A visita do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, a Israel ocorreu num contexto especial. Treze cidadãos portugueses foram assassinados em 7 de outubro de 2023, cinco foram libertados dos túneis aterrorizantes e quatro ainda aguardam por uma sorte semelhante.

O dia mais alegre do calendário judaico – a festa de Simchá Torá, que coincidiu com aquele fatídico Shabat – transformou-se num pesadelo para o povo judeu em geral. A matança indiscriminada, o esquartejamento e o sequestro de judeus de todas as idades foi mais um capítulo de perseguições antijudaicas que se estenderam por séculos em regiões tão diversas quanto Alexandria, Odessa, Sevilha e Lisboa.

A tragédia de 7 de outubro demonstrou que duas centenas de reféns possuíam outras nacionalidades para além da israelita, todos em condições muito semelhantes às previstas na legislação nacional. A nacionalidade portuguesa, um dia concedida àqueles cujos nomes serão mencionados ao longo deste texto – vivos, mortos ou feridos –, resultou da “devolução de um direito” nas palavras de Paula Teixeira da Cruz, Ministra da Justiça em 2015. Esse direito foi conferido aos judeus com “tradição de pertença a comunidades sefarditas de origem portuguesa”, os quais, por lei, não estavam obrigados a residir em Portugal, tal como ocorre desde 1981 com os outros membros de comunidades de origem portuguesa.

Os nomes e as origens familiares das vítimas do Hamas com origem portuguesa, abaixo recordados, têm por intuito que os mesmos jamais sejam considerados como portugueses de “segunda classe”.

Os reféns cativos – Ariel Cunio, de 28 anos, preso em Gaza, é cidadão português, de família sefardita turca de Esmirna, com registros na “Kahal Kadosh Portugal” e na instituição “Dotar as Órfãs” nos séculos XVII e XVIII. Na mesma situação de desespero, mas ainda sem a conclusão de seu processo de obtenção da nacionalidade, estão Omer Shem Tov (cujo pai, Malki, é cidadão português), de uma família marroquina com os sobrenomes Hassan e Eskenazi, com registos no cemitério britânico da Estrela, em Lisboa, dado o regresso de alguns dos seus membros a Portugal depois da Inquisição; Segev Halfon, de família marroquina e tunisina, com registos de casamentos na comunidade judaica portuguesa de Túnis; Tsachi Idan Eini, de família sefardita tradicional turca e egípcia; e Ran Guili, também de família sefardita otomana, com os sobrenomes Nada e Ziuni, que as Forças de Defesa israelitas afirmam ter morrido tragicamente, mas cujo corpo nunca foi devolvido a Israel.

Os reféns libertados – Ofer Kalderon é cidadão português, de família sefardita grega com registros nas comunidades “Kahal Kadosh Portugal”, “Kahal Kadosh Lisboa” e “Kahal Kadosh Évora” de Salónica; Dror Or Ermoza também é cidadão português, pertencente a uma família cuja epopeia contada em ladino inspirou a série da Netflix intitulada “A Bela Rainha de Jerusalém”; Adina Moshe Galante é portuguesa, de família turca de Edirne e Esmirna, também registada nas já mencionadas comunidades “KK” portuguesas. Ao contrário destes três ex-reféns, outros dois ainda aguardam a concessão da nacionalidade: Or Levy, cujo tio Moshe é cidadão português, de família sefardita turca de Istambul; e Eli Sharabi, de família marroquina de sobrenome Turgeman, com registos no cemitério judaico de Lisboa, uma vez que membros desta família também regressaram a Portugal depois de 1821.

Os mortos – Yossi Sharabi, irmão de Eli; Gila Peled Cohen, de família da comunidade portuguesa de Túnis; Daniel Peled, filho de Gila; Dorin Atias, de família com origens em Gibraltar e Marrocos, com registos nos cemitérios judaicos de Faro e Lisboa; Liraz Assulin Shitrit, de família marroquina; Nevo Arad Edry, também de família marroquina; Moshe Saadyan, de família com raízes marroquinas e turcas com os sobrenomes Bouskila e Zubi; Gilad Yehuda, de família turca com o sobrenome Eskenazi; Idan Shtivi, de família búlgara com os sobrenomes Benveniste e Naftali; Ravid Katz, de família búlgara com o sobrenome Arieh; Orin Bira Kasorlla, de família da antiga Iugoslávia com o sobrenome Paredes/Pardess; sua filha Tair; e Rotem Neumann Kadosh, também de uma tradicional família sefardita dos Bálcãs.

