Um leitor atento lembrou-me, com laconismo caridoso, as palavras que escrevi após a pesada derrota da Argentina frente à Croácia, em que profetizava, com algumas reservas, a eliminação da albiceleste e o final da carreira internacional de Messi. Estive a cinco minutos e a um remate bissexto de Marcos Rojo de ganhar as minhas credenciais de Zandinga, mas aceito com humildade o reparo. No entanto, direi em minha defesa que não estava na posse de toda a informação relevante. Após o jogo com a Nigéria, Lionel Messi, logo ele e nenhum outro, confessou que sabia que Deus estava com a Argentina. Ora, se eu estivesse a par das preferências divinas teria sido mais prudente no meu prognóstico. Apostar contra a Argentina, esta Argentina, é uma coisa. Apostar contra o Todo-Poderoso, o Senhor dos Exércitos, é outra, e nem eu, agnóstico militante, me atreveria a tanto.

Acontece que este campeonato, mesmo se descontarmos as intervenções divinas e as do VAR, tem demonstrado uma particular habilidade em arruinar reputações proféticas. Não se trata de escândalos, de resultados chocantes, mas da subtil frustração das expetativas criadas pelos jogos anteriores. Depois da vitória agónica contra a Suécia, os adeptos alemães foram varridos por uma daquelas ondas latinas de otimismo e previram o esmagamento da Coreia do Sul por não menos de 3-0, o que, dado o historial da sua seleção, até não era das previsões mais descabidas. E, no entanto, veja-se o que aconteceu. Mas sobre o cataclismo germânico já me debruçarei.

Numa escala de imprevisibilidade de zero a Bruno de Carvalho este Mundial é um 9,5. Só que às vezes também é um 2. Por isso é que é imprevisível. O caso do grupo F é paradigmático. O México chegou à última jornada com seis pontos, uma vitória histórica (e imprevisível) contra a Alemanha, outra razoavelmente confortável (e previsível) contra a Coreia do Sul, um futebol vertiginoso e reptos para sonhar coisas chingonas, que deve ser a versão mexicana das coisas bonitas de que há séculos falava o professor Artur Jorge. Por sua vez, a Suécia ultrapassou com dificuldade a Coreia, soçobrou no último suspiro perante uma Alemanha que lhe foi superior e tem apresentado o género de futebol com o qual todas as mães desejam casar as filhas, certinho, trabalhador e educado q.b., um futebol de funcionários públicos e sociais-democratas a que falta, para ser amável ou até mesmo para se reparar na sua existência, o exotismo de um Henrik Larsson ou o carisma de Zlatan Ibrahimovic.

Não me perguntaram nada, e eu também não disse, mas antes do jogo seria capaz de jurar que a Suécia caminhava para uma saída discreta e silenciosa, daquelas que anos mais tarde nos levariam a perguntar a um amigo “olha lá, a Suécia esteve no Mundial da Rússia ou não?”Ao que ele responderia “Não, pá, isso foi a Noruega.” O México entrou chingón, em modo Acapulco-daiquirí, e quando ajeitou o sombrero estava a levar aquilo a que na gíria se chama três secos. Pavor no campo e incredulidade nas bancadas: seria mesmo possível voltar a casa depois de um início tão auspicioso? Não haveria nenhuma lei internacional que o impedisse? Pressentindo que o destino deles já não estava nas suas mãos, os mexicanos deixaram os corpos em campo, devidamente equipados, uniram-se aos compatriotas na bancada e transferiram-se espiritualmente para Kazan, onde as boas novas dependiam agora da improvável ineficácia dos alemães ou de um inesperado milagre coreano.

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