), e deste enlace amoroso nasceu Nachman (1884) – que tomou o mesmo nome do cabalista sefardita Nachmanides – que haveria de encetar matrimónio com Tauba Leja Berkover (1900), irmã de Abel (do hebraico Hebel), cujo navio de transporte de pessoas e bens mantinha a tradição familiar, de transporte marítimo e fluvial, que remontava à Liga Hanseática e a Hamburgo. Etimologicamente, Berkover, ou Barkover, significa precisamente dono de barco em ídiche ou, para quem prefira, armador.
Para além dos muitos nomes de origem sefardita já elencados, a Chabad de Lubavitch, a maior organização judaica religiosa mundial, confirmou a longevidade e a permanência na família Abramovich/Berkover de rituais sefarditas registados, incluindo em Pessach (Páscoa judaica), que advinham da ligação centenária entre as comunidades judaicas de Hamburgo e Keidany, tanto que já no século XVII o rabino Jeheskel Katzelenbogen liderava a primeira e o seu neto, rabino Dovid Katzelenbogen, a segunda.
No início dos anos de 1960, Ahron, o mais novo filho de Nachman e Tauba, encetou matrimónio com a dócil Irina Mikhaylenko Grutman, uma professora de piano nascida na Ucrânia em 1940. Quando o jovem casal faleceu tragicamente, o filho – Roman Abramovich – ficou órfão e teve de ser criado pelos tios, estando, porém, destinado a vencer. Do seu trabalho resultou a riqueza e, numa perspectiva judaica, a recuperação de património roubado à família, um conjunto de esbulhos que ele próprio haveria de experimentar mais tarde, não sendo poupados casas, barcos e aviões, sem que nunca o passado dos seus familiares imediatos houvesse sido mencionado sequer ao de leve, antes expurgado como incómodo para que um novo roubo “legal” pudesse ser realizado alegremente e sem impedimentos. Por três décadas, socialistas, comunistas e liberais ancorados nos ideais bolcheviques e nas filosofias da escola de Frankfurt chamaram “oligarca” e “russo” ao alvo que haviam definido, concedendo-lhe os mesmos qualificativos que haviam sido impostos ao seu avô nas circunstâncias de tempo e lugar relatadas acima.
Em 16.07.2020, com o seu passaporte israelita, Roman Abramovich apresentou à comunidade judaica do Porto um pedido de certificação das suas origens sefarditas previamente afiançadas pela Chabad Lubavitch local. Com filhos lituanos, por direito seu, o candidato haveria de fazer as delícias de elementos vários de poderes instalados em Portugal que pretendiam colocar um ponto final numa legislação que não desejavam e que viam nos judeus de origem portuguesa um estorvo para o enriquecimento moral e material da pátria, como se os mesmos padecessem dos males que têm sido apontados à imigração não qualificada em geral. Meses antes, a concessão da nacionalidade aos judeus de origem portuguesa já havia sido amplamente desonrada, por iniciativas conjuntas dos partidos socialista e comunista, que acusavam os cidadãos israelitas – em regra detentores de dupla ou tripla nacionalidade, o que duas centenas de reféns do Hamas permitiram confirmar – de obterem “passaportes de conveniência” num cenário de publicidade de mau gosto e empresas especializadas, o que em Israel é um facto em relação a dezenas de nacionalidades possíveis, dadas as trajectórias universais daquela população: 10% é de ascendência marroquina, 15% fala russo e, para encurtar razões, é uma população judaica extremamente miscigenada entre si mesma, o que vinha de trás, cabendo lembrar a título de exemplo que o co-fundador dos Estados Unidos da América, Haim Solomon, era de família ashkenazita polaca de origem sefardita, que falava ladino e iídiche.
Nascida de um pedido do Instituto de Democracia Portuguesa ao deputado Carlos Zorrinho, em 2012, e depois de audições de elementos das comunidades judaicas portuguesas, da Associação de Amizade Portugal-Israel e da Rede das Judiarias, a lei de 2013, de redacção genérica, dirigia-se aos “descendentes de judeus” de origem portuguesa e pouco acrescentava, salvo em termos de notoriedade, à possibilidade, que já existia desde 1981, de a nacionalidade poder ser concedida a qualquer descendente de comunidades de origem portuguesa, sem a obrigação legal de residir no território ou de falar português. Regulamentada no ano seguinte, pelo governo PSD/CDS, a legislação entrada em vigor em 2015 reclamava – a título exemplificativo, presidido pelo vocábulo designadamente – nomes de família, genealogia conhecida e memória familiar. E embora a comunidade judaica do Porto houvesse sugerido a constituição de uma “comissão internacional” para análise das origens dos candidatos, posto que se encontrava sobrecarregada de trabalho a terminar a reabilitação da sua majestosa sinagoga e a preparar a inauguração de um hotel kosher, a regulamentação veio determinar que caberia a uma comunidade judaica portuguesa a emissão de uma opinião de boa-fé sobre as origens dos candidatos, que seriam igualmente verificadas pela conservatória e, no final, caberia ao governo conceder ou não a nacionalidade ao candidato no uso do seu legal poder discricionário.
