De mortuis nihil nisi bonum – «dos mortos não se diga senão bem» – é a versão latina de uma frase atribuída a Quilão de Esparta, um dos Sete Sábios da Grécia, por Diógenes Laércio, na sua Vida e Opiniões dos Filósofos Ilustres. E parece ter sido a ofensa desse princípio de sensatez, piedade e respeito que levou a ilustre oligarquia partidária que nos rege a rasgar em uníssono vestes e mantos, escandalizada pelo discurso de André Ventura no momento em que se celebrava, em sessão parlamentar solene, a passagem do centenário do nascimento de Mário Soares.

É verdade que a esquerda radical, da festiva à comunista, nunca observou com rigor o princípio enunciado pelo sábio espartano. Desde que os partisans resolveram pendurar Mussolini de cabeça para baixo, juntamente com o «vermelho» Bombacci e outros proclamados traidores à sua causa, que cadáveres e túmulos parecem não ser barreira suficiente para refrear ímpetos justiceiros, cheios de certezas e amor à humanidade. Ainda há pouco tempo, por ocasião da alegria incontida que invadiu o país na celebração dos 50 anos do 25 de Abril, um artista rebelde, do alto da sua coragem e ousadia, resolveu fazer um originalíssimo protesto contra o fascismo e o colonialismo que, incorrigíveis, ainda dominam a sociedade portuguesa, para isso incomodando o eterno descanso do Doutor Salazar na pacatez do Vimieiro. Pequenas moléstias, perdoáveis decerto, para tão elevadas intenções. Mas da direita, sempre insensível à «beleza de matar fascistas» e a génios artísticos deste rasgo, espera-se que se mantenha institucional, contida e respeitadora. E também que seja bem educada, não cedendo a paixões profanadoras de mortos e suas memórias.

Ora, terá sido a estas paixões que, dizem todos, se entregou a «extrema-direita», odiosa e ressentida, quando resolveu quebrar a unanimidade bocejante dos encómios que, naquela sessão solene, desfilavam pela assembleia. Até então, sem aparentemente darem conta do paradoxo, os deputados entregavam-se consensualmente à conclusão de que Mário Soares não gostava de ser consensual. Para os socialistas, num arrojo momentâneo que a emotiva ocasião justifica, Soares estava certo em tudo. Para os comunistas, era inevitável censurar pesarosamente, malgrado tudo, o carácter negativo do papel reaccionário desempenhado aquando da «contra-revolução». Entre os demais deputados, encarregados dos elogios, lembravam-se as imperfeições do humano e os erros do político, mas concluindo todos que, tudo somado, o balanço era muito positivo. A tal direita bem educada, de quem se espera que tenha maneiras e saiba comer à mesa do sistema, agarrava-se à lembrança do 25 de Novembro e à jornada em que, quando já tudo se perdera, o país foi poupado ao martírio post mortem de uma ditadura comunista. No romance Novembro de Jaime Nogueira Pinto, há um momento final em que, no fim do dia, alguém exclama «Vencemos». «Perdemos todos» – foi a resposta que obteve, e que a oligarquia partidária, enclausurada sobre si, teima em não escutar.

Enfim, o sistema autocelebrava-se, aproveitando para isso a memória do seu principal fundador. Foi então que André Ventura lembrou o homem atrás da máscara, os instintos venais por debaixo da magnanimidade vaidosa, a irascibilidade coberta pela bonomia e as fraquezas escondidas pela frontalidade e coragem. Muitos tinham-no feito antes dele. Muitos tinham já lembrado que a simpatia presidencial de Soares fora uma aquisição tardia, conquistada no tempo em que os socialistas – para usar a expressão de Rui Mateus no livro, misteriosamente desaparecido, Contos Proibidos: memórias de um PS desconhecido –, além do socialismo na gaveta, meteram no congelador a «consciência moral» que Salgado Zenha achava representar. Mas fazê-lo numa sessão solene evocativa do centenário do nascimento de Soares foi, para os partidos do sistema, uma espécie de profanação. Ao escandalizarem-se e invocarem o respeito pela memória da pessoa, tentam afinal apenas reivindicar para si uma consideração que negam aos outros e não fazem nem fizeram por merecer. Dir-se-ia que, em nome do princípio enunciado por Quilão de Esparta, tudo o que passou passou e deve ficar no passado. É bem verdade. Mas o que não passou é, afinal, um sistema viciado em autocelebrar-se encenando memórias, fabricando-as pela propaganda e apagando as experiências pessoais de tantos portugueses, menosprezadas e condenadas à indiferença e invisibilidade.

A história não é unilateral e tem tanto de farsa quanto de tragédia. A chamada descolonização, imposta violentamente há 50 anos a portugueses europeus e africanos, teve das duas em igual medida. Soares tentou primeiro celebrá-la e deixá-la na história como uma «descolonização exemplar». Perante a resistência dos factos à propaganda, ficou-se pela «descolonização possível», que é hoje a «versão oficial» do sistema. Sobre as outras várias possibilidades não faltam, no entanto, testemunhos incómodos. O caminho trilhado – caminho desejado, escolhido e imposto pelos dirigentes políticos de então – ficou marcado pela frase atribuída a Soares, muitas vezes desmentida, de que aos portugueses de África era «atirá-los aos tubarões». Tenha-o ou não dito, foi o que foi feito pelos então novos governantes a centenas de milhares de portugueses africanos, brancos e negros, cujo mundo pereceu, traído, desprezado e votado ao abandono por quem tinha obrigação de protegê-lo. Dizer que essa traição foi inevitável, e relegá-la a mero detalhe irrelevante por comparação com a alegria gerada pela democracia nascente, é um insulto à vida, à morte e à memória dessas pessoas. É-o também a um Portugal que morreu. Ao suicidar-se em 1954, o Presidente brasileiro Getúlio Vargas deixou como testamento uma carta em que se lia: «Saio da vida para entrar na História». Seria bom que os partidos do sistema não se escandalizassem tanto, quando, numa sessão solene evocativa da sua memória, alguém, em vez de celebrar o próprio sistema à sua custa, ousasse verdadeiramente recordar o homem e o seu legado. Um legado que simboliza o momento em que Portugal, num suicídio inverso ao de Vargas, deixou a História para apenas conservar a vida.