Um ferido já recuperado – Menachem Hillel Ben Kalifa esteve gravemente ferido, mas sobreviveu. É cidadão português, de uma família marroquina com os sobrenomes Attar e Assayag. Membros desta família retornaram a Portugal após a Inquisição, havendo registos de seus nomes nos cemitérios judaicos de Lisboa e dos Açores.

Registe-se que a legislação que permitiu a todos estes homens e mulheres obterem a nacionalidade portuguesa, cingia-se a três pontos essenciais: os requerentes deveriam comprovar os seus vínculos históricos a comunidades sefarditas de origem portuguesa através de requisitos tais como nomes de família, memórias familiares, idiomas de família e genealogias; tais comunidades sefarditas de origem portuguesa (ou melhor, também de origem portuguesa) vinham elencadas no preâmbulo do decreto, com ênfase no Norte de África e no antigo Império Otomano; e, por último, caberia às comunidades judaicas nacionais a faculdade de emitirem uma opinião sobre as origens dos candidatos, sem que essa opinião fosse vinculativa para a Conservatória, que deveria também averiguar as origens sefarditas dos requerentes, e para o governo, que em qualquer caso tinha o poder de conceder ou não a nacionalidade, tomando em conta inúmeros critérios relativos ao interesse nacional.

A viagem de Paulo Rangel a Israel ocorre não somente num quadro de tragédia que vitimou cidadãos portugueses, mas também num momento em que o tema da imigração é amplamente discutido em Portugal. O debate tem decorrido nos termos mais extremos, variando entre a defesa de uma entrada livre para todos e a proposta de um retorno à chamada pureza de Portugal. Em qualquer dos casos, é preciso notar que a comunidade judaica já habitava o território muito antes da fundação do reino e que a amizade e cooperação entre Dom Afonso Henriques e Yaish ben Yahia foi o primeiro marco de um caminho que resultou na criação de um Império notavelmente grandioso em termos científicos, económicos, militares, territoriais e diplomáticos. A chegada de 120 mil judeus espanhóis em 1492 – um número registado por Abraham Zacuto no seu “Livro das Genealogias”, embora Alexandre Herculano tenha estimado o dobro – aumentou significativamente o peso numérico da população judaica nativa, que Lúcio de Azevedo estimou em 75 mil pessoas.

Os judeus portugueses e espanhóis estão entrelaçados nas mesmas origens, nas mesmas famílias, nos mesmos apelidos, nos mesmos destinos na diáspora e pelo casamento. Do mesmo passo, as famílias sefarditas tradicionais das comunidades mencionadas ao longo deste artigo são forçosamente de origem portuguesa, mesclada com a espanhola e outras autóctones, por factores tão diversos como o peso numérico, a supremacia cultural e, sobretudo, a força dos casamentos. Sobre tudo isto existe uma abundante literatura.

O impacto do casamento é grande em cada geração. Aproximadamente 200.000 judeus marroquinos emigraram para Israel no século XX. O censo israelita de 2019 contabilizou 472.800 judeus nascidos em Marrocos ou filhos de pais marroquinos e, de acordo com a Federação Mundial dos Judeus Marroquinos, por força dos casamentos com judeus de outras origens, já existe 1 milhão de judeus israelitas de ascendência marroquina, donde se segue que é pelo menos muito complexo o trabalho daqueles que tentam calcular o número de judeus de origem portuguesa que estão integrados no mundo judaico contemporâneo. Um esforço neste sentido foi realizado na década de 1970 pelo grande estudioso da diáspora sefardita portuguesa, Edmond Malka, antigo Ministro da Justiça do Estado de Nova Jersey. Segundo ele “existem cerca de dois milhões de judeus de origem luso-espanhola” e esta conclusão aparece no seu mais conhecido livro, significativamente intitulado “Fiéis Portugueses”.