Em 18 de dezembro do corrente, no âmbito sempre apaixonado do debate público em torno da lei da nacionalidade, o conhecido jornalista e comentador Miguel Sousa Tavares afirmou na TVI que a Comunidade Judaica do Porto estava envolvida num “esquema de corrupção”. A acusação pode ser apreciada em várias dimensões, incluindo uma positiva, posto que a predita organização privada tem dado mostras de saber recolher e arquivar para a história tudo o que contenha significado para uma epopeia já milenar.
O acusador certamente sabe que a legislação que permitia a obtenção da nacionalidade pelos judeus de origem portuguesa impunha a certificação (leia-se, uma opinião de boa-fé) por parte de uma pessoa coletiva religiosa radicada em Portugal, ao que se somava a exibição pelo requerente à Conservatória das provas da sua origem sefardita e, no final, o governo decidia se deveria conceder ou não a nacionalidade ao visado, de acordo com o legal poder discricionário que detinha. A legislação também se referia a critérios exemplificativos para apurar a origem das pessoas, designadamente os nomes de família e a memória familiar, esta forçosamente atestada por entidades reconhecidas no seio do mundo judaico, que não tem e nunca teve um “Vaticano”, mas que sabe discernir quem é quem à luz da tradição judaica, que é muito mais uma genealogia do que um “credo” como muitos ignorantes persistem em afirmar.
Neste cenário, importa saber quem se integra no “esquema de corrupção” afirmado tão apaixonadamente por Miguel Sousa Tavares. Quem foram os autores de certificações emitidas de má-fé e a troco de vantagens? O milhar e meio de pessoas que compõe a Comunidade Judaica do Porto? Os elementos dos órgãos sociais? Os líderes dos templos religiosos, museus, filmes de história, galeria de pintura, restaurantes, cemitério? Os elementos casados por Chefes-Rabinos do Estado de Israel, mas que o sistema em Portugal afirmou tranquilamente não professarem a fé judaica? Afinal, quem exatamente? O que fizeram? Quando? Como? Em relação a quê? Em relação a quem?
O Hamas tirou à sorte 30 vítimas com a nacionalidade portuguesa e, afinal, os mesmos tinham conexões reais com o país de Dom Afonso Henriques e Yaish Ben Yahia, o que aliás não admira, dado que se concentra em Israel e maior população sefardita mundial e que, só de origem marroquina, há um milhão de israelitas. Também falhou a Tabuleta Abramovich, tal como os demais “russos” certificados pela Chabad Lubavitch, a mais forte organização judaica do mundo, posto que já revelamos neste jornal que os respectivos emolumentos de 250 euros foram doados à Conservatória para comprar guarda-chuvas neste país chuvoso. Todos passaram pelo crivo da Conservatória. O governo procedeu como entendeu. Fim da história.
Aguardamos por uma explicação da parte de Miguel Sousa Tavares, sob pena de o mesmo passar a integrar a sala do antissemitismo no museu judaico a partir de 1 de janeiro de 2026. A Comunidade Judaica do Porto tem alegado por anos que foi vítima de uma “questão palestina” (num país que entretanto reconheceu o Estado do Hamas) que agrupou elementos dos poderes executivo, legislativo, judiciário e mediático, ou seja, o Poder, porque israelitas havia a mais. A Comunidade também alega que não foi ouvida aquando da campanha mediática, que as buscas que sofreu foram ilegais e que tudo não passou de esquema de notícias falsas e de cartas anónimas do manicómio, ao estilo da Inquisição. Será verdade? Se for, então sim, poder-se-á falar de corrupção, a mais grave de todas, a corrupção de Estado e, pior, visando uma minoria organizada nos termos da lei, a mesma de sempre, que tem pouca paciência para corruptos. Na verdade, a organização vive para produzir espiritualidade e cultura e assim vai continuar a ser, por muitos que sejam os Miguéis desta praça, sobre os quais também recebemos denúncias anónimas e estranhas história, as quais, connosco, têm como destino o caixote do lixo, posto que os denunciantes são sempre uns canalhas, nunca cidadãos promotores da cidadania. É uma lição judaica que nada prospera quando o lábio torpe, a inveja e o repasse de lendas negativas têm carta branca para destruir.
Do que se sabe, Miguel Sousa Tavares estava no gozo das suas faculdades quando bradou publicamente, por exemplo, que “Israel sacrificou voluntariamente 1.200 dos seus cidadãos para poder fazer o massacre que está a fazer em Gaza”, “mais de 800 mil palestinianos mortos em Gaza”, “isto só termina quando Israel conseguir uma solução final”, “não se pode dizer que se é o povo eleito e vítima do Holocausto quando se está a promover um na própria terra”, “há um elemento de racismo claro de Israel em relação aos palestinianos”, “Israel é um Estado terrorista”, “um Estado criminoso que nenhum critério de decência pode absolver”, “Netanyahu é o maior criminoso à face da terra”, ou ainda “os líderes da Europa estão capturados pelo lobby israelita”.
Tavares estava bem de saúde quando justificou a investida iraniana com dezenas de mísseis sobre cidades israelitas povoadas por milhões de pessoas. Terá sido – alegou – “uma resposta legítima à provocação de Israel”, “quem se está a defender é o Irão”, “Israel está ao nível de barbárie, loucura, insanidade”, “um Estado à margem da lei”, “todo o povo de Israel, ou quase todo, está solidário com eles, solidário com um Governo de criminosos”, “acabou-se a factura do Holocausto: os judeus de hoje acabaram com ela, cobrindo de vergonha o nome de Israel.”
E face a tudo isto, compreende-se o resto: “Não aceito que Portugal esteja a dar nacionalidade a cidadãos de Israel num momento em que este país recusa quaisquer direitos à população palestiniana“. E assim, a única comunidade judaica portuguesa com sinagogas e museus cheios foi brindada, por Tavares, com um pretenso “esquema de corrupção” que, na realidade, foi um sonho do cronista e de outros da sua tribo.