O certificado de Roman Abramovich, emitido pela comunidade, está datado de 24.08.2020 e atesta que a sua família lituana tem origem sefardita, com nomes, sobrenomes e apelidos, bem como memórias, que atestam tal pertença. Em 30.08.2020, seis dias depois, a comunidade informou o gabinete do primeiro-ministro de que o requerente e outros judeus familiarizados com o mundo dos negócios poderiam investir em Portugal. No mês seguinte, em 16.09.2020, a organização teve uma reunião oficial com o ministro da economia a respeito do mesmo tema. Volvido outro mês, em 19.10.2020, uma carta foi dirigida à ministra da justiça, alvitrando que, se a legislação fosse alterada, deveria salvaguardar casos como os de Roman Abramovich. Quatro meses depois, em 03.02.2021, a comunidade escreveu ao membro do governo responsável pela pasta da justiça solicitando uma declaração de urgência na instrução do processo administrativo do candidato, para não se repetir o caso escandaloso de uma filantropa de Hong Kong que, por cinco longos anos, foi vítima da inércia de uma conservatória de registo automóvel (repita-se, automóvel) em relação ao seu pedido de nacionalidade, do que resultou, pelo tempo decorrido, a aparição de uma doença própria da velhice e um prejuízo enorme para o país. Finalmente, em 30.04.2021, o governo concedeu a nacionalidade a Roman Abramovich, o que foi realizado urgentemente, por razões de interesse nacional. Tratou-se de uma ação voluntária e esclarecida da tutela, que poderia ter decidido de outra forma.
Volvidos quase quatro anos desde que se iniciou uma campanha terrorista contra uma organização privada, com uso de todos os meios, inclusive com a invocação de uma guerra a que o mundo judaico é alheio e o achincalhamento de um judeu de grandes méritos, que muito fez pelo mundo judaico e israelita, o que está longe de poder ser avaliado por apedeutas; volvidos quase quatro anos desde que o respectivo processo de certificação foi enviado para as autoridades competentes em Israel, dado que a mais extremada União Nacional portuguesa não quis ouvir sequer uma palavra que perturbasse a epifania; é hora de declarar que a comunidade emitiu uma opinião de boa-fé, como lhe competia, que a conservatória tinha obrigações legais que seguramente cumpriu e que o governo concedeu a nacionalidade ao visado não só com urgência, mas também com a certeza de que o mesmo e a sua prole não entorpeceriam as escolas públicas e os serviços nacionais de saúde em Portugal – bem pelo contrário.
Quando a partir de dezembro de 2021 turiferários da bandeira soviética em Portugal – foice, martelo e estrela dourados num fundo vermelho – festejaram, gargalharam e gozaram com o nome por eles inventado de Abramovich da Silva, poderiam ter sido mais práticos e honestos, usando nomes como Abel, Rosa, Leiva, Leja ou Rocha, que são reais e não nasceram de geração espontânea nos Urais. O conhecimento do mundo judaico completa qualquer mera enunciação genealógica de nomes de origem ibérica, mas estes, por si mesmos, já deitam a perder qualquer tese fundada na terminação “ich” (filho de) a todos incutida obrigatoriamente no Leste e na suposição errada de que uma família russa o é a 100% e estará por certo povoada de Demitris e Vladimirs.
Do amplamente proclamado “negócio Abramovich” há a registar o pagamento do emolumento de 250 euros pelo “oligarca”, sendo que mil vezes mais (literalmente 250 mil euros) doou a comunidade judaica do Porto, por anos, para as comunidades ucraniana e russa tuteladas pela Chabad Lubavitch, de origem portuguesa, e com líderes religiosos da mesma origem também, a começar pelo rabino-chefe de Kiev. Acresce que a comunidade pagou os impostos devidos sobre o emolumento do “russo” e ainda o doou na íntegra à conservatória como uma espécie de prenda de Natal. O único problema real sucedeu quando o multimilionário se deslocou a Portugal para receber o seu cartão de cidadão, pois a advogada que a comunidade mandatou para o acompanhar teve de pagar do seu bolso os 300 euros exigidos pela conservatória, que também cobra emolumentos, dado que o interessado não trazia consigo a carteira, se é que a costuma usar algum dia. A causídica nunca reclamou a devolução do valor, alegando que teria algo valioso – o recibo de pagamento – para mostrar aos netos.
