Três anos passaram desde que o ChatGPT foi disponibilizado ao público. Parece pouco, mas no tempo acelerado da Inteligência Artificial equivale a atravessar uma era inteira. Em apenas 36 meses, vimos a IA entrar na escola, na empresa, na justiça, na saúde, na comunicação e até na vida privada das nossas famílias. Basta dizer que a minha mãe, com 80 anos, hoje usa IA para organizar viagens, esclarecer dúvidas e até conversar. Se isto aconteceu em três anos, o que esperar dos próximos três? E dos próximos dez? A única resposta possível é esta: prepare-se para mudanças ainda mais profundas e rápidas. Nunca na história humana uma tecnologia se tornou tão banal, tão depressa.
Curiosamente, muitos parecem surpreendidos. Mas nada disto é novo. Em 2015, quando li The Rise of Robots, de Martin Ford, já estava tudo lá. E quando, na entrevista que deu ao Observador em 2019, Ford afirmou que as melhores profissões do futuro seriam canalizadores e eletricistas, muitos desvalorizaram. Na altura, a mudança parecia apenas uma brisa suave. Hoje, estamos perante as ondas gigantes da Nazaré — e continuamos a fingir que é apenas marola. Ironia: Daniela Braga, CEO da Defined.ai, esteve na Web Summit a dizer exatamente aquilo que Ford disse há 10 anos e, como andamos distraídos, ficou todo “o mundo” surpreendido. O futuro pertence a quem combina tecnologia com ação, execução e capacidade prática.
Perante este cenário, surge sempre a pergunta: “AI AI, o meu emprego?”. E a resposta não é nem alarmista nem ingénua. E aquela pergunta que muitos repetem: ‘Mas até os informáticos vão desaparecer’. Não. Calma, tal como em todas as profissões, o que vai desaparecer são os informáticos que não sabem comunicar, que não entendem negócios, que se refugiam apenas no código, que não colaboram, que não aprendem e que acreditam que a especialização isolada é um escudo profissional. O emprego continuará a existir, mas será diferente e só estará seguro para quem mudar com ele.
A exigência do futuro chama-se competências híbridas. Ser tecnicamente bom já não chega. Será preciso compreender estratégia, operações, processos, comportamento humano e até saber ligar o digital ao físico. E sim, até saber usar uma chave de fendas ou um martelo quando necessário. O profissional valioso será aquele que domina várias linguagens: a da tecnologia, a do negócio, a da comunicação e a da execução prática. A interdisciplinaridade deixa de ser diferencial e passa a ser condição.
É precisamente esta visão que desenvolvo no meu livro Bizgital Transformation: estamos apenas na superfície da transformação digital, pois o centro é a própria transformação dos negócios. Aquilo que assistimos hoje é apenas a fase inicial. O que aí vem é uma transformação profunda e radical dos modelos de negócio, da relação com clientes e do papel das pessoas dentro das organizações. Não é a tecnologia que revoluciona; é a integração inteligente entre tecnologia, estratégia e cultura. E isso exige um novo tipo de profissional: mais completo, mais curioso, mais adaptável e mais responsável.
Por isso, quando me perguntam “AI AI, o meu emprego?”, respondo sempre o mesmo: o seu emprego estará seguro, sim! Mas desde que compreenda que ele não será o mesmo. A IA não destrói trabalho; destrói preguiça. A curva não é descendente, é evolutiva e em formato exponencial. Não precisamos de competir com a IA, mas de evoluir com ela. Porque o futuro não será dos que têm medo; será dos que aceitam aprender, desaprender e voltar a aprender — quantas vezes forem necessárias.