A 18 de maio, os portugueses voltam às urnas. Mas mais do que escolher deputados, este momento obriga-nos a uma reflexão mais profunda: que democracia temos e que democracia queremos. Vivemos um contexto de fragilidade institucional, com persistentes crises políticas, uma crescente desconfiança nos representantes e a incapacidade dos partidos em construir pontes duradouras. Esta não é apenas uma crise de governação. É, acima de tudo, uma crise de cultura democrática.
A dissolução da Assembleia da República e a antecipação das eleições legislativas abriram uma nova fase de incerteza. As sondagens apontam para um Parlamento fragmentado, sem soluções evidentes de estabilidade. Entre blocos políticos pouco dialogantes e discursos de polarização, o risco é claro: uma legislatura marcada pelo impasse e pela tensão.
Para que a democracia sobreviva, precisa de ser tratada com seriedade e cultivada por todos, tanto eleitos como eleitores. E é aqui que se torna imperativo lançar um repto à sociedade portuguesa. Não basta votar. É preciso participar, exigir e construir.
O maior perigo para a democracia representativa não é a crítica. É a indiferença. Quando os cidadãos desistem de acompanhar a vida pública, de intervir no debate político e de escrutinar os seus representantes, o espaço abre-se à demagogia, à inércia e ao autoritarismo. A democracia não é um estado natural. É uma construção que exige esforço e vigilância constantes.
É precisamente neste ponto que o papel dos cidadãos ganha uma centralidade imprescindível. Votar em consciência é o primeiro passo. Mas a democracia não termina nas urnas. Começa nelas. E prolonga-se na exigência de transparência, na defesa da ética pública, no envolvimento cívico e na participação informada. Só uma sociedade crítica pode suportar um regime democrático maduro.
Mais do que procurar uma solução mágica nas eleições de maio, devemos reconhecer que a estabilidade política não virá apenas de entendimentos entre partidos. Virá, sobretudo, de uma cidadania ativa, consciente e presente. A solidez das instituições democráticas depende do envolvimento de todos. Não pode ser garantida por estruturas formais se não houver uma base cívica que as legitime.
Estamos num tempo decisivo. Um tempo em que a confiança nas instituições precisa de ser restaurada. E isso só será possível se os cidadãos assumirem o seu papel com coragem e lucidez. O futuro da democracia portuguesa não está apenas nas mãos de quem governa. Está, sobretudo, nas mãos de quem a legitima através da participação.
A democracia precisa de nós. Não como espectadores, mas como protagonistas.