Caiu o Carmo e a Trindade para a visão (?) do mundo do Senhor Dr. André Ventura quando o Presidente de Angola disse uns disparates para a Esquerda celebrar, querendo o primeiro que Portugal rasgasse as vestes e fizesse de viúva ofendida
Eu só me entristeci.
Já sou velho suficiente para ter acreditado – vejam lá a estupidez e inocência! – que Portugal poderia, situado naqueles tão distantes cinquenta e tal anos, ser uma Nação pluricontinental do Minho a Timor. Hoje já posso dizer este disparate porque só passo por tontinho que ao primeiro tabefe tenho logo lugar garantido no Alto de São João ou nos Prazeres.
Conheci Moçambique, nunca estive em Angola. Mas existe em relação a este último País um sentimento especial em Portugal. Como quase todo os portugueses, tive parentes lá corridos rapidamente em 1974/75. Falei com muitos militares que lá fizeram a guerra, que, em 1974, era reconhecidamente já apenas uma acção policial, a região da Unita pacificada por acordos e o resto dos movimentos digladiando-se internamente em lutas fraticidas. Li e vi muitíssimo.
Angola em 1974 estava pujante e bem administrada. Já existia uma burguesia local, branca e negra note-se, que poderia servir para a construção de um País maravilhoso.
Essa verdade, não pode ser contada, pelos vistos. Era bom, contudo, que o nosso Presidente Marcelo desse, pedagogicamente, esse mote.
Porque da Angola que existiu (e existe parcialmente) muito tem Portugal de se orgulhar.
Tantos anos passados seria bom pôr de lado – tanto do lado de Angola parando com discursos que, no fim, são ridículos, como do mainstream de Portugal buscando sempre um pensamento anti-fascista sem verdade histórica, nem consistência, talvez mais ridículo ainda – as lendas negras do passado e ambos os Países buscassem racionalmente e ignorando ideologias todas elas mais ou menos cavernícolas, um bem-estar sólido e com esperança no futuro, que me parece ambas as nações anseiam.
Olhar para as coisas como elas são, vendo que quem nos precedeu era gente como nós, como os mesmos defeitos e qualidades, agindo com o que pensavam, na altura, ser certo.
O Presidente João Lourenço, que me parece um homem sensato e inteligente, certamente sabe que, há quinhentos anos, África era uma amálgama de povos próxima do Neolítico, não estando certamente no século de Péricles…
A sua própria presença naquela tribuna, naquela cidade, naquele País, com os atributos ocidentalizados que mostrava de tropas fardadas, de aviões, de recepções, é a negação de tudo o que dizia.
É preciso que se diga, preto no branco, que a civilização que hoje temos e que todos os Países vão culturalmente absorvendo, resulta de uma visão, que partindo certamente da moca de pedra, soube. na construção ocidental, discutir-se, transformar-se, lutando para pôr o homem e o seu bem-estar no centro da atenção e do pensamento.
Essa herança é o bem mais precioso que devia, a nós europeus, encher de orgulho, e possuir-nos a alma, fazendo-nos acreditar que vale a pena mesmo até morrer por aquela.