“Refletir sobre o Portugal da próxima década. Que país teremos? Que país queremos? E que país podemos desenvolver?” O desafio lançado pelo Observador é gigante. Dada a minha formação, experiência profissional e também de vida, é natural que me debruce sobre o tema da produção agrícola e do papel da ciência e inovação.
Alimentar a população sem destruir a natureza, preservando a saúde (ou qualidade) do solo, a água e a biodiversidade, minimizando a libertação de carbono, garantindo uma produção sustentável é algo fundamental e, creio, reúne grande consenso. Mas é preciso perceber (e até certo ponto aceitar) que não existe produção com impacto zero, seja a produção agrícola ou quaisquer outras. Há sempre alguma interferência, se não no ambiente e na biodiversidade, pelo menos na paisagem natural. Por outro lado, importa lembrar que a sustentabilidade assenta (como mínimo) em três pilares: ambiental, económica e social.
Nos dias de hoje, a comunidade académica, científica, técnicos e produtores, estão conscientes da importância da utilização eficiente dos factores de produção, bem como da conservação da biodiversidade e dos ecossistemas e reconhecem que disso depende a sustentabilidade dos sistemas de produção alimentar. Produzir alimentos em quantidade e qualidade a preços acessíveis para todos, face aos desafios das alterações climáticas, que aumentam a escassez de água, a erosão dos solos e os fenómenos meteorológicos extremos, aliado à crescente instabilidade internacional, requer ações concertadas, sustentadas pela evidência científica, resultantes de um trabalho multidisciplinar e em co-construção.
Temos o dever de encontrar soluções win-win que contribuam para sistemas de produção agro-alimentares socialmente responsáveis, economicamente viáveis e ambientalmente sustentáveis. Agricultura sustentável significa respeitar e minimizar os impactos na biodiversidade e na paisagem, manter a saúde do solo, respeitar e racionalizar o uso da água, utilizar de forma eficiente todos os recursos, de forma socialmente justa e viável enquanto actividade económica. Implica resiliência e adaptação às consequências das alterações climáticas. A ciência têm desempenhado um importante papel ao contribuir para o desenvolvimento de tecnologias e soluções inovadoras. Sem entrar na polémica da produção extensiva versus intensiva, parece-me que o caminho passa por se conseguir uma intensificação sustentável da agricultura. Haverá sempre interesses e desafios diferentes que exigem compromissos, devendo o processo de decisão ser sustentado no conhecimento científico.
Estão a ser feitos progressos significativos, mas permanecem desafios no caminho para a transição para sistemas mais resilientes às alterações climáticas, adaptados às condições edafo-climáticas particulares de cada região, sustentáveis, competitivos e justos. Aumentar a resiliência, a produtividade e a rentabilidade dos sistemas de produção e cadeias de valor, proporcionando ao mesmo tempo benefícios ambientais e sociais, preservando a natureza, a paisagem e a vitalidade rural é exigente, complexo, multidisciplinar, transdisciplinar, e exige cooperação e confiança mútua entre académicos, investigadores, técnicos, agricultores, comunidades locais e decisores políticos. Acredito que estamos a trabalhar na direção certa!
Gostaria, e tenho esperança, que sejamos capazes de reter jovens capacitados (a geração mais qualificada de sempre), de aproveitar o conhecimento gerado e transmitido nos centros de investigação e instituições de ensino superior, para que o país contribuía de forma significativa para ultrapassar os desafios com que nos deparamos e se posicione no pelotão da frente no cumprimento dos ODS.
Gostaria que possamos garantir a segurança alimentar. A longo prazo, só com uma agricultura sustentável a segurança alimentar poderá ser mantida pois são duas faces da mesma moeda.
Gostaria que os investigadores tenham estabilidade nas suas carreiras, que a investigação multidisciplinar aplicada tenha financiamento estável e duradouro, incluindo por parte das empresas, e que se entenda que em agricultura o Tempo da investigação nem sempre é o Tempo das empresas!
Gostaria que se atenue a clivagem entre mundo rural e urbano e que a comunicação entre os agentes ligados à agricultura e ao ambiente seja mais fluente e produtiva, evitando o tudo ou nada; o branco ou o preto! Estamos perante questões complexas que não tem respostas simples ou únicas!
Gostaria que a colaboração e a partilha de conhecimentos e de competências entre os vários agentes e as várias instituições seja uma realidade.
O conhecimento, a tecnologia e a inovação, são fundamentais para a transição (verde, energética, digital) no sector agroalimentar. A Integração entre a agricultura, floresta e o ambiente e também a educação tem impacto na forma como a sociedade olha para estas questões. Acredito, seremos capazes de encontrar soluções que promovam a sustentabilidade da produção e respondam aos actuais problemas societais
Fátima Baptista é doutorada em Engenharia Rural pela Universidade de Évora, onde é professora catedrática no Departamento de Engenharia Rural. É diretora do Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento e membro do Clube dos 52, uma iniciativa no âmbito do décimo aniversário do Observador, na qual desafiamos 52 personalidades da sociedade portuguesa a refletir sobre o futuro de Portugal e o país que podemos ambicionar na próxima década.