É claro que a prisão de uma juíza do Wisconsin pelo FBI, por supostamente ajudar um imigrante ilegal, faz manchetes maiores do que meia dúzia de cartas enviadas a revistas científicas pelo District Attorney (procurador distrital) de Columbia (o distrito federal). Mas o caso do procurador não é menos grave nem menos prenhe de consequências funestas do que o caso da juíza. Diversas revistas médicas receberam em abril último uma carta enviada pelo procurador do distrito de Columbia, Edward R. Martin Jr., onde era posta em causa a idoneidade editorial dessas publicações, acusadas de “tomarem posição em diversos debates científicos” para corresponder aos interesses de patrocinadores e anunciantes. Acrescentava o procurador que “o público tem certas expectativas” e que elas, as revistas, tinham “certas responsabilidades”. Exigia, enfim, saber se as revistas aceitavam artigos “com perspectivas diferentes”.
Uma das revistas foi a New England Journal of Medicine, que é publicada em Boston desde 1812. A NEJM considera-se, com orgulho e razão, um pilar das ciências médicas. Entre os milhares de artigos que publicou ao longo dos últimos duzentos anos, contam-se preciosidades como a primeira descrição do éter como anestésico — foi o primeiro anestésico (1846) ou um relatório sobre os primeiros tratamentos da leucémia infantil (1948). A NEJM, tal como as outras revistas visadas pelo procurador, respondeu o que era de esperar: que o seu compromisso é com os padrões editoriais comuns a toda a comunidade científica. Isso inclui, entre outras coisas, a revisão por pares (peer review), um método introduzido no século XVII por Isaac Newton (então ‘chairman’ da Royal Society), precisamente para evitar, na medida do humanamente possível, faltas de rigor e exigência nos trabalhos apresentados.
A responsabilidade de uma revista científica é com o cumprimento das regras de argumentação do debate científico. Não é corresponder às “expectativas” do “público”. A ciência não é democrática, nem é cool. A teoria da relatividade de Einstein, por exemplo, não começou por ser uma história engraçada sobre relógios e viagens espaciais. Começou por ser aquilo que ainda é: uma fórmula matemática. Em ciência, tal como nos negócios, o que interessa são os números. Ou não fosse a ciência moderna uma construção da burguesia comercial emergente no século XVII. O procurador de Columbia, contudo, não parece pensar assim. Parece esperar que a ciência alinhe no jogo geral da “liberdade de expressão”, em que cada um pode dizer o que lhe apetece, instituindo se quiser as suas próprias regras. Mas isso não é ciência. É outra coisa qualquer, religião, filosofia, política ou arte – ciência é que não.
O procurador do distrito federal, Edward R. Martin Jr., é advogado, republicano e católico. É geralmente apresentado como activista radical do movimento pró-vida, mas o seu percurso não parece ser muito diferente do de outros católicos. Estudou numa escola católica. Foi assessor para os direitos humanos na arquidiocese de S. Louis. Entrou na política e foi candidato derrotado em diversas eleições no Missouri, o seu estado natal. A defesa militante que fez sempre dos valores católicos é tão legítima como a defesa que outros fazem dos valores liberais. Mas uma coisa é defender activamente valores em que se acredita e outra, bem diferente, é, enquanto parte do governo, interferir nas acções de organizações independentes. A Society for the Rule of Law, uma organização conservadora que promove o Estado de Direito, já pediu uma investigação a Martin por este ter, desde que tomou posse como procurador em fevereiro último, tomado uma série de acções que, no entendimento da sociedade, demonstram “um mau entendimento fundamental do papel de um procurador federal”.
Não quero entrar no estafado debate sobre a existência ou inexistência de uma verdade racional, da qual a ciência seria o infalível apontador. A própria Igreja Católica, que durante muito tempo alimentou relações tensas com a comunidade científica, já separou as águas. Há posições claras sobre o assunto, tanto do papa João Paulo II como do papa Bento XVI. O problema da carta de Edward R. Martin Jr. não é moral, é jurisprudencial. O procurador do distrito federal tentou interferir na política editorial de publicações independentes. A interferência política é sempre feita em nome de alguma coisa. Em nome da raça, em nome da moral, em nome da decência, em nome da eficácia. Mas é sempre interferência e é sempre interferência política. O pecado do procurador do distrito federal, Edward R. Martin Jr., não é não gostar das revistas médicas. É que, a partir da sua posição no Estado, tente pressionar entidades independentes a seguirem orientações mais do agrado do governo.
Nota: depois de escrever isto, saiu a notícia de que a administração Trump retirou a nomeação do procurador Edward R. Martin. Alguns senadores republicanos recusaram a sua confirmação.