Muito se tem falado dos conteúdos da disciplina de Cidadania, mas sempre distorcendo o que julgo ser a posição do governo no que toca à sua aplicação.

Vejo, ainda com enorme reserva, o tanto que se perora sobre o tema, na maioria das vezes com pessoas que não sabem o que é estar numa aula a dar esta disciplina, abrangendo faixas etárias entre os 10 e os 19 anos ou mais. Viver em bolhas partidárias e longe do terreno é fatal para a educação dos jovens.

Sabemos bem que a sociedade vê a escola como tendo a obrigação de educar os miúdos, já que os pais se demitem da função na maioria das vezes. Educar é difícil, exige coerência e exemplos…

A disciplina de Cidadania é, a meu ver, imperativa por isso, pois nela cabe uma panóplia de assuntos que são imprescindíveis ao crescimento dos jovens e à introdução de valores que amiúde não existem.

Evidentemente que é necessário ajustar os temas e a linguagem ao alvo, como se sabe, mas é urgente trabalhar também os valores. E não me venham dizer que isso é doutrinar, quando vemos alunos que acham que é normal ter relações sexuais com as irmãs, ou quando os alunos questionam o que fazer quando a namorada está grávida pela quarta vez no mesmo ano.

A disciplina de Cidadania é determinante para falar das questões sobre a sexualidade, mas sem o doutrinamento, até há pouco imposto, de que um rapaz não nasce rapaz e uma rapariga não é uma rapariga. Acabem com as construções culturais wokistas (“Pessoas cuja identidade ou expressão de género não coincide com o sexo atribuído no nascimento”), e deixem as crianças e os jovens em paz!

A legislação portuguesa permite a mudança de sexo no registo civil e a alteração do nome próprio, tanto para maiores como para menores (a partir dos 16 anos), o que é um erro e uma discriminação em relação aos restantes portugueses que o queiram fazer por outros motivos.

Estão estabelecidas quatro idades na vida: a infância vai do nascimento aos 11 anos de idade; a adolescência, dos 12 aos 20 anos; a fase adulta, dos 21 aos 65 anos; e a velhice, dos 65 anos em diante. Que maturidade tem uma pessoa de 16 anos para decidir esta mudança?

Insisto: a disciplina de Cidadania é imperativa e tem inúmeras vertentes para ser analisada e ajudar no desenvolvimento pessoal de novos e velhos: saber o que implica uma democracia e outros sistemas políticos, a Constituição, os deveres tantas vezes esquecidos, os diferentes aspectos éticos na família, no trabalho, no bairro, no prédio, nos transportes públicos, voluntariado, ecologia, diferentes religiões, sexualidade, assédio e tantos outros temas, que devem ser ajustados à idade dos alunos.

Será que podemos pensar, primeiro, no desenvolvimento pessoal de crianças e jovens em prol de uma sociedade mais capaz, em vez de fazer guerras partidárias com assuntos cujos protagonistas pouco sabem da realidade escolar pública?