Roman Abramovich há muito revelou publicamente que tinha interesse em criar uma fundação em Portugal, para solidificar a sua ligação efetiva ao país, e contribuir para a comunidade judaica portuguesa, mormente em sede de promoção da herança judaica, como antes contribuira para o judaísmo das comunidades russa, lituana, ucraniana, americana e israelita, o que poderia ter feito três anos depois de ter sido certificado, e nunca chegou a fazê-lo, sendo certo que os próprios filmes de história produzidos pela comunidade judaica do Porto, todos eles, marcos maiores da herança judaica portuguesa, foram pagos com recursos próprios daquela, para enriquecimento cultural de Portugal e internacionalização da sua história, que teve bons e maus momentos.
As acusações relativas a truques, venda da pátria e concorrência desleal lançadas sobre os judeus ao longo do tempo e em todas as latitudes nunca foram verdadeiras e silenciaram sempre, de forma deliberada, a vasta obra produzida, como se fosse impuro o facto de, a cada sábado à noite, aquela população recomeçar a trabalhar com visão de futuro e afinco, não tendo mais descanso até ao shabat seguinte, muito menos passando os domingos a comer, a beber e a engordar no meio de problemas psíquicos.
Antes do édito de Dom Manuel, a comunidade judaica do Porto pagava 38% dos impostos da cidade, e ainda dava cartas no comércio internacional. No entanto, sob a alegação de que “explorava” a população envolvente, foi espoliada de tudo. O mesmo ocorreu com os cristãos-novos portuenses, particularmente depois de uma visitação inquisitorial em 1618 que, conforme documentos oficiais da câmara municipal do Porto, arruinou a própria economia da cidade. De roubos históricos estão, pois, os judeus fartos, e tal não voltará a suceder, muitos menos no Porto, posto que os bens da comunidade pertencem, por herança declarada e formal, à Agência Judaica Mundial.
A comunidade teve de aturar, por meses, as vozearias das mais espantosas criaturas, que nunca teriam tido palco em qualquer civilização conhecida no passado, depois de ter tentado obter o apoio de judeus de origem portuguesa – que não eram euroasiáticos – para colocarem o seu conhecimento, experiência e diplomacia ao serviço de Portugal, na exploração das vastas riquezas do mar e no alargamento da plataforma continental. Presume-se que passarão décadas a fio sem que nada de jeito seja erguido para tirar benefício do mar português e deixar um país viável e próspero para os vindouros, porque o plano da comunidade foi por água abaixo, no meio de muita cacofonia de gritos discordantes ou, muito pior, concordantes, que de todo rejeitavam o judeu produtivo, ao qual, em última instância, procuravam roubar a própria identidade judaica, como fizeram com Roman Abramovich, uma táctica canalha que corruptos de Estado sempre usaram contra os judeus, sobretudo os mais relevantes, do que foi exemplo, no século passado, o internacionalmente afamado “Dreyfus português”, fundador da comunidade e patriota apaixonado, gaseado na Flandres ao serviço de Portugal, que foi vendido ao público como sendo um mero “panteísta” a dirigir uma organização anti-nacional que dava “abrigo a bolcheviques”, quando na realidade atraíra para o Porto toda a diáspora sefardita da sua época. Haja juízo!
