Nos últimos anos, assistimos ao aparecimento galopante de uma obsessão pelo culto do bem-estar e da aparência física, mas não terá esta mudança repentina na vida de muitos jovens uma razão mais complexa do que simplesmente um interesse súbito pela sua saúde?
Recentemente, os jornalistas Kevin Truong e Rya Jetha escreveram para o The San Francisco Standard acerca do famoso festival Burning Man e da mudança que o seu público-alvo sofreu nos últimos anos. Do artigo retira-se um insight muito importante: a cultura mudou e os jovens fundadores de Silicon Valley regem-se por um diferente código de conduta, segundo o qual “a vibe atual é: não beber, não consumir drogas, 9-9-6 [trabalhar das 9h às 21h, seis dias por semana], fazer musculação, correr longas distâncias, casar cedo, monitorizar o sono, comer bife e ovos.”
Este fenómeno quebrou a bolha de Silicon Valley e chegou até à grande maioria dos jovens, entre os 18 e os 30 anos. Agora vivemos numa era em que, no pós-pandemia, a cultura da “manosfera” e do “looksmaxxing” se tornou mainstream e se espalhou por todos os recantos das redes sociais à boleia do algoritmo. Os jovens querem ser ricos, perfeitos, desejados, bem-sucedidos e, acima de tudo, aceites por uma sociedade cada vez mais conservadora.
Não é por acaso que estamos todos obcecados com creatina, levantar pesos, correr às 5 da manhã, parecer musculados ou partilhar quantos quilómetros fizemos na corrida ao final do dia. Até aqueles menos suscetíveis à massificação do culto do bem-estar têm-se tornado em pessoas mais permeáveis à prática do exercício físico, não só por quererem ser mais saudáveis, mas também por procurarem ser mais aceites e mais desejáveis.
Outra das razões para a massificação de iniciativas ligadas a este mundo vem de uma enorme necessidade de criar comunidade depois da destruição de espaços adequados para esse fim durante a pandemia. Os jovens sentem uma necessidade gigante de abandonar o isolamento a que se habituaram e querem criar relações. Na ausência de espaços noturnos interessantes e com o aumento da cultura direcionada para o sucesso profissional e monetário, os run clubs são quase como salas de networking na Web Summit. São espaços onde talvez possam ver o vosso vizinho interessante do 6.º Direito, mas também o vosso patrão, isto com o benefício de nenhum de vocês estar em condições, digamos, menos apresentáveis.
Contudo, estes eventos têm tudo para deixar qualquer transeunte de fora, algo confuso. Os run clubs organizam-se muitas vezes em aglomerado e, dependendo da afluência, prometem disrupção, música eletrônica e colaborações com as mais variadas marcas em forma de publicidade. Com o crescimento destes eventos surgem outros problemas. Segundo o Expresso, o circuito mundial de corrida tem agora um custo total de nove mil euros, tendo crescido absurdamente nos últimos anos para valores proibitivos. Com estas notícias, vemos a clara mercantilização do novo hype em volta da prática do exercício físico e começamos a perceber que talvez o fenómeno tenha ido longe demais.
A questão que se coloca é a seguinte: será que os jovens fazem tudo isto para se sentirem mais saudáveis, para encontrarem um espaço onde se consigam relacionar ou para se sentirem mais desejáveis? É difícil decifrar. Mas algo é garantido: nunca senti que a minha geração fosse tão pressionada como agora para ser saudável ou para ter o corpo desejável. Tudo começou com vídeos de exercício da Chloe Ting em casa na pandemia e agora há realmente jovens a procurar quais os peptídeos certos para “ficar grande” ou a participar em raves matinais pós-corrida. Uma breve pesquisa no TikTok e o conteúdo sobre é infindável.
Mas, afinal, estes eventos não são apenas uma má ideia e não podemos classificá-los como algo mau. Aliás, são uma ótima forma de criar comunidade, com mais luz do dia e em espaços menos dúbios. Porém, devem ser um complemento. O conceito de um destes eventos deve ser mais sobre comunidade do que sobre obrigação, performance ou prática física imposta. Ninguém quer sentir que está a fazer a fatídica milha na aula de Educação Física, que está a substituir a típica saída à noite com os amigos ou, até, que tudo aquilo que está a fazer parte do simples intuito de postar nas redes sociais.
Devem existir espaços para tudo. A palavra na ordem do dia é moderação.
Tu podes ir correr e ir ao ginásio, mas também não tem mal nenhum ficares um sábado até às 6 da manhã para ver o nascer do sol do terraço do Lux. Não é por acaso que começamos a verificar uma crescente exclusão da vida noturna do cotidiano dos jovens, o que acaba por levar a uma crise maior de espaços para simplesmente conviver.
O importante a reter é: divirtam-se. Não sintam obrigação de correr ou de beber até cair, mas façam escolhas em função do vosso gosto e não por pressão social. Não podemos viver em função de uma história do Instagram. Menos Strava e mais convívio. Afinal, nem todos podemos ser musas do fitness.