“A franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade. Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua ideia. A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos quase pueris. A imaginação que leva sempre a exagerar até à mentira e, ao mesmo tempo, um espírito prático, sempre atento à realidade útil.” 

As frases, estas e outras, são de João Gouveia, personagem de Eça de Queirós. Na mensagem de Ano Novo e já alinhavando a conclusão dos seus mandatos como Supremo Magistrado da Nação, Marcelo Rebelo de Sousa invocou astuciosamente Portugal, os portugueses e principalmente os fantasmas que carregará, ele próprio, quando sair do Palácio de Belém. Empreitada audaz, até para Marcelo, que nem assim lhe levou mais do que cinco minutos, a duração da comunicação.

As frases citadas acima, proferidas por si, são d`A Ilustre Casa de Ramires, e permitiram ao Presidente da República cessante aproveitar as altruístas virtudes da boca alheia para dizer de Portugal e dos portugueses o que lhe vai na alma, sem lhe pesar o ónus de ficar como o inventor da adjetivação.

Não gozo dos necessários talentos para fazer a completa hermenêutica do que Marcelo disse e quis esconder. Mas a singularidade da mensagem, sobretudo na sua forma – estranhamente curta, apressadamente lida, meticulosamente pesada e medida –, fazem-me pensar sobre o que foi, afinal, Marcelo Rebelo de Sousa, e de que forma vai o curso da História ser justo com ele.

Marcante professor, comunicador nato e raro, comentador-mor do regime, intriguista pelo gosto, rei das selfies por estratégia, próximo e generoso na sua natureza, ineficaz ou nem sempre alinhado com a dignidade do cargo. Muleta de António Costa, mau julgador de Montenegro, protagonista dos mais insólitos episódios da política portuguesa, Marcelo foi tudo isto e mais ainda. A latitude da sua personalidade permite que cada português veja nele um Presidente distinto.

Bem sei que a verticalidade dos juízos modernos não permite que se lancem dúvidas, que se problematize, que se invoquem as nuances ou perspetivas próprias das personalidades complexas. Na última sondagem sobre a sua popularidade, 56% dos portugueses dão-lhe nota positiva. Apesar disso, suspeita-se que a última imagem que meio país levará de Marcelo seja, além de qualquer outra, a de que dele se esperava diferente dignificação do cargo, que desbaratou parte da inata popularidade que tinha conquistado ou até a de que sai derrotado, sem conseguir antecipar as transformações do regime de que foi supremo obreiro e arquiteto.

Os factos são os factos, e Marcelo falhou gravemente num dos objetivos que norteou a sua primeira campanha para Belém: contribuir para a despolarização do país e para pacificar a sociedade portuguesa. É tão certo quanto justo dizer que a esse falhanço se pode atribuir a fatalidade histórica de que nada havia a fazer, de que já nessa época acontecia noutras latitudes o que inevitavelmente chegaria a Portugal. Não restam, contudo, dúvidas de que na saída de Marcelo Portugal é um país muito mais polarizado do que foi na sua chegada.

Menos substancial, mas talvez igualmente simbólica, foi a sua vontade, frequentemente reiterada, de reduzir drasticamente o número de sem-abrigos até 2023, louvável e honrosa meta depois prorrogada para 2026. Não desconhecemos, novamente, a nossa sina coletiva dos últimos anos: uma pandemia, uma grave crise inflacionista e um povo inexoravelmente sacrificado, incapaz de encontrar o topo da montanha que não desiste de subir. Não duvido nem por um momento de que tenha procurado afirmar aquela sua pura e dedicada vontade; contudo, a fatalidade do Portugal adiado leva-nos a concluir que também aqui falharam os intentos de Marcelo. O número de sem-abrigos em Portugal triplicou entre 2017 e 2024.

Em alguns detalhes não deixei, contudo, de ver o extraordinário Marcelo que nos tinham prometido, homem de superior inteligência e dedicado trato, dimensões talvez mais visíveis na forma do que na matéria mas em alguns casos igualmente memoráveis. Recordo, por exemplo, o notabilíssimo ensaio nas cerimónias fúnebres de Mário Soares, em 2017. O debate frente a André Ventura na campanha para 2021, em que com meridiano bom-senso distinguiu da perversão dos extremismos os valores da direita social. Ou até a franca humanidade que demonstrou no conforto às vítimas dos incêndios de Pedrógão e que aos mais esperançosos e otimistas deste mundo fez pensar que foi também para isto que se fez a Política.

É provável que o tempo se encarregue de esclarecer as incertezas sobre que lugar guardará Portugal para a história de Marcelo. Enquanto eminente Professor, espero-o também certo quando assegurou, nesta sua última mensagem de Ano Novo – autoavaliando tanto os remorsos e fantasmas que carrega dos seus mandatos como o próprio país -, a certeza de que o futuro será “melhor do que o passado”. Oxalá que esse seja o seu definitivo acerto.