A organização que costuma celebrar o mais portentoso evento europeu no dia de Yom Kipur é a única instituição portuguesa que conglomera tradições, culturas e artes tão distintas como a religião, o cinema, a pintura, a música, a literatura, a videografia, a gastronomia e a promoção da história judaicas, abrindo novos horizontes para os amantes de um mundo mais polido e urbano. O mais internacionalmente premiado filme português de sempre – “1618” – foi produzido pela comunidade, num país que possui indústria cinematográfica há um século e meio; e o simples canal que a comunidade gere no Youtube supera em mais do dobro o número de visualizações conjuntas dos canais do Centro Cultural de Belém – a maior sala de espectáculos do país – e da Fundação Serralves, que tutela o maior museu de arte contemporânea;
Dado que nenhuma outra organização portuguesa tutela dois espaços museológicos que já receberam gratuitamente cerca de 30 % da população de adolescentes do país, em 2021 a comunidade foi procurada pelo primeiro-ministro da Suécia, que pretendia saber muito especialmente como é que o museu do Holocausto foi construído em apenas dois meses desde a ideia até à inauguração. A Suécia é um país civilizado e propenso à alta-cultura. E Portugal? Nos primeiros anos de desenvolvimento da comunidade, o facto mais marcante que brotou das elites de Lisboa foi o silêncio e não foi sequer assegurado o policiamento devido à organização, para manutenção da sua segurança, como a Comissão Europeia exige e os Estados garantem gratuitamente em toda a Europa. A organização teve de pagar meio milhão de euros pelo policiamento durante uma década, altura em que decidiu deixar de o fazer para empregar meios próprios. Se um ataque terrorista vitimar a comunidade cuja visibilidade negativa foi promovida pelos trompetistas da época, e o mundo inteiro colocar o foco sobre Portugal, é possível que muitas cabeças venham a rolar.
A comunidade ainda não terminou a sua vasta obra cultural que, aliás, tem sido encetada, não para agradar a todos, mas sim para honrar os judeus que tanto deram a Portugal e à história judaica universal. Assim vai continuar a ser. A maledicência (lashon hará em hebraico, que na verdade é sinónimo de lepra) transformou-se em profissão ou, pior ainda, em profissões. De acordo com a mentalidade reinante em Portugal, é anacrónico tudo o que os judeus representam – tradição, família, religião, cultura, trabalho, Israel –, porque supostamente só se herdam traços físicos e doenças, não um legado espiritual, não uma herança de sangue, não uma codificação para uma causa superior, não um chamado desde o nascimento, nenhum dom ou fogo especial, nenhuma missão que empurre a alma para um destino concreto.
No mundo judaico, a filosofia é, e será sempre, outra. O caso relatado ao longo deste artigo bem o revela. Roman Abramovich herdou do povo judeu uma história que repetiu, e da avó a resistência, o labor e a paixão pelos barcos, e do avô o empreendedorismo e a filantropia judaica, particularmente para a Chabad Lubavitch, com sede em Nova Iorque, e não por acaso fundada por um neto e aluno do rabino Baruch Portugali, que viveu em Poznan, na Polónia, onde entre muitos sefarditas ibéricos existia uma rua precisamente com o nome do país de Dom Afonso Henriques e Yaish Ben Yahia ao qual se deveu em muito, e aos seus descendentes e correligionários, a grandeza económica, científica e militar outrora desfrutada por Portugal.
Infelizmente, foi documentado um acervo complexo sobre factos registados que a todas as luzes não deveriam ter ocorrido, com detalhes espantosos, que pretenderam desonrar todo o património humano, cultural e histórico da comunidade judaica mais relevante de Portugal em termos numéricos, religiosos e culturais, num festival que se estendeu a cartas anónimas maradas que até a Inquisição proibia e a outros “oligarcas”, como Andrey Rapaport, também nacional português, também merecedor de uma opinião de boa-fé emitida pela comunidade judaica do Porto, também pagante do emolumento de 250 euros, também cumpridor dos critérios legais e, sobretudo, também certificado previamente pela Chabad de Lubavitch que, afinal, parece conhecer as histórias das famílias judias das comunidades que tutela. O atual embaixador de Israel em Portugal, neto de avó Rappaport, guarda na memória as palavras do seu pai: “Nós somos do Porto. O apelido da tua avó tem na sua raiz as palavras ‘rabino do Porto’”, o que podemos contestar dizendo “rofé do Porto, médico do Porto”, no seio das habituais discussões judaicas.
Tendo em conta que um barómetro de democraticidade no mundo moderno tem sido a forma como a comunidade judaica é tratada, seria aconselhável que o Estado português meditasse sobre a justeza das filosofias dos seus agentes e melhorasse o estado da pressuposta divisão de poderes da sociedade, mormente os quatro maiores, que no conjunto simbolizam o Poder. A ninguém interessa que sejam terceiros a fazê-lo. É lição do passado que os judeus, quando maltratados, não lutam no barulho do palco, mas sim na história, que documentam e não esquecem. Napoleão Bonaparte outrora ouviu vozes de sofrimento que promanavam do interior de uma sinagoga, onde homens e mulheres, prostrados no chão, assinalavam a data de Tisha B”Av e, o que é o mesmo, lamentavam a perda do Templo de Jerusalém. Ao saber da razão daquele pranto e luto, o Imperador exclamou que uma nação que é capaz de recordar com dor as suas derrotas ocorridas há milénios não pode ser vencida.