Estamos em 2025. Está em curso a fase pós-estruturalista do sistema de poder ocidental em direção ao anarcocapitalismo financeiro, uma marca distintiva do modelo pós-democrático da era liberal. Esta nova fase pode ser descrita do seguinte modo: gigantismo tecnológico (1), domínio dos fundos financeiros (2), grande acumulação de riqueza (3), controlo social e vigilância dos cidadãos (4), crescente autoritarismo político (5), projeção internacional da força do poder e do poder da força (6). O governo tecno-plutocrático americano, recentemente empossado e presidido por Donald Trump  é o exemplo eloquente desta fase pós-estruturalista do capitalismo, na confluência de três factos políticos da maior relevância, a saber, a guerra entre a Ucrânia e a Federação Russa, a colisão política no interior do Ocidente Global entre os aliados americano e europeu que ameaça fazer ruir a ordem liberal multilateral e, por último, uma crescente legitimação do radicalismo político e do populismo autoritário por via eleitoral. Vejamos, então, os traços principais desta desconstrução em curso, a fase pós-estruturalista do capitalismo, ensaiada pelo regime tecno-plutocrático e de que a atual governação americana é a melhor ilustração.

  1. Em primeiro lugar, a desmaterialização das cadeias de valor: esta desmaterialização que é operada através da digitalização, automação e inteligência artificial, visa, em primeira instância, acrescer a eficiência e eficácia dos processos produtivos e cadeias logísticas, em segunda instância, poupar recursos escassos à economia capitalista e, em terceiro, remeter a nova geração de externalidades negativas para fora do seu sistema. E qual é o balanço final, ninguém sabe, por agora, mas, seguramente, profundas desigualdades e clivagens sociais.
  2. Em segundo lugar, a desinstitucionalização da democracia representativa: esta desinstitucionalização é operada através de fórmulas inovadoras de democracia participativa, colaborativa e direta, em profunda hibridação com as normas e instituições da democracia representativa. E qual é o balanço final, ninguém sabe, por agora.
  3. Em terceiro lugar, a desintermediação das regras de regulação pública: esta desregulação é operada, em primeira instância, através da desregulamentação e, em segunda instância, duma redução dos mecanismos regulatórios, que acaba por dar lugar, progressivamente, à hétero-regulação e autorregulação. E o balanço final, para já estão em preparação propostas legislativas e regulamentares de simplificação da política pública de regulação, nos EUA e na União Europeia.
  4. Em quarto lugar, a desorçamentação do estado-administração previdencial: esta desorçamentação é operada e justificada de vários modos, seja por causa do elevado volume de dívida pública, a aplicação de critérios e métricas de sustentabilidade, a contratualização com o setor privado e a privatização de serviços, e visa não apenas o emagrecimento do Estado-administração, mas, também, a redução da carga tributária e o ajustamento do peso redistributivo da despesa pública. E qual é o balanço final, para já uma clara regressão do Estado social.
  5. Desconsolidação do mercado de trabalho: esta desconsolidação do mercado de trabalho é operada através das tecnologias digitais e a IA, mas, também, de uma maior autonomia e flexibilidade na relação socio-laboral, com mais precariedade, intermitência e prestação de serviço, sendo que o contrato individual de trabalho substitui cada vez mais a contratação coletiva e o seguro privado as prestações, parcial ou totalmente, do sistema de segurança social público. E o balanço final é, para já, uma fragmentação do mercado de trabalho e um claro desajustamento do direito do trabalho às novas condições laborais.
  6. Desestruturação do espaço público: esta desestruturação da arquitetura do espaço público é operada através das redes sociais e dos meios de comunicação social que através da desinformação e da pós-verdade promovem a saturação do espaço público e, dessa forma, conseguem provocar um desvio permanente da atenção e do sentido crítico que só o tempo lento de reflexão pode conceder. E o resultado, uma polarização do espaço público e uma clara regressão da saúde mental dos cidadãos.
  7. Despolitização da democracia política: esta despolitização é operada através do uso intrusivo e abusivo da fast politics que é veiculada nos canais e nas bolhas das redes sociais e de uma mercantilização intensiva da sociedade do consumo e do entretenimento que provocam alienação, violência e a radicalização dos comportamentos. E o resultado é a morte do centro político moderado e a ascensão do populismo radical.
  8. Desideologização do sistema capitalista: esta desideologização é operada através de um corte entre a cultura e a política que constrange a liberdade, elimina a crítica reflexiva e promove o regresso a um novo obscurantismo social onde crescem as crenças e os mitos e outras tantas teorias da conspiração que, tarde ou cedo, desembocam no populismo, na demagogia e no autoritarismo. E o resultado é o regresso a uma espécie de feudalismo político-ideológico com muito patriarcado e servidão voluntária.
  9. Desobrigação moral e ética do capitalismo: esta desobrigação moral e ética pode ser observada na forma cruel e cínica como o sistema de poder dominante trata a utilidade social do respeito, os bens comuns, os direitos humanos e os grupos mais vulneráveis da população como os refugiados ou, ainda como o sistema internacional é salvaguardado e respeitado. E o resultado mais visível é a proeminência que o espaço mediático concede ao individualismo metodológico e ao narcisismo doentio dos principais protagonistas da cena internacional, outras tantas formas de intolerância inadmissíveis no nosso tempo.
  10. Desrespeito pelo direito internacional do sistema multilateral: este desrespeito do sistema multilateral do pós-guerra onde, também, se inclui o projeto político da União Europeia, é já uma consequência do sistema multipolar em formação onde o direito da força e as áreas de influência substituem a força do direito e as deliberações das instituições internacionais. O direito kantiano da paz perpétua dá lugar a uma visão maquiavélica das relações internacionais. O resultado é a desordem, a arbitrariedade e a discriminação entre Estados-nação.

Aqui chegados, importa perguntar onde se situa a União Europeia nesta transição para a fase pós-estruturalista do capitalismo tecno-plutocrático, ou seja, onde está a Sillicon Valley europeia, onde estão os plutocratas europeus, onde está a autonomia estratégica da União Europeia, onde está a sua capacidade de projeção do poder, se quisermos, como pretende a União Europeia passar da fase kantiana da paz perpétua e do soft power para a fase maquiavélica da força do poder e do hard power?

Na conjuntura geopolítica atual, uma geopolítica da intimidação (Frederic Charillon, 2025), o tempo não corre, claramente, a favor da União Europeia. Ficamos com a sensação amarga e desagradável de que a União Europeia está destinada, sobretudo, a suportar não só as garantias de segurança da paz ou a guerra congelada na Ucrânia e os custos pesados da sua reconstrução, mas, igualmente, a hostilidade dos poderes autocráticos em ascensão.