A conciliação entre a Saúde e a Economia nunca foi fácil. Na verdade, é algo que se tenta há muito tempo sem sucesso. Mas deverá ser agora, que a nossa sociedade passa por uma dura prova, que ela deve ser uma vez mais tentada, colocando de lado ideologias e politiquices, radicalismos e exageros. Devemos procurar, de forma pragmática, responder a um desafio comum, afastando muitas soluções já tomadas e aproximando ainda mais muitas outras.

Julgo dever ser este o caminho a ser tomado por todos e pelos que nos dirigem. Serão sempre necessárias medidas, que na verdade não agradam nem a gregos nem a troianos, mas que, se explicadas, talvez consigam o consenso da larga maioria da nossa sociedade.

Então, e como tentar não cair no radicalismo dos que defendem a saúde a todo e qualquer custo e dos que defendem a economia custe o que custar? Estamos realmente perante um grave problema de saúde pública, difícil de resolver, e perante um problema económico para o qual ainda temos dificuldade de perceber a sua verdadeira dimensão. Ambos extraordinariamente graves, razão pela qual motivam tantas e extremadas posições.

Um problema de saúde pública. Declarada como pandemia pela OMS, a infeção pelo vírus SARS-CoV-2 e a doença por ele provocada, a Covid-19, são um imenso problema ainda sem uma solução. Enquanto aguardamos, na esperança de que surja uma vacina eficaz ou um tratamento revolucionador, temos de aprender a viver com tamanho problema. Trata-se de uma doença que é grave, fatal para uma percentagem significativa de doentes, e cuja gravidade dos números (maior número de internamentos e mortes) deriva na relação direta do número de infeções na comunidade. Assim, se controlarmos o número de infeções, conseguimos controlar o número de doentes graves, e consequentemente, o número de mortos. Já o verificámos com as políticas de confinamento. Reduziu o número de infeções na comunidade e, deste modo, a gravidade da doença em números absolutos na mesma comunidade. Reduziu a sobrecarga nos serviços de saúde e, por esse motivo, as mortes provocadas pela doença. Temos de perceber que não podemos ter um serviço de saúde sobrecarregado ou totalmente desviado para a Covid-19. Teremos muitas mortes pela doença pandémica, mas ainda mais por todas as outras causas de mortalidade que não serão devidamente assistidas. E este último aspeto também já o verificámos.

O controlo da pandemia tem de ser feito no controlo do número de infeções, não no aumento do número de ventiladores. Para reduzir o número total de infeções temos de testar muito, isolar e interromper cadeias de transmissão e dificultar ao máximo a transmissão do vírus na comunidade pelo uso de máscaras e distanciamento físico. Medidas de confinamento só se justificam perante o colapso iminente dos serviços de saúde, e cada vez mais cirúrgicas, por áreas, nunca a um país na sua totalidade. Temos de manter o SNS ágil, sem sobrecarga, para que continue a responder aos doentes Covid-19 e a todos os outros.

Um gigante problema económico. A dimensão dos custos relacionados com a pandemia é ainda muito difícil de estimar, mas que ninguém se engane, serão imensos. E todos teremos de os pagar. Podemos imprimir dinheiro, inventar dinheiro, subsídios a fundo perdido, mas no final de tudo, será a própria lei dos mercados que virá cobrar a conta final. Nessa altura, todos, sem exceção, teremos de pagar. Já existem muitos a pagar. O desemprego tem vindo a subir e não tem meio de parar. Quanto mais restritivas forem as políticas para controlar a pandemia, mais nefastas serão as mesmas para a economia. Mas terá que ser assim? Não. Se as infeções estiverem controladas na comunidade, não. Se o número de casos for residual, todo este espectro se dissipa e a confiança dos consumidores renova-se (já vimos esse vislumbre no verão), renovando assim a nossa economia, e, com essa renovação, novos postos de trabalho, mais dinheiro e mais consumo. Tudo está ligado.

Então, e podemos continuar a fazer tudo igual? Claro que não. Serão necessárias medidas coerentes, que não se antagonizem, que permitam um desenrolar económico o mais normal possível dentro das possibilidades atuais. Por isso considero, uma vez mais, que a solução está perante nós, fácil, pouco dispendiosa, a nossa imunidade de grupo: a utilização generalizada e obrigatória de máscara. Associa-se a algum distanciamento físico, não social. Que se promova o contacto entre amigos, o contacto social com a utilização de máscara e distanciamento físico. Que se proteja a saúde mental, mas ainda assim, mantendo as políticas de saúde pública. Um dos sectores económicos com o maior problema por resolver seria a restauração, a precisar de vigorosos apoios, que passariam por diminuição significativa da carga fiscal neste sector, tanto para empresas como para consumidores. Que seja esse um dos preços a pagar já por todos nós. Que funcionem restaurantes com as medidas necessárias de distanciamento, mas apenas para servir refeições para o mesmo agregado familiar. Não deveriam ser permitidos agrupamentos à mesa de amigos ou colegas de trabalho. São nessas reuniões que o vírus mais se propaga. Teremos de reinventar o contacto social que sempre foi feito à mesa, ou na partilha de um copo de vinho. Teremos de manter o contacto de outra forma, noutras situações, com máscara, mas manter. E tal será apenas temporário. Até tudo isto passar. Porque vai passar. Dir-me-ão, que se não for nos restaurantes, será em ajuntamentos clandestinos, nos domicílios e outros. Pois sim, haverá, mas se se explicar a verdadeira implicação de tal ato, talvez este seja feito apenas pela minoria. A implicação é que contactos sociais desprotegidos sem máscara, seja à mesa ou fora dela, facilitam a propagação do vírus na comunidade e, como tal, o número de infeções, depois o número de mortos, depois as políticas necessariamente mais restritivas, depois a morte dos modelos de negócios, depois o desemprego, depois a miséria social, depois o agravamento de impostos que TODOS vamos pagar. Por último, o jantar com amigos leva ao desemprego de alguém, se calhar até de algum dos comensais, e todos, no final, poderão ter de pagar ainda mais. Um jantar muito dispendioso se pensarmos nisso.

A mensagem a passar, que apele à responsabilidade pelos nossos atos, terá de ser esta. A utilização de mecanismos fáceis que evitem a propagação do vírus, máscara e distanciamento físico, salvam vidas e empregos. No final, salvam a nossa sociedade e o futuro dela.

Para isso, precisamos de um Governo forte, que coloque medidas difíceis em prática de forma coerente, que fale com seriedade aos portugueses e que explique a todos, incluindo os que esperam ficar nos 85% de pessoas, que mesmo tendo o vírus não terão qualquer complicação, que os seus atos têm consequências na propagação da pandemia e sérias repercussões no futuro dos seus rendimentos.

A saúde e a economia podem seguir juntas, conciliadas. Para isso todos temos de mudar, sociedade civil e política, todos juntos para um problema comum, cuja solução depende da coragem de todos. Um problema que passará, quer pelo avanço científico quer pela autoextinção por dificuldade na propagação. Não vai ficar tudo bem, mas vai passar.