Tenho dentro da cabeça uma constelação de nomes de árbitros, esses órfãos de aplausos do futebol: Rosa Santos, Carlos Valente, Fortunato Azevedo, Veiga Trigo, Vítor Correia, Francisco Silva, José Pratas e Alder Dante. Repito: Alder Dante! Agora com ponto de exclamação e tudo porque um pai que põe um nome destes a um filho sonha com um príncipe das letras, um general, um imperador e, à falta de pena, espada ou ceptro, terá de servir um sinal de pontuação. Em tempos mais recentes, e por razões acima de tudo fonéticas, destacam-se nomes inapagáveis como Lucílio e Elmano, apelidos raros como Paraty (paz à sua alma) e Xistra, e o imbatível Olegário Benquerença, que está para a arbitragem como o nome de Possidónio Cachapa está para a literatura.

A minha memória também é habitada por árbitros estrangeiros e os seus nomes de ressonâncias ficcionais, estrangeiras e musicais: Joël Quiniou, Sándor Puhl, Michel Vautrot, Mario van der Ende, Pierluigi Pairetto e Brizio Carter. Outros aparecem-me em todo o esplendor arbitral, como o longilíneo Kim Milton Nielsen e o pretor do apito Pierluigi Collina, o único árbitro capaz de pedir meças a alguns jogadores no campeonato das celebridades. Independentemente das suas qualidades técnicas, o que distinguia Collina era a sua presença. Se o símbolo da justiça é uma estátua vendada, o símbolo da justiça futebolística poderia ser um busto de Collina de olhos bem abertos e cabeça glabra.

Este Mundial já me ofereceu dois nomes para essa constelação de juízes, os únicos que mencionei nestas crónicas: o argentino Néstor Fabián Pitana e o holandês Bjorn Kuipers. Curiosamente, foram ambos escolhidos para estar na final de domingo. Pitana nas quatro linhas, Kuipers como 4º árbitro. Interpreto esta coincidência como um desmentido daquela noção comum que o melhor árbitro é o árbitro “invisível”. Pitana, até mais do que Kuipers, rapidamente se fez notar. A partir do momento em que a Argentina foi eliminada, era quase impossível que não fosse ele o escolhido para o jogo decisivo.

Num campeonato em que uma das más novidades foram os protestos de jogadores e treinadores a reclamar a intervenção do VAR, Pitana, no início do jogo França-Uruguai, arrumou logo essas pretensões, com berros e uma linguagem corporal e gestual que dizia claramente “não me venham cá com essas merdas do VAR porque quem manda aqui sou eu.” Havia o risco de uma medida acertada – a introdução do VAR – se tornar num pretexto para motins recorrentes e empolamento de queixas. Naquele momento, Pitana (um nome de árbitro, se é que isso existe) resolveu um problema à FIFA e reservou o seu lugar para a final de domingo. Fê-lo, quer-me parecer, com a noção adequada do poder visual da atuação do árbitro. Com isto quero dizer que Pitana foi um verdadeiro vídeo-árbitro, o árbitro que se comporta com plena consciência de que está a ser visto, o árbitro que sabe que uma componente do seu trabalho é a forma como jogadores, público e tele-espectadores o vêem, num sentido literal. A “presença” do árbitro, para usar novamente este termo de conotação religiosa, é um instrumento da sua autoridade.

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