Quem percorre as ruas de Roma ou visita alguns dos seus monumentos tropeça a cada passo com a sigla “S P Q R” esculpida em pedras seculares. Quando os turistas, em grupos mais ou menos barulhentos, vindos dos quatro cantos da terra, percorrem a Cidade Eterna não deixam de reparar na inscrição e, naturalmente, questionam os guias que os acompanham.

A resposta é simples.

Desde os tempos pré-históricos até à época do Império, as relações entre os Romanos e os Sabinos, povo vizinho de Roma que ocupava as planícies do Lázio, sempre foram ambivalentes. Se do povo sabino irradiou a influência cultural e civilizacional que plasmou grande parte dos hábitos e instituições que edificaram a modelar cidadania romana, também, por outro lado, houve sempre muitas batalhas entre os dois povos ao longo dos séculos. Numa das últimas disputas, antes da assimilação, os belicosos sabinos enviaram as suas tropas contra Roma com objetivo de invasão. Os seus exércitos, talvez como forma de motivação dos soldados e de intimidação do inimigo, ostentavam nas suas bandeiras a sigla S P Q R (Sabini Populi Qui Resistit – Quem Resiste ao Povo Sabino).

Roma, desafiada no seu esplendor, ferida no seu orgulho, segura da sua força, apoiada pela determinação das suas instituições políticas e da sua organização militar, preparou a sua defesa e ripostou colocando a mesma sigla, S P Q R, nos pendões das suas Legiões. Só que aqui, a sigla significava: Senatus Populos Que Romanus – O Senado do Povo Romano.

Era uma demonstração altaneira, prenhe de convicção, e tradutora de superioridade, força, prestígio, organização e confiança que, por si só, menosprezava, quase ridicularizando, a ousadia sabina.

E, mais uma vez, os generais e as legiões romanas saíram vencedores.

Quer queiramos quer não, estamos a viver uma situação de guerra, mundial e subversiva. O inimigo é um minúsculo vírus, invisível a olho nu mas omnipresente, que desencadeou um ataque traiçoeiro, uma guerra terrorista, que vai atingindo toda a população mas, preferencialmente, os mais desprotegidos, os mais desfavorecidos, os mais vulneráveis. A taxa da letalidade da doença nas pessoas com 80 ou mais anos é quase de 100%.

Pois bem, estamos em guerra. É uma infeliz verdade. Aceitemos essa evidência, não com a moleza de uma aceitação passiva, mas com ânimo e coragem para batalhar e determinação para vencer.

Uma frase antiga diz que não há exércitos vitoriosos sem soldados esgotados.

Não será necessário atingir tais limites, mas é mister que se exijam alguns sacrifícios, individuais e coletivos. Há regras que têm de ser cumpridas para o bem de todos. O correto uso da máscara é uma delas. Um descuido negligente nas regras da profilaxia é uma afronta a todos os que estão a sofrer dramáticas situações económicas e financeiras derivadas dos confinamentos. É, também, um desrespeito por todos (médicos, enfermeiros, auxiliares, técnicos e tantos, tantos outros) que estão na linha da frente a dar o melhor do seu esforço, da sua competência ou, até, das sua vidas, para tentar aliviar ou curar aqueles que o vírus atingiu.

A possibilidade de se ser infetado não é como a sorte grande ou o totoloto que só saem aos outros. Qualquer pessoa, independentemente da idade ou da fase da vida em que se encontre, é um potencial alvo para a agressão do vírus. Como corolário lógico resulta que todos estamos potencialmente expostos. E isto é uma verdade axiomática que deve ser individual e coletivamente aceite.

Estamos, pois, perante uma guerra que temos de vencer.

Sun Tzu (544-496 a.C.) dizia (Arte da Guerra IV, 5 ): “Garantir a invencibilidade implica táticas defensivas; a possibilidade de derrotar o inimigo implica ser ofensivo.”

Qualquer treinador de futebol atual é capaz de partilhar dessa opinião.

Para lutar contra o vírus pedem-se soldados e armas, neste caso: pessoal, medicamentos, camas e ventiladores. É legítimo.

Mas para que estas reivindicações sejam autênticas e convincentes, não devem ser usadas como armas de arremesso político mas, antes, devem estar alicerçadas, coerentemente, numa ética e numa práxis de união de esforços, com o objetivo sincero, determinado e convicto, do combate à doença e da defesa da vida e da dignidade humana.