Pode não parecer, mas as pré-campanhas e as campanhas são exercícios dificílimos. Mais ainda quando a eleição é nacional e o foco encontra-se inteiramente sobre os comportamentos de uma única pessoa, como é o caso da eleição para Presidente da República.

Estes períodos exigem dos candidatos o exercício de um conjunto de capacidades e talentos comuns a poucas outras atividades ou desafios profissionais. Numa manhã, o candidato começa por dar uma entrevista a uma rádio. De seguida parte para um almoço com apoiantes, obrigando-se, naturalmente, a ouvir e a responder o melhor possível a todos os que conseguir, velhos e novos, ambiciosos e frustrados, reverentes fãs ou independentes na dúvida. A meio da tarde – e muitas vezes sem saber como lá foi parar – o candidato visita uma feira onde lhe cumpre ir a todas as barraquinhas, de preferência juntando ao cumprimento simultaneamente rápido e demorado a compra de meias ou de farturas. Com o dia a acabar senta-se em estúdio para debater com os seus adversários, com pelo menos centenas de milhar de pessoas a acompanhar em direto e num contexto onde uma hesitação de três segundos pode constituir um golpe mortal. E isto repete-se por semanas e semanas seguidas.

É por isso natural que estes processos não sejam isentos de erros; os candidatos, sendo humanos, não vão estar sempre no seu melhor. Mesmo com um planeamento detalhado e contando com equipas profissionais, as campanhas são pródigas em imprevistos, desafios de última hora, situações novas ou becos sem aparente saída; há, a adicionar a esses fatores, a falência do próprio candidato. Os erros podem ser variados e vão desde ser encurralado num debate, reagir exasperadamente contra um jornalista ou cometer uma incongruência manifesta num aspeto do programa apresentado, exposta por um adversário.

Como refere o título do artigo, pretendo focar-me num candidato concreto. Mais de metade de dezembro ficou para trás e temos poucos debates pela frente. Por esta altura, os candidatos já visitaram IPSS, queijarias e associações académicas, percorreram milhares de quilómetros e deram dezenas de entrevistas. Esta é a altura de chegarem a todo o lado, custe isso o que custar.

É natural que todos já tenham cometido pelo menos um erro manifesto. João Cotrim Figueiredo foi encurralado no debate frente a Marques Mendes, a propósito da questão das pressões para desistir. António José Seguro errou no início da pré-campanha, ao ter dificuldade em afirmar-se como sendo de esquerda (erro que veio a corrigir, mais tarde – talvez demasiado tarde?). Henrique Gouveia e Melo tem demonstrado dificuldades tão graves quanto previsíveis em quase todos os debates.

Em quanto me foi dado a ver, Luís Marques Mendes ainda não cometeu nenhum erro substancial na sua candidatura. Esta proeza é admirável; relembremos que até ao fim de maio a grande maioria das sondagens conhecidas atribuía a Henrique Gouveia e Melo uma intenção de voto quase sempre 10 pontos percentuais acima de Marques Mendes. LMM não se desviou do rumo que lhe tem conduzido não só a campanha como os últimos anos de aparições públicas: o constante apelo à experiência e à estabilidade, os debates e as entrevistas meticulosamente preparadas e uma presença pública consistente e assertivamente serena.

Depois do Ano Novo teremos duas semanas pela frente numa campanha de rua não isenta de riscos. Teremos seguramente uma segunda volta e essa segunda campanha terá necessariamente uma dinâmica distinta da primeira. Creio, contudo, que vale a pena reiterar a coerência tática e a consistência esfíngica que Marques Mendes tem apresentado nos últimos meses. Devo confessar que não o acho a personagem mais inspiradora do nosso tempo, nem sequer da política portuguesa contemporânea. Mas parece igualmente evidente que é ele quem melhor preparou o ataque a esta eleição presidencial.