Atualmente, a proliferação de cartazes e outdoors políticos nas cidades e municípios de Portugal tem sido alvo de críticas constantes por parte dos habitantes. A poluição visual tornou-se um problema real, e locais de visita icónicos ficaram mais confusos de navegar. Exemplos claros são o Marquês de Pombal, em Lisboa, e a zona da Boavista, no Porto, onde áreas verdes se encheram rapidamente de outdoors com promessas e slogans, tornando a beleza destes marcos quase impossível de captar.
Alguns dirão que o aumento deste tipo de comunicação é um reflexo de eleições autárquicas mais renhidas. Eu vejo-o, no entanto, como o sintoma de uma comunicação política gravemente atrasada. Passo a explicar: vivemos em 2025, uma era marcada pelo uso generalizado e transversal de plataformas digitais, e, mesmo assim, os políticos portugueses parecem incapazes de o aproveitar de forma eficaz. Não falo dos líderes parlamentares ou das figuras de topo de cada força política, mas sim dos candidatos às autárquicas.
Por norma, estes candidatos apostam algum esforço na comunicação digital como entrevistas em podcasts, meios online e, nos melhores casos, presença em plataformas como o Instagram. Mas não chega. Persiste uma enorme incapacidade do político autárquico em conectar-se com o munícipe. A comunicação continua rígida, institucional e pouco genuína. Fotografias demasiado planeadas, respostas combinadas e um contacto fraco com as diversas camadas sociais das cidades onde pretendem exercer funções.
Portugal tem muito a aprender. Existem políticos em todo o mundo que usam as redes sociais com eficácia e autenticidade. Mas é de louvar quem em Portugal ainda o tenta fazer. Por puro acaso, num dia qualquer, tropecei num perfil político que me prendeu a atenção, a mim, membro da Geração Z. Descobri que se tratava da antiga ministra do Trabalho, Ana Mendes Godinho, candidata à presidência da Câmara de Sintra. Este artigo é apartidário, mas algo no perfil chamou a atenção: um conteúdo inesperado, autêntico, sem receio de fugir ao habitual. O mais formal? Talvez não. Mas conseguiu captar a minha atenção e, convenhamos, isso não é fácil de conquistar hoje em dia. Talvez valha a pena, às vezes, deixar um pouco da rigidez de lado.
Não estou a dizer que estamos perante um perfil digital digno de Zohran Mamdani, candidato democrata à presidência da Câmara de Nova Iorque, que com ajuda das redes sociais conquistou um número colossal de apoiantes. Mas os políticos portugueses, sobretudo os autarcas, ainda não sabem aliar a comunicação das suas medidas a conteúdo coeso e apelativo. Acabam frequentemente ridicularizados pela falta de sensibilidade na forma como comunicam com a população que representam.
Continuamos num país onde muitos candidatos acreditam que multiplicar cartazes lhes dará notoriedade e reconhecimento. Talvez funcione para os apoiantes de uma especifica faixa etária. Mas serão mesmo precisos tantos?
A campanha autárquica deste ano tem revelado, mais uma vez, como Portugal continua a falhar na comunicação política. Há candidatos a grandes cidades que apresentam estratégias digitais pobres, continuando a apostar numa comunicação tradicional. Mas a pergunta é inevitável: não passamos hoje muito mais tempo a olhar para o telemóvel do que para cartazes na rua? Não deveriam os candidatos às câmaras de Lisboa, Porto e outras cidades surgir mais vezes nas timelines dos eleitores? Onde está a estratégia?
O mínimo seria vermos conteúdos no estilo de Zohran Mamdani. Mas, mesmo sem grandes orçamentos ou profundo conhecimento digital, conteúdos simples, focados nas medidas e carregados de autenticidade poderiam melhorar e até salvar resultados eleitorais em outubro para muitos candidatos autárquicos.
Deixo, por isso, um apelo claro aos políticos deste país: priorizem mais orçamento para as equipas digitais. Os portugueses estão cada vez mais sensíveis a uma comunicação mais moderna, principalmente os jovens, e já não se revêm em campanhas limitadas a cartazes e flyers.