A minha ideia era escrever uma série de notas sobre as vacinas e debater seriamente os argumentos dos negacionistas. Eventualmente, fá-lo-ei. Mas todas as semanas chegam notícias do outro lado do Atlântico que é impossível ignorar. A última grande notícia associada ao departamento norte-americano da Saúde foi o retomar da cruzada contra o fluor na água por parte do secretário Robert F. Kennedy.
Foi nos Estados Unidos que começou a fluoretação da água. Foi um médico americano, Frederick McKay, quem, nos primeiros anos do século 20, descobriu que o fluor na água, ao mesmo tempo que provocava detestáveis manchas nos dentes, parecia diminuir de forma drástica a frequência de cáries. Foi no seguimento desses primeiros achados que, a partir de 1945 e durante quinze anos, a cidadezinha de Grand Rapids, no Michigan, acrescentou fluor à água consumida pelos seus habitantes e seguiu atentamente a saúde dos seus dentes. E facto é que as cáries diminuíram nas crianças nascidas a partir de 1945 – qualquer coisa como 60%. Esses primeiros resultados foram confirmados por outros estudos e o uso do fluor generalizou-se no país e no mundo ao longo das décadas seguintes.
Mas todos esses estudos, ao mesmo tempo que mostraram uma diminuição franca das cáries dentárias, mostraram também um aumento da fluorose, que é um excesso de fluor no organismo. A fluorose causa descoloração do esmalte dos dentes, que ficam com manchas acastanhadas, e alterações na resistência dos ossos, com dores crónicas e mais tendência para sofrer fracturas. Estes efeitos do fluor dependem evidentemente da quantidade ingerida: a fluorose dental (as manchas acastanhadas nos dentes) só surge com níveis de fluor na água superiores a 1 mg/dl; e a fluorose óssea, com valores superiores a 3 mg/dl. O valor recomendado pela OMS (e pelo CDC nos EUA) é 0,7 mg/dl. Isto quer dizer que o índice terapêutico do fluor (o intervalo entre as concentrações em que é eficaz e a concentração mínima em que se torna tóxico) é baixo. Pode ser difícil evitar que seja ultrapassado, por exemplo em climas quentes, em que o consumo de água tende a ser maior. Por outro lado, os primeiros efeitos tóxicos são sobretudo estéticos (as manchas nos dentes) e outras complicações exigem níveis de fluor no organismo três vezes superiores.
Nada disto é linear nem suficientemente dramático e, de facto, as opções dos diferentes países têm variado. Há países que deixaram de adicionar fluor à água ou que nunca chegaram a fazê-lo. Países como a Suécia, os Países Baixos e a China, que interromperam a adição de fluor nos anos 1970 e 80, ou países como a Alemanha, o Japão e a Bélgica, que nunca o fizeram. Muitos desses países têm níveis naturais de fluor na água que consideram suficientes, ou apostam sobretudo no fluor que, desde os anos 1970, é adicionado às pastas de dentes. Uma revisão das evidências médicas feita em 2024 pela Cochrane Library sugere que esses países podem ter razão. Por outro lado, é muito provável que a fluoretação da água valha a pena nos países que têm grandes assimetrias sociais e económicas.
Então qual é o problema? O problema é que a discussão desencadeada nos EUA pelo secretário da Saúde não é razoável nem equilibrada. Não está a discutir-se se um país como os Estados Unidos, com as assimetrias que se sabe, tem ou não vantagens em fazer a fluoretação da água. Não está a discutir-se que concentrações de fluor na água é que devem ser adoptadas. Está a discutir-se se o fluor na água provoca cancro ou autismo. Assim é difícil.