Nos últimos anos, em muitas escolas portuguesas, tornou-se visível uma realidade que não pode ser ignorada: há turmas em que os alunos não se comportam de forma adequada, perturbam constantemente as aulas e criam um ambiente onde aprender se torna quase impossível. O professor inicia a aula, mas os alunos ignoram.

Professor: “Abram o caderno, vamos começar…”

Alunos: “Não percebo.”

Professor: “Este é o enunciado do exercício. Passem a resolução para o caderno para eu explicar outra vez.”

Alunos: “Não vou passar enquanto não perceber.”

Professor: “Vamos ler o exemplo do livro.”

Alunos: “O professor não está a explicar.”

Este diálogo mostra que, muitas vezes, não existe vontade de aprender, mas sim de boicotar o processo.

Na sala dos professores, o sentimento é de desgaste. Pressionados e muitas vezes desautorizados, muitos acabam por se afastar por baixa médica. Nem sempre são substituídos, devido à falta de docentes em Portugal, e o resultado é devastador: alunos que concluem o 3.º ciclo ou mesmo o ensino secundário sem terem aprendido os conteúdos programáticos e, pior ainda, sem terem adquirido conhecimento real.

Este fenómeno não é apenas um problema da escola, mas um problema social. Quando a escola deixa de cumprir a sua função de ensinar e avaliar, está a hipotecar o futuro de uma geração. Entregam-se certificados sem conhecimento, transmite-se a ideia de que disciplina e esforço não são necessários e que a passagem de ano é garantida.

As famílias com mais recursos recorrem a explicações particulares, mas as mais desfavorecidas , que dependem da escola, são as que mais sofrem. Perdem professores, desmotivados; perdem alunos, sem bases sólidas; perdem pais, que acreditam que reclamar contra os processos ou exigir aulas “mais interessantes” resolve o problema, quando na realidade fragilizam ainda mais a autoridade da escola; perde a sociedade, privada de cidadãos preparados e críticos.

Para alguns encarregados de educação, a escola tem de fazer o trabalho todo e, aos 18 anos, o aluno sai da escola secundária para ir para a universidade ou para o mercado de trabalho. Ora, na escola não se educa, mas alguns consideram que a escola cria o conceito de aluno “chave na mão”.

Quando os encarregados de educação dizem:

“As aulas têm de ser mais interessantes.”

“Os alunos não gostam do processo de ensino-aprendizagem.”

Estas frases revelam uma visão perigosa: a escola passa a ser tratada como espetáculo, o professor como animador e o aluno como cliente. Mas a escola é um espaço de aprendizagem, o professor é mediador de conhecimento e o aluno é protagonista do seu percurso.

E quando a conversa se resume a: “Qual é a nota que quer para o seu filho?” fica evidente que a avaliação deixou de ser vista como resultado de esforço e aprendizagem, passando a ser tratada como mera negociação.

Estudar custa. Se não custasse, seríamos todos doutores.

Se nada mudar, hipotecamos o futuro de uma geração inteira. E todos, os  alunos, professores, as famílias e sociedade perdem.