Desenvolveu-se em Portugal uma maneira muito particular e sofisticada de apresentar uma candidatura política. Primeiro jura-se que nada se quer. Depois garante-se que o nome está em todos os órgãos de comunicação social de modo a que ninguém se esqueça de que existimos.
O antigo ministro das Finanças e ex-governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, regressou ao palco. Apresentou um livro (ser intelectual é sempre importante) e reapresentou-se numa entrevista ao Expresso com a habitual pose de quem não precisa de pedir licença para entrar numa sala.
Ao dizer que não prepara um regresso à política, Centeno diz-nos tudo o que precisamos para saber: que, na verdade, está de regresso à política.
Centeno não está “apenas” a escrever livros, a dar entrevistas e a comentar o futuro do PS e do governo diariamente, sem nenhuma intenção. É uma espécie de candidato em aquecimento. Um candidato em roupão, à espera que alguém lhe leve as pantufas até ao Largo do Rato. Afinal, a ambição, em Portugal, raramente se apresenta de frente e o disfarce num sentido de responsabilidade ou num inocente “nunca digo nunca”, fica sempre mais apresentável e despretensioso.
Centeno não quer ser candidato. Centeno quer apenas que o país se convença de que não há ninguém mais indicado para o ser. De que precisamos dele.
O senhor das “contas certas” construiu uma reputação de rigor que uma parte da esquerda transformou em artigo de fé (talvez nunca tenham tido a oportunidade de ver um socialista não despesista). Para os seus admiradores, é o socialista que sabe contar e o ministro que devolveu respeitabilidade financeira ao PS.
O problema dos santos é que não costumam gostar de auditorias.
A passagem de Centeno pelo Banco de Portugal deixou um projeto de nova sede em Entrecampos cujos custos e opções de gestão merecem escrutínio. O rigor não pode ser uma marca registada que se usa no Ministério das Finanças e se esquece quando se muda de gabinete. Mas parece que assim é.
A nova sede de Entrecampos é um dos símbolos mais eloquentes da contradição da imagem que Centeno cultiva quando os 191,99 milhões de euros anunciados para aquisição não correspondem afinal ao custo total do projecto. A estimativa de custos fica afinal entre 235 e 280 milhões de euros. Diferença pouca!
Uma localização inicial que tinha sido excluída por razões de segurança e que acabou por ser a escolhida, o rumor da opção de venda ao desbarato toda a mobília de estilo existente na anterior sede para comprar tudo novo (novo riquismo é sempre divertido) e relatórios de avaliação técnica e jurídica com 16 contingências graves completam este bouquet à lá Centeno.
O Banco de Portugal é, teoricamente, uma instituição cuja gestão exige explicações proporcionais aos recursos envolvidos e não é um monumento à vaidade de quem o dirige.
No seu livro, Contas Certas, escrito com Filipe Santos Costa, revisita um período político e, inevitavelmente, reconstrói a imagem do protagonista. Porque um livro de memórias é também uma escolha, Centeno e Santos Costa escolhem o que fica bem na fotografia e o que desaparece convenientemente do enquadramento.
O Expresso deu-lhe palco e a entrevista trouxe-o para o centro da conversa. A capa e o destaque editorial alimentam a percepção de que o jornal já encontrou uma personagem para o próximo capítulo do PS.
Centeno comenta o futuro do PS, questiona a liderança e deixa todas as hipóteses em aberto. José Luís Carneiro, entretanto, descobre que liderar o PS pode ser uma profissão ingrata pois enquanto tenta governar o partido, assiste à construção mediática de uma alternativa que ainda nem teve a delicadeza de se apresentar como tal.
Carneiro tem a liderança mas Centeno tem a aura. Se o primeiro responde pelos problemas do presente, o segundo outro escolhe os problemas que comenta nunca tocando no imobilismo nacional de que ele próprio é patrono.
No meio disto, há uma parte da esquerda pronta a suspirar pelo regresso do homem que, na sua memória, nunca errou uma conta (embora tenha uma primeira conferência de imprensa em que nem sequer sabe de memória dados simples) e, na política socialista, há sempre alguém convencido de que está a cozinhar o prato e alguém que só descobre tarde demais que é o ingrediente principal.
Centeno pode continuar a dizer que não quer nada. Pode escrever livros, dar entrevistas e deixar o futuro em aberto. Todavia, ninguém precisa de acreditar que um homem que ocupa tanto espaço mediático com tão pouco de interessante para acrescentar está apenas de passagem.
O PS que se prepare e a esquerda que afie a faca. José Luís Carneiro que perceba que, nesta cozinha, o homem que jura não ter fome pode ser precisamente aquele que está a preparar o jantar.
Na verdade, Centeno nem precisa de anunciar que quer o lugar de Carneiro pois basta-lhe esperar que o partido lhe estenda o prato mais tarde ou mais cedo.
Quando a cebola começar a fazer chorar, já será tarde para Carneiro perguntar quem acendeu o forno.