A antecipar o texto de uma das edições d’O Fio da Navalha de Somerset Maugham é apresentado, à laia de resumo ou aperitivo, um pensamento colhido num velho livro da religião sânscrita: “Difícil é caminhar sobre o aguçado fio de uma navalha; é árduo dizem os sábios é o caminho da Salvação”.

Pois é, exatamente, o aguçado fio de uma navalha o chão que estamos a pisar e é sobre ele que temos de caminhar para enfrentar, com êxito, a terrível catástrofe desencadeada pela pandemia do Covid-19.

Muito se fala. Muito se tem feito. Mas não se pode deixar de estar atento para, sem rotina nem cansaço, manter em toda a circunstância o rigor no agir que a situação impõe.

Uma pandemia é claramente uma situação de doença social. Se é assim, há que estabelecer uma anamnese, fazer um diagnóstico, definir uma terapêutica para se conseguir a cura ou, no mínimo, aliviar sintomaticamente o doente. Requerem-se conhecimentos técnicos, ponderação, prudência e firmeza na decisão.

Toda e qualquer decisão tomada para reduzir a taxa de morbilidade ou combater a doença, nos seus efeitos e na sua contagiosidade, no estado atual dos conhecimentos da ciência médica sem agentes etiotropos capazes de, pelo seu próprio efeito, destruírem o vírus ou pelo menos inativá-lo depois de entrar no organismo, tem de assentar na profilaxia. Também, apesar dos intensos esforços da investigação, não existem ainda vacinas seguras e eficazes que estimulem ou desencadeiem imunidade de modo a promover a resistência dos organismos humanos à doença. Daí que qualquer atitude tomada para o controle da pandemia deva assentar na prevenção dos contágios o que implica, sempre, grandes sacrifícios pessoais, emocionais, psicológicos, económicos e sociais.

O confinamento das pessoas às suas residências, a evicção dos locais de trabalho eventualmente menorizada nos seus efeitos pelo teletrabalho, a paragem das empresas, a estagnação da economia, gera uma asfixia social, uma carência extrema da produção e dos serviços, um desemprego ao qual o lay-off, a subsidiodependência e as numerosas iniciativas de voluntariado pronto e generoso não conseguem minimizar os efeitos.

E deparamo-nos com graves problemas económicos e sociais a galopar na sociedade e a atingir indiscriminadamente, em círculos, cada vez com maior diâmetro, sãos e doentes, homens e mulheres, idosos e crianças. Famílias inteiras. Micro, pequenas e médias empresas seguramente. Mas todo o tecido empresarial fica afetado.

Naturalmente uns sofrerão os efeitos mais cedo que outros mas a evolução da pandemia e da crise que a acompanha, se não se lhe puserem entraves poderosos, vai conseguir o nivelamento que nenhuma ideologia por mais soft ou violenta jamais havia conseguido: uma sociedade igualitária e universal. Mas … na miséria.

Conta-se a este propósito que um indivíduo, otimista por natureza, desabafava para um amigo:

– Por este andar vamos todos acabar por andar a pedir esmola.

O amigo, mais pessimista, retorquiu:

– A quem?

Estamos, pois, perante o dualismo que é necessário ultrapassar: o confinamento anti-social que juntamente com o ataque direto ao vírus (soluções antisséticas como o hipoclorito e o álcool), as medidas prudenciais (uso de máscaras e luvas) e higiénicas (lavagem frequente e adequada das mãos) contribuem para diminuir a facilidade da propagação do vírus e, no outro prato da balança, o fracasso da economia, consequência da paragem das atividades produtivas e dos serviços.

Eis-nos, pois, colocados sobre o aguçado fio da navalha onde o equilíbrio é particularmente difícil mas onde o permanecer imobilizado é garantia segura de se ser atravessado e dissecado pela lâmina afiada.

É, pois, imperioso desatar o infernal nó górdio que nos aprisionou. Questão essencial: como?

Creio não haver quem possua a priori soluções absolutamente eficazes e/ou definitivas. Trata-se de um vírus novo, ou de uma recente mutação, que desencadeia um novo quadro clínico e epidemiológico que a ciência, qual surfista no cume da onda pandémica, está a analisar e a tentar controlar.

