Quarta-feira, dia 3 de Junho, houve greve geral. Mais uma. Mas talvez seja excessivo chamar-lhe “geral”, sobretudo quando nem a UGT aderiu à convocatória, considerando-a, num assomo de razoabilidade, “extemporânea”. E quando a própria adesão ficou pelos 23%, também não é possível saber quantos fizeram greve por convicção e quantos se limitaram a aproveitar a Quarta-feira como se fosse ponte.
Quem, definitivamente, não escolheu ir a banhos foram os Antifas. Para quem não sabe, Antifa é o acrónimo de “antifascista”. No plano da retórica, da estética política e da relação com a violência de rua, estes grupos estão para a extrema-esquerda como os grupos neonazis estão para a extrema-direita.
Não tomo o leitor por incauto. Mas, dado o continuado branqueamento que as redacções dos meios de comunicação tradicionais fazem destes grupos violentos, é natural que ainda haja quem se sinta perdido. A violência de extrema-direita merece vigilância. O problema é que a violência de extrema-esquerda parece beneficiar de uma espécie de indulgência prévia. Uns são tratados como ameaça à democracia. Outros como jovens exaltados, activistas excessivos ou manifestantes mais impacientes. É um erro que pode custar vidas.
Ainda há pouco tempo, na Marcha pela Vida, em Lisboa, um homem suspeito de pertencer a estes grupos lançou um cocktail molotov na direcção de famílias, bebés e pessoas mais velhas. Foi depois noticiado que era militante do Partido Socialista. O primeiro comunicado saído da Agência Lusa sobre o caso foi, aliás, mais um exemplo desta linguagem de ocultação. O leitor menos atento ficava com a sensação de que o explosivo teria ido ali parar por qualquer acaso meteorológico. Ficava, até, sem perceber que tinha sido, de facto, um explosivo a ser arremessado.
Ora, na dita “greve geral” da passada Quarta-feira, eis que surgiram novamente os tais grupos de extrema-esquerda. Para quem os conhece, o folclore era o de sempre: máscaras a tapar a cara, megafones com o símbolo do anarquismo, inscrições como “Sempre a desobedecer”, estandartes com a efígie de Otelo Saraiva de Carvalho legendadas como código alfanumérico 1312 (All Cops Are Bastards) e, claro, o proverbial lenço keffiyeh. Tal como o seu contraponto ideológico, com cabeças rapadas, cruzes celtas e o 88 (HH, Heil Hitler), estes grupos são ricos em imaginário.
E então surgiram os desacatos. Segundo foi noticiado, a Polícia afirmou terem sido lançadas garrafas, pedras e engenhos pirotécnicos contra os agentes, tendo sido ainda incendiados vários caixotes do lixo nas imediações do Parlamento. Resta saber, em cada caso, o que esconde o eufemismo “engenhos pirotécnicos”: se uma bombinha de Carnaval, se uma garrafa com gasolina e um trapo no gargalo.
O local foi exactamente o mesmo do ataque ocorrido a 21 de Março, durante a Marcha pela Vida: o Largo de São Bento, em frente à Assembleia da República. Não é por acaso. Para estes grupos, “fascista” não significa apenas os seis ou sete saudosistas da Itália de 1930. “Fascista” é, na prática, toda e qualquer forma de organização institucional que represente autoridade, ordem ou limite. Nesse sentido, os seus principais adversários nem sequer são os neonazis. São as forças de segurança.
O superintendente Jorge Resende, da PSP, explicou muito bem o que se passou. Segundo o responsável, houve um aviso de que a manifestação se tinha tornado violenta e teria, por isso, de cessar. Foram dados cinco minutos para dispersar. Depois, novo aviso. Mais três minutos. Novo aviso. A Polícia tentou, por várias vezes, que as pessoas abandonassem o local e cessassem o comportamento violento. Só depois, e sem carga policial, os agentes avançaram a passo, pedindo calmamente que saíssem.
Ainda assim, algumas pessoas reagiram fisicamente contra polícias em actuação legítima. Outras arremessaram garrafas e puseram em causa a sua integridade física. O resultado foi a detenção de seis pessoas.
Perante isto, é porventura complexo compreender a prudência excessiva do ministro da Administração Interna, Luís Neves, quando afirma que não existe nenhum documento fundamentado, quer na União Europeia quer nas Nações Unidas, que permita tipificar o movimento Antifa como uma estrutura terrorista internacional. A frase pode até estar tecnicamente certa. Politicamente é insuficiente.
A questão não é saber se existe uma estrutura internacional formal que sustente estes grupos. É saber se existe, em Portugal e na Europa, um ecossistema político radical que normaliza a violência contra a Polícia, contra adversários ideológicos e contra instituições democráticas. E, sobre isso, não pode haver equívocos.
Também por isso surpreende que, esta semana, falando na Sic Notícias sobre a prevenção dos fogos de Verão, o Ministro não tenha aproveitado a ocasião para deixar uma palavra clara de apoio às forças de segurança e de reprovação dos acontecimentos de Quarta-feira. Que a SIC não o questione sobre o assunto, compreende-se. Que o Ministro da Administração Interna não tenha tido o sentido de oportunidade, compreende-se menos.
O sentimento de impunidade destes grupos explica-se, assim, pela retracção dos nossos representantes e pela cultura política que se habituou dividir as polarizações entre bom e mau radicalismo. De um lado, os rebeldes bem-intencionados, gente torta mas com bom coração. Do outro, os dissidentes malvados, gente de costas direitas, mas com coração torto. Enquanto esta distinção de ordem moral continuar a minar o debate, continuaremos a desculpar uma violência de rua que faz lembrar os piores instintos da Primeira República.
Não tem de ser assim. Basta dizer o óbvio: quem ataca a polícia, ataca a autoridade democrática do Estado, logo ataca todo e cada um dos cidadãos que contribuem com os seus impostos. Quem transforma a rua em campo de intimidação e tenta destruir a ordem não está a defender a liberdade. E quem acha que “All Cops Are Bastards” talvez devesse experimentar viver num país onde a polícia desapareceu mesmo.