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Muito se tem escrito sobre água, a sua importância, a sua escassez, o seu valor. Também muito se tem escrito sobre seca, cheias, alterações climáticas, enfim, preocupações que a todos devem tocar e motivar para que consigamos continuar a viver neste nosso cantinho de que muito gostamos.

Relacionado com este e outros assuntos muito se tem escrito também sobre agricultura, modos de produção, uso e abuso de recursos, excessos e até ilegalidades. A vida é assim mesmo e por isso são necessárias regras, leis e regulamentos. Mas uma coisa está, ou deveria estar, na base de tudo o que praticamos. O conhecimento.

Nos dias de hoje não há desculpa para se continuarem a fazer investimentos ou escolhas alheadas do conhecimento. O conhecimento não é absoluto, nem tudo é conhecido, por isso se estuda e são importantes as universidades e institutos para que a evolução seja um processo contínuo, potenciador de mais e melhores resultados.

Foi com base neste princípio que a União Europeia lançou os desafios que recentemente aprovou e deseja implementar num horizonte apertado. O Green Deal e a Neutralidade Carbónica são exemplos dessa ambição.

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Mas, infelizmente, as opiniões que entre nós insistentemente se veiculam, numa tentativa de retrair o progresso e impedir a viabilidade da actividade agrícola mais intensa, mesmo que assente nos mais modernos modelos de exploração e produção, ganham peso numa sociedade que desvaloriza o mencionado conhecimento e aos poucos perde confiança nos actores daqueles processos, ou mesmo nos produtos deles resultantes. Tudo põem em causa sem irem ao âmago das questões, tal é a urgência em travar o progresso. A demagogia impera.

Alqueva salvou o Alentejo da ruína, está a trabalhar há meia dúzia de anos, mas só se ouvem críticas à sua volta. O Tejo ambiciona um novo futuro, mais sustentável e vanguardista para uma vasta região e rapidamente se incendeiam opiniões antes mesmo de se estudar o assunto. Trás-os-Montes aguarda por mais e melhores infraestruras hidráulicas para poder investir e apostar numa agricultura moderna e economicamente interessante, permitindo estancar o êxodo dos jovens e o consequente abandono dos campos. O Oeste suplica por soluções para a gestão da água que se vem agravando e coloca em risco o expressivo VAB ali produzido anualmente. O Alto Alentejo desespera pela sua barragem do Pisão, velha no papel, mas teimosa em ver a luz do dia. As Beiras, do interior ao litoral, sonham com o reforço de novos projectos e a reabilitação dos existentes, onde os agricultores insistem e resistem (nem todos) a abandonar o território à destruição pelo fogo que virá a seguir. O litoral alentejano, que como o vinho do Porto se afirma no mundo com os seus produtos de excelência, luta por um consenso e equilíbrio na compatibilização dos diversos interesses locais e instalados. E até o Algarve, ameaçado de ver travado o seu potencial, parece condenado a nada poder ambicionar que não respeite ao turismo.

O mote de tudo isto é a água. Na nossa geografia, a água está para a agricultura como o sangue está para o nosso corpo. Daí o velho ditado: Água… é vida.

Há dias li: não podemos viver sem abacates? Creio que sim, alguém se encarregará de no-los vender. E eu pergunto. Não podemos viver sem laranjas? Podemos. E sem olivais? Também. E sem milho? Porque não? E sem pêras ou maçãs? E sem tomate ou arroz? E sem alfaces ou morangos? É igual. Haverá sempre alguém no mundo a produzir, pronto a tudo nos vender. Somos ricos, produzir para quê? Para destruir os recursos, alterar rios, gastar água, mais vale nada fazermos, vamos todos para a praia e deixamos o território entregue à “natureza”. Mais cedo ou mais tarde, o deserto e o fogo farão o seu percursom deixando-nos as cinzas da sua implacável voracidade.

A ironia a que aqui recorro está talvez mais próxima daquilo que alguns defendem do que poderíamos imaginar. A tal falta de conhecimento que encontra eco no mundo virtual e confortável da internet leva à ilusão, só que está a tornar-se numa doença social castradora do necessário progresso, ou mesmo “apenas”, nalguns locais, da manutenção ou da continuidade.

Não. Não podemos deixar de “chamar os bois pelos nomes”. Temos de meter o dedo na ferida e reivindicar o que necessitamos. Este é o ano propício a discutirmos este assunto.

As chuvas que têm ocorrido este Inverno trazem-nos a certeza do que venho defendendo desde que a estes assuntos me dedico. O país tem água para poder criar reservas estratégicas que permitam salvaguardar os anos críticos. Um ano como este é essa evidência.

Se uma parte da água que está neste momento a escorrer para o mar fosse retida, estaria seguro o seu uso nos anos vindouros para consumo humano, para a agricultura, para o turismo e até para o combate à desertificação e fogos rurais. Não se pretende (nunca o dissemos) que se deva represar toda a água ou que a água não deve chegar ao mar. Sabemos que faz falta ao litoral e especialmente aos estuários, mas alguma poderia e deveria ficar em terra e participar no necessário (re)ordenamento do território para mais e novas culturas, mais e mais jovens empresários rurais, produzindo com recurso a mais conhecimento, mais tecnologia já disponível, abraçando a inovação e a digitalização, na busca de novos mercados e potenciando mais agro-indústria. Numa palavra, mais riqueza.

A água que neste momento escorre para o mar é o ouro do nosso futuro. Um futuro que, se for construído com base em conhecimento, com balizas bem definidas e decisões consensuais, nos trará um país mais coeso, mais dinâmico e criador de riqueza. Pouco importa se é abacate, olival ou laranja. É agricultura, é vida, tem é de ser sustentável.

No discurso da nossa ministra lê-se que o desenvolvimento rural é a chave para combater o abandono do território e promover a fixação de pessoas e a renovação geracional. Concordo, mas pergunto. E água, Sra. Ministra, está assegurada? Está devidamente pensada? Se não olharmos para este assunto com pragmatismo, as boas intenções não passarão de isso mesmo… intenções.

A estratégia (ou falta dela) do Governo face à questão das reservas de água está a falhar – vejam-se as verbas inscritas no PNI e no PRR -, mas agora não há desculpa. A Europa vai colocar à nossa disposição um pacote financeiro como nunca imaginámos e em condições irrepetíveis. Não aproveitar esta oportunidade será incompreensível para as gerações que nos sucederão. Seremos assim tão ricos que nos possamos dar a esse luxo?

Estranha época esta que vivemos. Em vez de nos focarmos na busca de caminhos e soluções que nos assegurem o futuro, mais fácil encontramos quem se foca na destruição das marcas do nosso passado e do império que fomos. A continuarmos assim, talvez estejamos na aurora de uma nova era imperial. Será, contudo, o império da insensatez.