A este propósito lembro-me de dois episódios que se passaram quando recém entrado para assistente da Faculdade, muito próximo da idade dos meus alunos, procurava observar atitudes ou comportamentos dos professores que me orientassem nos primeiros passos na carreira universitária.

Num deles, na entrega dos resultados de uma frequência, alguns alunos contestavam a classificação dada a uma das perguntas. Já com grande ruído de fundo, digamos, mesmo, alguma algazarra, o professor vociferou para um aluno mais recalcitrante:

“Sabe o que lhe digo? A ignorância é muito atrevida.”

O decurso da vida permitiu-me constatar a veracidade desta asserção que, na altura, tanto me havia chocado.

Noutra circunstância, praticamente no mesmo local, outro Mestre muito sábia e prudencialmente aconselhava a um dos seus discípulos mais impetuoso e vibrante:

“Por vezes quanto mais calado se está mais inteligente se parece.”

Também hoje não me permito duvidar desta asserção.

Assim sendo, em assunto com tantas variáveis e de tal novidade e complexidade, emitir opiniões pode ser, no mínimo, imprudência e atrevimento. Mas calar e não as emitir talvez seja cómodo mas, seguramente, pode também ser lamentável omissão a roçar a cobardia.

O meu orgulho de ser humano do século XXI está ferido. Eu vivo na época global. numa sociedade da pós-modernidade, fortemente influenciada pelo pensamento da escola filosófica de Frankfurt, tecnologicamente avançada, capaz de criar vida num tubo de ensaio ou alterar o código genético de uma célula, que quer decidir sobre a vida, a morte e a identidade de género, capaz de explorar o espaço e de se deslumbrar com a inteligência artificial, as start-ups e a robótica. Manifestamente uma ultraminúscula partícula vírica não pode causar tal turbulência social. Devo ter adormecido e estou mergulhado em profundo universo onírico Kafkiano. Sinto necessidade de beliscar-me e, com espanto, verifico que tenho a sensibilidade intacta e continuo a reconhecer as coordenadas do tempo e do espaço onde me situo e me movo.

Não me resta alternativa: devo participar.

Três medidas se me afiguram indispensáveis: aniquilar o vírus, dificultar a sua propagação, concretizar políticas corajosas que tenham de impor regras que no seu normativo possam não ser bem aceites podem criar dificuldades na convivência ou no trabalho conflituar com a mentalidade hedonista bem característica da sociedade atual. Do ponto de vista da filosofia política e económica talvez haja que ultrapassar Hobbes, Marx, Marcuse, Hayek, Galbraith, Keynes entre tantos e tão grandes pensadores que não obstante a sua grandeza intelectual podem não ser tão abrangentes que proporcionem soluções adequadas ao momento histórico em que vivemos. Talvez mereça a pena voltar ao sé XVII e revisitar Locke que considerava que o conhecimento não é inato mas resulta do modo como elaboramos as informações que recebemos da experiência.

E isto porque tudo é novo, instantâneo e mutável. Vai-se aprendendo também com os resultados que se vão obtendo. É absoluta a necessidade de se ser rigoroso e crítico na análise dos dados e seguro nas medidas a adotar numa submissão absoluta aos princípios da ética e da verdade.

A guerra contra o vírus deverá processar-se segundo os princípios de uma guerra convencional. Há que conhecer as armas do inimigo, o seu potencial agressivo, a sua tática para produzir maiores baixas.

Definimos assim populações de maior risco que importa mais defender (idosos, debilitados, imunodeprimidos ou imunocomprometidos, com patologias pré-existentes associadas, nomeadamente envolvendo órgãos nobres como o coração, cérebro, rim). Investiga-se a possibilidade de algumas terapêuticas poderem aumentar o risco da doença.

Tomam-se, e muito bem, medidas capazes de com antisséticos (etanol, hipoclorito de sódio) destruir o vírus e com medidas de boas práticas epidemiológicas impedir a sua propagação. Põem-se em prática, com coragem, medidas de retorno à vida social e económica e tentam evitar-se comportamentos desviantes que comprometam todo o sacrifício social já havido.

Lembro-me de um apelo de S. Paulo VI: “Homens sede Homens”.

E tranquilizo-me. No exercício da sua liberdade mais ampla e transcendente, com a sua inteligência e vontade, o Homem vencerá o vírus.