Há tempos fui criticado por usar o termo “negacionistas” para designar os opositores das vacinas, porque o termo já encerraria em si um juízo de valor. A minha ideia, ao utilizar o termo, não era fazer condenações a priori – era utilizar uma velha estratégia retórica, que consiste em reapropriar para a linguagem comum termos usados pejorativamente. Como atitude, é a antítese da vitimização e isso agrada-me. Mas é verdade que posso utilizar um termo mais neutro: “objectores”. É um bom termo porque remete para objecção argumentativa, que é sempre uma boa atitude quando se debate. Além disso, traz consigo a memória histórica da “objecção de consciência”, cuja origem foi, de resto, um episódio de resistência às vacinas. Nada mais adequado, portanto.
O episódio conta-se depressa. Desde 1840 que uma lei do parlamento garantia vacinação gratuita aos pobres. Em 1853, uma nova lei tornou a vacinação obrigatória para todas crianças nos primeiros três meses de vida, sob pena de multa e mesmo prisão para os pais que o não fizessem. Os protestos começaram imediatamente, com tumultos graves em várias cidades. Nesse mesmo ano foi fundada a Liga anti-Vacinação, depois Liga anti-Vacinação Obrigatória. No seu manifesto inicial, declarava-se: “É dever inalienável do parlamento proteger os direitos do homem. Através das leis da vacina, que ofendem o direito dos pais a proteger os seus filhos da doença, o parlamento negou a sua função.” Era a violação das liberdades civis que era condenada e não este ou aquele aspecto da vacina. O que era contestado era o paternalismo (“o pior dos despotismos”, dizia Kant) do governo.
Os autores daquelas leis eram muito provavelmente positivistas. Auguste Comte, o pai do positivismo, perguntava-se porque se haveria de permitir o livre pensamento em moral ou política, se ele não era permitido na química ou na biologia. “De facto, porquê?” interrogava-se Isaiah Berlin com alguma ironia. “Porque é que alguma conduta deve ser tolerada se não for autorizada pelos peritos apropriados?” Os peritos são aquelas pessoas que defendem que existe, em princípio, uma resposta correcta para cada problema e que isso se aplica, não só à técnica e à ciência, mas à própria vida. Era isso que Comte defendia e foi isso que os primeiros triunfos da engenharia e da ciência médica, no século 19, pareceram confirmar. Sabemos a que desastres essa ideia conduziu no século 20. Na verdade, mesmo os progressistas militantes, como a filósofa americana de esquerda Susan Neiman, admitem que a “conotação normativa“ do “conceito de progresso” – isto é, a ideia, tão antiga como Platão, de que os sensatos podem e devem forçar os insensatos a seguir a política correcta – pode ser “desconfortável”.
Mesmo admitindo que pudesse haver uma resposta correcta para cada problema, porque é que é um erro impôr a nossa ideia do que seja essa resposta? Porque é que devemos tolerar o erro dos insensatos? Em primeiro lugar, porque podem estar certos. Em segundo lugar, porque a certeza é uma forma de arrogância e a arrogância é perigosa: além de ser um pecado mortal, cega-nos para a realidade. Reexaminar as verdades estabelecidas nunca fez mal a ninguém. Aquilo que se deve pedir aos objectores não é que não objectem, mas que o façam com argumentos objectivos e verificáveis. À ciência, por seu lado, deve pedir-se humildade. A ciência não pode dizer às pessoas que objectivos devem ter e que preço devem estar dispostas a pagar por eles. Isso depende de valores e os valores não são matéria científica. Por exemplo, não me interessa nada o que os técnicos têm a dizer sobre a eutanásia. A eutanásia é um problema político, que toca directamente nos meus valores e na minha visão de vida.
Chamar negacionista a alguém, como chamar fascista ou pedreiro-livre, serve para afastar e silenciar quem nos incomoda, e para nos confortar e justificar. É aborrecido ter de aturar quem pensa de maneira diferente de nós. Mas vamos fazer um exercício ao contrário: vamos chamar objectores aos negacionistas e vamos ouvir as objecções deles. Quem são eles? O que querem, o que pensam e o que procuram? Que razões lhes assistem? Reconhecer a pertinência de um debate não é a mesma coisa que aceitar os argumentos de quem o faz. Se fosse, não haveria debate. Aceitar o debate significa simplesmente que as conclusões estão de facto em aberto.