(Divertimento)
O meu telemóvel está atento a estas alterações horárias, e por isso dispensou-me da tarefa de ser eu a adiantar sessenta minutos no mostrador do seu relógio, na passada madrugada do dia 30 de Março. Quando acordei, olhei para as horas, já esquecido da mudança e sem me dar conta do tempo roubado. E comecei um dia como os outros, ou seja, com 80 por cento já programado e os restantes vinte suscetíveis de me oferecerem alguma surpresa fora-do-baralho: uma espécie de jóquer escondido que pode surgir quando menos se conta.
Vieram-me à mente, a propósito dessa obrigatoriedade a que foi dada a designação de «hora de Verão», algumas concebíveis elucubrações – este palavrão lembra-me sempre o enorme sucesso do disco «Les élucubrations» do rebelde cantor francês Antoine – em torno da simples e impossível eventualidade de adiantar uma hora no meu dia -a -dia, cortando, a meu belo prazer, essa fatia temporal do bolo das 24 quotidianas.
Fica aqui, de qualquer forma, o registo da regulamentação de Bruxelas, cuja finalidade, em síntese, é a de proporcionar em simultâneo um alívio nas despesas com eletricidade das populações, e o gozo de muitos joggers e outros profetas da boa condição física. É uma ação que, mesmo se bem intencionada, é contudo sentida como burocrática e distante.
É evidente que, em contraste, é bem mais excitante e apetecível dar asas à imaginação e pensar no fantástico mosaico de especulações à volta da (apenas) teórica hipótese de tornar viável uma tal prerrogativa no plano pessoal: admitirmos a ideia de sermos nós, privadamente, a adiantar uma hora em cada dia, inventando cenários que escapam ao ciclo do possível, introduzindo-nos descaradamente num outro planeta, ficcionado, inevitavelmente inconsequente.
Este mero wishful thinking de nos sentirmos aptos a comandar uma tão extraordinária manobra, espelhará afinal a nossa propensão para, de quando em vez, trilharmos um onírico caminho que aparentemente nos tire da frente as nossas muitas angústias, mais, ou menos, existenciais: os momentos de grande e incómoda expetativa pelo telefonema que tarda, o resultado do efetuado exame clínico, o apito final do árbitro que confirma a vitória da nossa equipa, a decisão final com que se termina a novela ou a série no streaming, o veredito sobre o pedido para obtenção de um lugar de estacionamento em certos bairros mais antigos da nossa cidade, e mais ´um milhão` de situações que nos causam uma visível e incontrolada impaciência. Diante de todas essas interrogações, pois então- suplicam todos sem exceção- , que se atenue tal tremendo e incómodo tempo de tensão, e que se adiante uma hora!
Obviamente, todo este nervosismo deve-se entender como filho, pelo menos adotivo, da era de disrupção que vivemos: o«dar tempo ao tempo» é uma postura ridicularizada pelos vanguardistas de serviço, e alguns vão inclusive ao ponto de frisar o reacionarismo de tal´passividade`.As pessoas são interpeladas e molestadas, exigindo-se-lhes que combatam aquilo que, para esses nerds tecnológicos, será uma forma de insuportável preguiça.
Já poucos se dão conta que, entretanto, foi sendo progressivamente marginalizada uma virtude que agora parece absolutamente abstrusa e ultrapassada: a vantagem do adiado gozo da futura recompensa que, na realidade, é um elemento marcante da nossa diferença em relação aos animais-bichos. Constata-se, e mais do que nunca nesta era digital, a consagração total do modelo de sociedade consumista: neste tipo de comunidade global, não se acredita no valor da pausa para reflexão e aprofundamento. Estamos em pleno no apogeu da ´gratificação instantânea`.
O melhor remédio para tantas e tamanhas contrariedades será, porventura, uma saudável e prudente distância: ser-se como o eixo da roda que acompanha os movimentos, mas nunca abandonando a sua posição relativa.
De qualquer forma, que não se dramatize demasiado esta etapa um tanto confusa: talvez alguns pessimistas achem que só faltam «5 para a meia-noite» , mas estamos muito longe da «vigésima-quinta hora»!