Há uma década que ouvimos repetir que “os jovens são o futuro”. Mas, em política pública, esta frase tornou-se demasiado confortável. É uma verdade que não compromete, que não exige mudança, que não coloca ninguém em causa. A juventude continua a ser um tema citado por todos, mas tratado por poucos com visão estrutural. Se queremos falar seriamente sobre políticas públicas para a juventude em Portugal, precisamos de deixar para trás o discurso simbólico e olhar de frente para a realidade.
O país possui um ecossistema associativo juvenil vibrante, criativo e resiliente. É nele que muita da inovação social acontece. É ali que se formam lideranças, competências e pensamento crítico. E, no entanto, continuamos a tratá-lo como um anexo, uma nota de rodapé da política pública. O associativismo juvenil vive da capacidade de improvisar, porque raramente vive da estabilidade financeira ou do reconhecimento formal. Sobrevive, não progride. E esta é uma escolha política e não uma inevitabilidade.
Ao mesmo tempo, continuamos a ignorar a educação não formal, apesar de já ninguém poder contestar o seu papel. São dezenas de milhares de jovens que encontram aí o espaço onde aprendem a trabalhar em equipa, a comunicar, a resolver problemas, a liderar. Competências que o mercado de trabalho exige e que a escola, por si só, não garante.
Portugal tem boas intenções, mas falta-lhe coerência. Falta-lhe estratégia. Falta-lhe, sobretudo, assumir que as políticas de juventude não podem continuar a funcionar como projetos avulsos, dependentes de financiamentos de curta duração e mudanças de governação. Precisamos de uma política pública que não mude ao sabor de ciclos orçamentais, mas que se mantenha ao ritmo das necessidades dos jovens.
Quando olhamos para a Europa, percebemos o que ainda nos separa: estabilidade, continuidade, profissionalização. Países com resultados consistentes apostam em financiamento plurianual, em estruturas dedicadas, em coordenação entre ministérios, municípios e sociedade civil. Não deixam a juventude entregue à boa vontade dos protagonistas do momento. Integram-na na arquitetura das políticas públicas.
Portugal devia garantir contratos-programa plurianuais às associações juvenis que trabalham no terreno, e não apenas apoios de sobrevivência, necessitando para isso de recentrar a ação e as prioridades do IPDJ-Instituto Português do Desporto e Juventude na juventude e nos jovens, com novos métodos de mobilização e de ação. Devia conceder às autarquias ferramentas reais para integrar os jovens nas decisões que moldam o território. E, acima de tudo, tratar a juventude como parte da governação, não como destinatária passiva de determinados programas.
As próximas décadas vão ser decisivas. O país enfrenta a transição digital, desafios demográficos, tensões sociais, mudanças no mercado laboral, novas exigências ambientais. Não há política pública possível sem jovens preparados, envolvidos e valorizados. Não há território sustentável sem juventude que se sinta parte dele. Não há democracia forte sem cidadãos que aprendam, desde cedo, o que significa participar.
Portugal fala muito sobre o futuro dos jovens. Está na altura de falar sobre o presente das políticas públicas. A juventude não precisa de promessas, mas sim de reconhecimento, estabilidade e responsabilidade política.