Serena Williams

Acontecimentos que mudaram a História: a tenista zangada /premium

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1.609

Descendentes de gente maravilhosa, os cidadãos decidiram sentir, sentir muito, sentir imenso, sentir sempre – desde que, vale acrescentar, o sentimento verse matérias que não lhe dizem respeito.

Soube só vagamente que, há dias, uma tenista qualquer reclamou com um árbitro qualquer durante um jogo qualquer. Na América. Dito assim, ou dito assado, o facto é tão irrelevante quanto o meu jantar de anteontem. Sucede que os tempos são propensos a pegar em irrelevâncias, agitá-las imenso e servi-las a título de “assunto”. Assunto ou, na linguagem e na acção contemporâneas, motivo de indignação. Hoje, quase tudo é pretexto para as pessoas se indignarem e exibirem o resultado na internet, um palco de furiosos que tornou anacrónicos o Speaker’s Corner no Hyde Park, a terapia do grito e os desfiles da CGTP. Porque é que um “match-point” remoto não deveria enfurecer multidões?

Primeiro, vieram os patriotas. Pelos vistos, o árbitro em questão é português e, naturalmente, “um dos melhores do mundo”. Entre parêntesis, começa a ser redundante acrescentar a expressão “melhor do mundo” à palavra “português”. Num movimento estimulado pelos comentadores da bola e pelo prof. Marcelo (outra redundância), é praticamente obrigatório notar que, dos treinadores às rolhas, dos chocos grelhados às solas de borracha, aquilo que Portugal produz constitui uma bênção para a humanidade, no fundo pasmada ante a nossa grandeza. Fora de parêntesis, no caso em questão, os patriotas nunca permitiriam que a afronta a um árbitro de que nunca ouviram falar passasse sem resposta. Milhares de “posts” no Facebook convidaram a tal tenista, e o público boçal que a aplaudiu no mau perder, a respeitar a nossa nação superior, ali representada por um senhor empoleirado.

Depois, vieram as – ou os, não quero ofender ninguém – feministas. Para estas, ou estes, as críticas posteriores à birra da tenista apenas existiram porque a tenista é mulher e, como tal, vítima de discriminação. Fui ver. A mencionada atleta, Serena Williams de seu nome e 16ª no “ranking” da modalidade, detém um pé-de-meia de meros 170 milhões de dólares, além de mansões humildes em Los Angeles e Palm Beach. A fortuna do actual primeiro classificado da tabela masculina, Rafael Nadal, anda pelos 160 milhões. Fica claro que a sra. Williams agoniza às mãos do sexismo vigente. E fica claríssimo o ócio mental de quem aproveita cada ocasião para protestar em nome dos demais sócios de uma agremiação imaginária, cuja vasta maioria não lhe encomendou o serviço. Milhares de “tweets” revoltados voltaram a demonstrar que os campeões das “identidades” carecem urgentemente de uma.

Por fim, entrou em cena a turba indistinta que, no meio de uma polémica postiça, costuma recolher as pequenas polémicas postiças que sobram. No caso, o “racismo”. É que a sra. Williams é “preta” ou, mil perdões, “afro-americana”, e isso abre a porta a toda uma série de possibilidades no sector da indignação. Pior do que a referência à “raça”, os anti-racistas abominam a indiferença à “raça”: é necessário chamar incessantemente a atenção para semelhante critério de modo a que o critério deixe de chamar incessantemente a atenção, e o universo viva em harmonia – ou em guerra racial, o que para os “anti-racistas” é ainda melhor. A concentração de melanina no corpo da sra. Williams diminui a sua sensibilidade à luz solar e aumenta a sensibilidade dos “anti-racistas” ao resto. O autor de um “cartoon” que ridicularizava a ira da sra. Williams no “court” viu-se acusado de ridicularizar a “etnia” da sra. Williams na vida. A pensar no desgraçado, milhares de publicações no Instagram (liberdade poética, ignoro o que o Instagram faz) acenderam uma fogueira “virtual”, lamentando unicamente a “virtualidade” da dita. O desgraçado esteve a um passo de perder o emprego, castigo mínimo por beliscar a susceptibilidade de estranhos.

E eis o ponto a que chegamos no ano da graça de 2018. Nas sociedades democráticas, informadas, tecnológicas e instruídas, o cidadão médio aceita com curiosa pacatez que o Estado o roube, que os partidos o gozem, que a banca o humilhe, que o jornalismo o engane, que os sindicatos o manipulem, que o poder, em suma, o atropele com testemunhas e despreocupação. Se, porém, acontece algures uma patetice sem vestígio de influência no seu quotidiano, saiam da frente do cidadão médio, cego de raiva e inchado de moralidade, em corrida desenfreada até à “rede social” mais próxima para denunciar injustiças e promover punições. Por cá, isto consistiu no desenvolvimento talvez lógico desse ex-libris dos provérbios palermas: quem não se sente não é filho de boa gente. Descendentes de gente maravilhosa, os cidadãos decidiram sentir, sentir muito, sentir imenso, sentir sempre – desde que, vale acrescentar, o sentimento verse matérias que não lhe dizem respeito. Com eles, ou elas ou o que quiserem, ninguém brinca. Excepto os que brincam, e impunemente.

Notas de rodapé:

1. O dr. Rio, portento escolhido pela “direita” para consagrar o rumo socialista previsto na Constituição, abençoou uma tentativa do Bloco de Esquerda em taxar especialmente as “mais-valias rápidas” (?) no imobiliário, ideia tão grotesca que é espantoso o PS não lhe ter pegado. Confirma-se que Pedro Passos Coelho era o derradeiro obstáculo ao regime de partido único. Uma vasta maioria de portugueses, à sua maneira também únicos, gosta assim.

2. Grandes nomes da cultura internacional e caseira, de Brian Eno ao Padre “Na Reserva” Fanhais, de Mike Leigh a António “Hífen” Pedro Vasconcelos, de Aki Kaurismäki a José Mário “Inquietação” Branco, empenharam-se num projecto comum: impedir a realização do Festival da Eurovisão em Israel. Parece que não conseguiram, mas nem tudo está perdido. É ridículo juntar tantos talentos sem os aproveitar para outras causas humanitárias similares: a reabilitação póstuma de Adolf Eichmann, a atribuição do Nobel da Paz (ou da Literatura) ao Estado Islâmico, o boicote a Jerry Seinfeld, eu sei lá.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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