As eleições presidenciais estão marcadas para 18 de janeiro e quanto a elas temos, pelo menos, uma certeza: parece certo que ganhe quem ganhar, nada se decidirá na primeira volta. O próximo Presidente da República tornar-se-á o segundo a ser eleito nesse segundo turno do sufrágio presidencial, depois de Mário Soares ter derrotado Freitas do Amaral em 1986.
Será por isso importante percebermos, antes de mais, quem pode, legitimamente, aspirar a chegar a essa segunda volta. As hipóteses são variadas e a aritmética dos candidatos do grande centrão – Marques Mendes, António José Seguro e Gouveia e Melo, cujas razões para não o considerarmos nesta grande faixa aglutinadora desconhecemos – desejará, de forma não tão secreta assim, que André Ventura seja um dos candidatos com quem possam disputar a segunda volta. A elevada taxa de rejeição do líder do Chega garante, com a sempre incerta probabilidade das previsões eleitorais, que qualquer candidato que entre com ele no ringue para um mano-a-mano sairá vencedor.
António José Seguro tem, certamente, a legítima ambição de ser um dos afortunados a alcançar a quase mítica segunda volta. O ex-líder do PS reúne um conjunto de caraterísticas que o torna parte do singelo lote de socialistas que eventualmente será tão ou mais apreciado por quem não o é do que pelos militantes do próprio partido. É um homem com méritos e deméritos, mas aparece-nos sobretudo como uma pessoa decente, aparentemente ponderada e que conseguiu conservar a sua dignidade quase intacta ao longo dos anos. Não é, a par com Marques Mendes, um candidato de profundos amores e ódios, e isso garante-lhe, pelo menos, que não lhe faltará caminho para andar e votos para tentar disputar.
Seguro tem, assim, esperanças legítimas de ser um dos dois primeiros. Para lá chegar o caminho é simultaneamente estreito e sinuoso, mas creio que um aspeto chave será o candidato não renunciar às suas origens: não concretamente ao PS, mas ao legado de uma esquerda moderada, humanista, progressista e responsável, de que naturalmente faz parte. Depois de há duas semanas, em entrevista ao Público – quando questionado sobre se era uma pessoa de esquerda -, ter pedido que “não o fechassem em gavetas”, Seguro corrigiu o tiro alguns dias depois na Grande Entrevista da RTP, onde assumiu ser “da esquerda moderada e moderna”, acrescentando até que “houve infelicidade” naquela sua primeira resposta.
Do ponto de vista estratégico fez bem em corrigir a mensagem. Para poder disputar a eleição, Seguro tem, antes de mais, de passar à segunda volta e a melhor hipótese que tem para o conseguir é arregimentar o eleitorado socialista. Seguro não apareceu cedo, esteve dez anos afastado do frenético mediatismo da ordem do dia e, admitamos, levantar multidões não é um dos seus maiores atributos. Mas o PS, apesar do tortuoso caminho que tem pela frente, mostrou, nas eleições legislativas de 2025, que num dos períodos mais negativos da sua história ainda vale cerca de 1 milhão e 400 mil votos, correspondentes a quase 23%. Não é, com certeza, um registo de desprezar.
Não é nem por sombras certo que Seguro consiga arregimentar todos estes eleitores ou que venha a existir uma correspondência direta entre os votos no PS e os votos em si próprio: contudo, num cenário de elevada fragmentação eleitoral, 1 milhão de votos podem ser suficientes para garantir a passagem à segunda volta. É certo que Seguro e a sua persona polida, moderada e decente garantir-lhe-ão alguns descontentes da AD, uma mão cheia de órfãos do Livre e eventualmente até algum eleitorado flutuante da área do Bloco de Esquerda e do PCP. Contudo, será mesmo a grande massa eleitoral do PS que consubstancia o maior saco de votos que pode conquistar.
Seguro deve, então, continuar a aprimorar a mensagem de campanha que vai apresentar nos próximos dois meses. Deve, pacientemente, procurar assumir a sua serena pose de estadista, não escondendo as origens partidárias que todos lhe conhecemos mas coibindo-se de as invocar em excesso. Mas deve, sobretudo, assumir-se mais frequentemente como embaixador da tal esquerda moderada, sem rodeios ou hesitações. Fazê-lo é a melhor chance de poder disputar a eleição presidencial.
Se ajustar em demasia a mensagem para procurar, ativamente, o eleitorado do centro-direita, vai deparar-se com forte oposição. Marques Mendes parece ter conseguido consolidar a sua posição, segurando grande parte do eleitorado da AD e plantando, aqui e ali, sementes para os flutuantes de outras latitudes políticas. Gouveia e Melo, por outro lado, tem procurado, hibridamente, a posição que entende trazer-lhe mais simpatia a cada momento e Cotrim de Figueiredo, consideravelmente maior do que o seu próprio partido, pescará parte dos seus votantes fora da IL.
Seguro é inteligente e se continuar a olhar para o lado vai perceber que a oposição à esquerda é menor do que ao centro-direita. Cabe-lhe continuar a afirmar-se da esquerda moderada e, correndo-lhe operacionalmente bem a campanha, poderá ainda conseguir morder os prováveis votantes de Jorge Pinto, Catarina Martins e até de António Filipe, engrossando o seu potencial eleitoral.
Recuperamos a deixa de Moretti quando, em 1998, recomenda à sua própria personagem que diga “alguma coisa de esquerda”. Neste caso, é boa ideia que António José Seguro aposte em “dizer coisas da esquerda moderada”, no resto da campanha.