Pedro Duarte é, ao que tudo indica, um homem de múltiplas funções — e de convicções igualmente versáteis. Num dia, apresenta-se como candidato do PSD/CDS à Câmara do Porto (a famosa “cadeira de sonhos”), encabeçando uma petição contra a segunda fase da obra do Metrobus. No outro, o seu partido — que governa o país e no qual ele próprio desempenhou, até há bem pouco tempo, funções como Ministro dos Assuntos Parlamentares — avança com expropriações urgentes para… precisamente essa mesma obra.
Contradição? Incoerência? Nada disso. É apenas mais um dia normal na política nacional, onde tudo é possível — sobretudo quando se está imbuído num verdadeiro espírito aristotélico de defensor da pólis, mesmo que seja só à segunda, quarta e sexta.
Esta semana, os portuenses foram surpreendidos: Pedro Duarte decidiu subir o tom e dar início, de forma não oficial mas já bastante visível, à sua campanha autárquica. Depois de dias a tecer críticas públicas à segunda fase da obra do Metrobus, lançou uma petição que rapidamente ganhou contornos de protesto político. A iniciativa culminou numa caminhada simbólica realizada no passado sábado, 24 de Maio, onde, ladeado por apoiantes — entre eles o presidente da Assembleia Municipal do Porto e dirigentes da distrital — marchou em protesto contra aquilo que o seu próprio partido, através do Governo, está activamente a implementar. Num momento de particular “entusiasmo cívico”, Pedro Duarte declarou mesmo que “prefere perder fundos comunitários a vê-los serem mal aplicados”.
A frase de efeito, certamente pensada para manchete, levanta logo à partida uma questão inevitável: afinal, não é o Governo do qual faz parte que está a aplicar esses mesmos fundos?
Ora, é aqui que começa a verdadeira chatice — e que, convenhamos, empresta até um certo tom de comédia a este episódio político. Basta recuar a Abril deste ano para encontrar no Diário da República a publicação da declaração de utilidade pública, com carácter de urgência, de várias expropriações na zona ocidental do Porto, destinadas à construção da segunda fase do Metrobus, entre o Pinheiro Manso e a Anémona. A decisão tem a assinatura do Governo da AD — o mesmo Governo em que Pedro Duarte ocupava, até há poucas semanas, a pasta dos Assuntos Parlamentares.
Alguém se lembra de o ouvir dizer o que quer que fosse nessa altura? Alguma intervenção pública durante a campanha das legislativas, algum sinal de incómodo, uma declaração sobre o traçado da obra ou sobre os impactos locais? Nada. O silêncio de então contrasta agora com a estridência de quem, já com o boné de candidato autárquico, parece ter descoberto subitamente que o Porto existe — e que tem árvores, passeios e eleitores atentos.
A pergunta de milhões, agora, é saber o que fazer a partir daqui. Como evitar cair na incongruência tão típica da política partidária? Como explicar aos eleitores que se protesta contra aquilo que se ajudou a aprovar?
A solução, curiosamente, revela-se bastante simples: basta recorrer a um velho truque de ilusionismo político, ao melhor estilo de António Costa. Passo a explicar.
Todos nós ainda nos lembramos da figura de António Costa, Primeiro-Ministro de Portugal. Uma imagem construída com minúcia, onde a gravata não era apenas um adereço, mas um sinal de postura.
Nos dias com gravata, tínhamos o Costa Primeiro-Ministro — institucional, sereno, guardião da estabilidade e dos valores da ética republicana.
Nos dias sem gravata, emergia o Costa (fixe), Secretário-Geral do PS — descontraído, afável, homem do povo, pronto para os afectos e os soundbites. Dois personagens num só corpo, alternando conforme o palco, sem que um parecesse incomodar o outro. Era uma encenação refinada, mas eficaz, que lhe permitia escapar ileso às contradições e cultivar a ambiguidade como capital político.
Pedro Duarte parece, ao que tudo indica, querer seguir o mesmo guião. De um lado, temos o político formal, de gravata: Ministro dos Assuntos Parlamentares, com discurso ponderado e moderado, alinhado com as decisões do Governo e coerente com a linha de pensamento do seu líder. Do outro lado, surge o candidato autárquico, de camisa arregaçada e tom inflamado, que se apresenta como rosto da mudança local — o verdadeiro político apaixonado pela política de proximidade, atento às árvores, aos passeios e às dores dos munícipes. Um duplo papel cuidadosamente ensaiado, que lhe permite estar em todos os lados ao mesmo tempo, sem nunca se comprometer com coisa alguma — a não ser, claro, com a sua candidatura.
A única chatice, no meio disto tudo, é que o Porto, por norma, não se presta muito a ser palco para ensaios de moda. É uma cidade única, com problemas concretos e cidadãos atentos. E a memória dos portuenses não é tão curta como alguns gostariam. Podem até tolerar diferenças ideológicas, mas cada vez menos perdoam incoerências ou exercícios de malabarismo político. A cidade merece quem a defenda com clareza, frontalidade e responsabilidade — não quem mude de discurso conforme o uso (ou não uso) da gravata partidária.
Esperemos agora que Pedro Duarte, imbuído do mesmo espírito aristotélico de defensor da pólis, venha também convocar uma manifestação contra as expropriações decretadas pelo seu próprio Governo.
Seria, no mínimo, coerente. Ou, pelo menos, uma excelente oportunidade para mais uma fotografia.