Para começar, dizer o óbvio: bendita a chegada da nova semana, em que por um breve momento podemos recuperar o fôlego da frenética disputa eleitoral que vivemos e encontrar tempo para os primeiros balanços.
É verdade que as sondagens dos últimos dias de campanha acertaram nos dois finalistas. Mas não esqueçamos, contudo, que este emparelhamento parecia rebuscado. E não foi isso assim há tanto tempo. Numa rápida retrospetiva, recordamo-nos, por exemplo, do absoluto domínio de Gouveia e Melo nos estudos de opinião, que levou muitos, quase noutro tempo histórico, a aventarem a possibilidade de o Almirante arrumar a questão no primeiro turno. Lembramos, também, essa distante época em que Ventura ainda parecia estar a decidir sobre se ia ou não a jogo, da mesma forma que não nos esquecemos dos prolongados e inexplicáveis solavancos do PS sobre o apoio ao seu candidato, assim como do trajeto que se aparentava sólido e em crescendo de Marques Mendes. Isto que retrato não era a realidade de há anos, nem de há meses. Era o prato do dia que nos serviam há poucas semanas. O tempo político que vivemos é outro, e as vinte noites entre a primeira e a segunda volta podem tornar-se uma eternidade.
Vamos à análise. Começo pelo sempre sábio plural majestático: estamos convictos de que André Ventura não será o próximo Presidente da República, e que vai ser António José Seguro a suceder a Marcelo Rebelo de Sousa no lugar de mais alto magistrado na nação. Foi-se instalando, na nossa consciência coletiva – não sem algum substrato empírico -, a ideia de que o candidato apoiado pelo Chega, alcançando a finalíssima, seria sempre derrotado por qualquer um dos outros quatro – e que, por maioria de razão, será também derrotado por Seguro, hipótese corroborada pelos estudos de opinião.
Será mesmo assim? É uma visão que parece lógica e provável. Tenho ouvido, sobretudo, dois tipos de argumentos que justificam as previsões antecipadas de derrota para André Ventura. O primeiro germina diretamente do plano do wishful thinking e consubstancia-se numa espécie de “fezada” de que os portugueses, quando chamados a escolher entre a moderação e a agressividade, a racionalidade e o populismo, vão escolher a moderação e a racionalidade. É provável que seja verdade. Mas pelo sim, pelo não, diria que é melhor evitarmos colocar demasiadas vezes à prova essa hipótese.
O segundo argumento, seguramente mais detalhado, é explicado por uma aritmética simples: Seguro fará o pleno dos votos da primeira volta (31%), conseguirá ir buscar a quase plenitude dos cerca dos 6% que estão à sua Esquerda e conquistará mais de metade dos votos de Marques Mendes, Cotrim e Gouveia e Melo (uns 25, dos 40% disponíveis). Tudo isto, junto e somado, fará Seguro ser eleito Presidente da República com sessenta e poucos por cento. Reitero que me parece uma hipótese razoável e provável.
A conclusão tem, contudo, algumas insuficiências. A primeira é subvalorizar o terramoto político que significaria André Ventura alcançar uma votação na casa dos 35%-40%, ainda que Seguro fosse eleito Presidente. Ventura autointitular-se-ia, imediatamente, como o líder sociológico da Direita portuguesa, com todas as complicações e desafios que esse estado de coisas acarretaria para o nosso bom povo do centro e da Direita moderada.
O segundo problema desta hipótese é desconsiderar a relevância de a Direita ser política e sociologicamente maioritária em Portugal, com mais de 60% dos votos expressos em urna nas legislativas de 2025. Não me interpretem mal: revejo-me nos méritos de se escolher a moderação em detrimento do populismo, e votarei em António José Seguro. Contudo, o que nos preparamos para fazer é pedir a eleitores da Direita para votarem na Esquerda quando podem votar na Direita, ainda que esta Esquerda seja moderada e centrista e aquela Direita radical e populista. Creio que devemos estar confiantes, mas não embandeirar em arco.
Se olharmos mais em detalhe para a disputa, reparamos-lhe os traços de grande interesse. Descontando os eleitoralmente pouco relevantes António Filipe e Catarina Martins, Seguro é definitivamente o candidato com quem Ventura prefere disputar o segundo turno. Vai permitir-lhe continuar a desenvolver o seu já vastíssimo leque de ataques ao PS e à Esquerda, colando-o aos piores vícios do costismo e invocando os fantasmas do socratismo. A mensagem, no seu ponto de vista, será simples: “se não querem o PS e o socialismo que destrói o país, votem em mim”. Isto apesar de Seguro não ser a primeira figura que nos vem à cabeça quando pensamos em socialismo. E menos ainda em costismo ou socratismo. Mas para Ventura – que necessitará de um especial engenho para combinar essa retórica com a pose pacífica que tentou ensaiar – nada disso importa. Como sabemos.
Seguro é, por outro lado, um dos socialistas em quem mais facilmente os sociais-democratas aceitam confiar um voto de salvação do país, na impossibilidade de votarem no seu próprio candidato. Suspeita-se, também, que a convivência entre Governo e Presidência possa ser aceitavelmente positiva, considerando a personalidade de Seguro. Tem, por esse motivo, o caminho facilitado para amealhar votos na Direita moderada. Entre Marques Mendes e Cotrim há 1.6 milhões de votos em disputa. Adicionando Gouveia e Melo, são 2.3 milhões.
Não é provável que nas três semanas que separam a primeira da segunda volta André Ventura consiga conquistar os votos suficientes para vencer a eleição. Mas Seguro não pode dar a disputa por garantida. Testemunhámos, nas últimas semanas, a rapidez com que uma campanha pode mudar de sentido; Gouveia e Melo passou de favorito a ganhar à primeira volta para ficar fora da segunda, com Marques Mendes a situação foi semelhante e Cotrim deu um trambolhão em direto, não sobrevivendo à sua semana horribilis.
Resumindo, as favas já estão no prato, mas Seguro vai ter de contá-las. E sem erros.