Em Auschwitz há um pátio entre dois edifícios onde eram fuzilados prisioneiros. As janelas dos edifícios que dão para o pátio estavam (ainda estão) entaipadas, para que quem aí trabalhava não fosse perturbado pela visão dos condenados. E a parede do fundo, onde eram encostados os prisioneiros, está revestida por placas de cortiça: para que as balas não fizessem ricochete no muro e não houvesse o risco de atingirem os guardas.

As câmaras de gás de Auschwitz I estão disfarçadas por baixo de uma pequena colina coberta de relva: as chaminés por onde era lançado o gás Zyklon-B podiam ser pequenos cogumelos de uma história de Hansel e Gretel. A colina delimita uma álea que conduz à casa onde vivia com a família o comandante do campo. Dentro da câmara há sulcos de unhas nas paredes de cimento.

No meu grupo havia um casal jovem, alemão. Em Birkenau vi a mulher chorar.

Birkenau é sobretudo grande: uma imensa planície percorrida pelos carris. A planície está cheia de bases rectangulares em cimento: sobre essas bases erguiam-se as camaratas construídas de madeira: dezenas e dezenas e dezenas. Ao fundo eram as câmaras de gás e os fornos. Só restam ruínas: os nazis destruíram-nas à bomba antes de fugirem. Não foram reconstruídas porque isso obrigaria a substituir as pedras. E as pedras — aquelas pedras estão impregnadas de suor e agonia. Em volta hoje há um bosque e um estreito lago: era aí que lançavam as cinzas.

Em Auschwitz as palavras estão reduzidas ao mínimo: instruções breves sobre onde ir e como, datas, factos, onde não mexer, onde não tirar fotografias. Há só dois lugares onde não é permitido tirar fotografias: a sala dos cabelos e a cave onde eram metidos os prisioneiros que, como o Padre Kolbe, eram deixados a morrer à fome.

Os guias sabem que desempenham uma tarefa moral.

Em Auschwitz senti vergonha e solidão. Não há vergonha partilhada.

Senti medo. Auschwitz é igual àquele minuto que, nos filmes, antecede. Tem a mesma qualidade suspensa, a mesma imobilidade, a mesma normalidade desse minuto.

É preciso ir a Auschwitz porque Auschwitz não se diz.

No meu grupo havia uns pais com uma pequenina, uma menina com 4 ou 5 anos, que aproveitava os bocados em que estávamos ao ar livre para brincar. Em Birkenau vi-a caminhar pelos carris, como um equilibrista no seu arame. Tinha um vestido cor-de-rosa. Gostei de vê-la brincar. Ela era a vingança dos que morreram, a derrota inapelável dos carrascos.